João Moreira Salles explica ao EM o que o levou ao tema do documentário No intenso agora

Em cartaz em Belo Horizonte, filme mostra efervescência do mundo em 1968 e o posterior desencanto

por Carlos Marcelo 12/11/2017 09:01

Videofilmes/divulgação
A Revolução Cultural chinesa, documentada pela mãe do cineasta: encantamento pela ebulição (foto: Videofilmes/divulgação)

Há muitos filmes no novo filme de João Moreira Salles. São mais de 30, quase todos em preto e branco. Os trechos foram selecionados de documentários e arquivos sobre os acontecimentos na França, Tchecoslováquia e Brasil de 1968 – a passeata de protesto pela morte de Edson Luís Souto, seguida pelo enterro do estudante paraense durante a ditadura militar. Mas, em No intenso agora há também um filme despretensioso, em cores quentes, curioso, vibrante. Trata-se do registro visual que a mãe do documentarista carioca, Elisa Margarida Gonçalves (1929-1988),  fez de viagem de turismo à China, em 1966, durante a Revolução Cultural implantada por Mao Tsé-Tung. “No final do Santiago (documentário anterior do diretor), encontrei o material da China, que eu desconhecia. Sabia da viagem, volta e meia minha mãe falava, parecia um episódio importante da vida dela. Mas não sabia das imagens”, conta João Moreira Salles em entrevista ao Estado de Minas. A experiência chinesa de Elisa, “momento singular, de grande deslumbramento”, foi o ponto de partida para o novo documentário do autor de longas-metragens como Nelson Freire (2003) e Entreatos (2004). “As imagens ficaram na minha cabeça, mas não sabia bem o que fazer com elas”, reconhece.

Depois de descobrir relato escrito por sua mãe para a revista O Cruzeiro, João Moreira Salles percebeu, na junção de imagens e palavras sobre a China, uma Elisa como nunca tinha visto em família, “inteiramente alinhada com as forças vitais da existência, com o fato de estar viva naquele momento, naquelas circunstâncias”, conta. “Ela vai para um país em plena ebulição revolucionária, no momento mais agudo de uma revolução que nega tudo o que ela é: a classe social, as crenças, a fé. Mas ela não se horroriza. Minha mãe se encanta”, afirma o documentarista, desde 2006 editor da revista piauí.

O  que sobra do contraste entre a euforia e o desencanto? Eis a pergunta que moveu o cineasta para a ilha de edição em 2011, depois de imersão em leituras e do resultado de extensa pesquisa de imagens, feita por Antonio Venancio. Com os montadores Eduardo Escorel e Laís Lifschitz, João começou a materializar o filme nascido de uma abstração, um sentimento simbolizado nos registros da mãe e dos que documentaram um dos acontecimentos mais marcantes do século 20. Algo se foi, nunca mais voltará, afirmam as imagens dos anos 1960 reunidas em No intenso agora. Nelas, a mãe do diretor, os estudantes nas ruas de Paris, a cantora tcheca Marta Kubisova (que se destacou na Primavera de Praga e depois foi silenciada), todos se mostram intensamente felizes. Ao menos por algumas semanas. Porque sempre há o depois. Ou quase sempre.
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Estudantes em Paris em maio de 1968: "Foi um movimento estupendo, mas no fundo não teve ambição de mudar as estruturas de poder. Teve a festa, mas não o custo de uma verdadeira revolução", analisa Salles (foto: Videofilmes/divulgação)

A melancolia impregna os fotogramas escolhidos por João Moreira Salles. Irradia até as pausas da narração do diretor e alcança os silêncios que encobrem as imagens. Além das múltiplas leituras (em especial, as possibilidades de conexão entre os fatos ocorridos na França em 1968 e as manifestações no Brasil de 2013), a força de No intenso agora se estabelece por um duplo confronto, universal e particular, com o passado. O embate se dá por meio das ações do intelectual, capaz de organizar a aleatoriedade e questionar de forma provocativa as imagens de outros realizadores, e do filho, que tateia em busca da única aproximação possível com a mãe inalcançável e se expõe ao incluir, de forma sutil, uma referência ao suicídio de Elisa. “Mamãe” é a chave para a compreensão dos riscos assumidos pelo cineasta: nunca pronunciada na vida adulta, a palavra carinhosa surpreende e, ainda que em tom menor, decreta a vitória da emoção sobre a reflexão. Arrebata.

Depois de exibições concorridas e prêmios em festivais internacionais, o documentarista se diz curioso para observar a receptividade brasileira a No intenso agora. Ele estava com a família em Paris, em 1968: “Tinha seis anos, não lembro de nada”. Em mais de uma hora de conversa antes da pré-estreia em São Paulo, chama a atenção o fato de o nome mais pronunciado durante a entrevista não ser o de Daniel Cohn-Bendit (um dos expoentes do maio de 68 na França, se é que se pode falar de lideranças), do estudante tcheco Jan Palach ou mesmo o da mãe, todos presentes em No intenso agora: é o do amigo documentarista Eduardo Coutinho, morto em 2014. “Assim como Cabra marcado para morrer era um filme que só o Coutinho podia fazer, esse meu filme também é muito pessoal. E esse é o grande risco, talvez algumas pessoas achem que as coisas mostradas não se ligam. Se isso acontecer, fico triste, mas é compreensível”, diz o diretor. “De toda maneira, foi uma etapa necessária para eu entender que dá para fazer um filme assim: com material de YouTube, celular, fotos antigas, o que for. Se eu tenho alguma coisa a dizer, eu digo e pode virar filme. Agora, tudo é possível para mim.”


“A felicidade é uma espécie de competência; você tem, mas não há garantia de que irá mantê-la” - joão moreira salles

No intenso agora
Documentário, 127 minutos.
De João Moreira Salles.
 Cine Belas Artes 3, 19h.

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