Festival homenageia Van Sant e marca estreia de curta mineiro

Dandara, coprodução do Estado de Minas e da produtora Mult dirigido por Fred Bottrel e Flávia Ayer, terá sua estreia no Mix Brasil neste domingo, em sessão às 15h30

por Redação 19/11/2017 06:00
FRED BOTTREL/EM/D.A PRESS
Dandara, curta dos repórteres do Estado de Minas Fred Bottrel e Flávia Ayer, será exibido hoje. Na foto, sapato de salto da travesti cearense assassinada em fevereiro deste ano, aos 42 anos (foto: FRED BOTTREL/EM/D.A PRESS )
O 25º Mix Brasil, que começou na última quarta-feira e prossegue até o próximo domingo, em São Paulo, homenageia nesta edição o cineasta norte-americano Gus Van Sant. A seleção deste ano do Mix Brasil inclui vários longas-metragens indicados por seus respectivos países para concorrer a uma vaga na disputa pelo Oscar de melhor filme estrangeiro. Mas, por mais que o público queira saber de novidades, a homenagem a Van Sant renova o interesse por sua obra.

Além de Elefante (2003), que recebeu a Palma de Ouro no Festival de Cannes, a retrospectiva dedicada a Van Sant exibe Mala noche (1985), Garotos de programa (1991), Até as vaqueiras ficam tristes (1993), Um sonho sem limites (1995) e Milk: a voz da igualdade (2008).

Em seu Dicionário de cinema, o crítico francês Jean Tulard diz que Van Sant é o cineasta dos marginais, dos drogados e dos homossexuais. Seria possível acrescentar também dos solitários. Questionado sobre o que acha da ideia, Van Sant respondeu por e-mail: “Acho que é uma avaliação acurada para alguns dos filmes, não todos. Também relativizo a ideia da solidão, porque acho que, quando se usam grupos de outsiders para contar histórias, como eu faço, é até natural que as pessoas pensem em solidão, mas, nos meus filmes, eles nunca estão sozinhos”.

Sobre o fato de ser agraciado com o prêmio Ícone Mix, afirmou que “a homenagem será feita a um autor queer que nem sempre filma histórias e personagens queers. É uma honra receber um prêmio desses numa cidade tão bonita no Brasil e que abriga um festival Mix. Mas, se ele é Mix, presumo que seja ‘mixed’ (misturado) e que não contemple somente uma coisa. Minha definição de ‘queer’ abrange o que foge à esfera do padrão heterossexual, e é esse o mundo em que vivo”.

Van Sant fez filmes muito diversos, e a retrospectiva no Mix Brasil dá conta dessa diversidade. “Gosto de trabalhar com diferentes maneiras de contar histórias. Estou sempre buscando novas formas, mesmo sem saber se algum dia vou encontrar um caminho realmente novo, porque, afinal, sou prisioneiro da minha educação. Estão surgindo novas formas de expressão porque as pessoas estão filmando com suas câmeras, sem nenhuma preocupação com regras. A ignorância nos salva. É muito interessante constatar que é dessa maneira, no limite, que o cinema está mudando”, afirma.

DANDARA
O curta-metragem mineiro Dandara, coprodução do Estado de Minas e da produtora Mult dirigido por Fred Bottrel e Flávia Ayer, terá sua estreia no Mix Brasil hoje, em sessão às 15h30. O filme volta a ser exibido na terça-feira, às 19h30, na Sala Lima Barreto do Centro Cultural São Paulo (CCSP), com entrada franca.

Gravado em março deste ano, o curta se originou da reportagem especial O martírio de Dandara, publicada pelo Estado de Minas no mesmo mês e disponível para leitura no site www.em.com.br. Com trilha sonora original do músico Rafael Braga, o documentário de 14 minutos mostra os locais onde Dandara nasceu, viveu, trabalhou e morreu, aos 42 anos, em Fortaleza, no Ceará.

O vídeo com as agressões à travesti Dandara Kataryne ganhou as redes sociais em fevereiro de 2017. A partir do caso de grande repercussão, os diretores decidiram ir atrás da história não contada da brasileira que não tinha medo de ser mulher. Com depoimentos de pessoas que conviveram com ela, o curta traça o retrato humano de uma figura que se tornou conhecida em todo o Brasil a partir da divulgação das imagens de sua morte. Levada em um carrinho de mão para morrer, Dandara poderia limitar-se a uma estatística no país que mais mata travestis e transexuais. Mas o caso ganhou notoriedade justamente a partir das imagens gravadas pelos próprios agressores.

Fred Bottrel e Flávia Ayer são repórteres do Estado de Minas. Ele estreou na direção com A ala (2014), curta que recebeu menção honrosa do júri do Mix Brasil, foi eleito o melhor filme pelo voto popular e recebeu o Prêmio Canal Brasil de Incentivo ao Curta-Metragem no festival daquele ano. O título foi exibido em mais de 20 festivais internacionais.

Flávia Ayer é repórter de política e economia. Com Dandara, faz sua estreia na direção cinematográfica. É também celebrante de casamentos e está à frente da Amor Sempre Vivo – Celebrações com história, em que se propõe a celebrar toda forma de amor. (Da redação com Agência Estado)

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