O formidável: Michel Hazanavicius faz retrato nada simpático de Godard

Longa ambientado nos anos 1960 é baseado nas memórias da primeira mulher do mestre da Nouvelle Vague

por Breno Pessoa 26/10/2017 08:00


IMOVISION/DIVULGAÇÃO
IMOVISION/DIVULGAÇÃO (foto: IMOVISION/DIVULGAÇÃO)
Rio de Janeiro – Nome sagrado para muitos, o cineasta francês Jean-Luc Godard ganhou um retrato bastante mundano em O formidável, filme do conterrâneo Michel Hazanavicius, que estreia hoje nos cinemas e teve sua primeira exibição pública no país durante o Festival do Rio, realizado entre os dias 5 e 15 deste mês. Com Louis Garrel no papel principal, a comédia dramática resgata o período entre 1967 e 1970, quando o ícone da Nouvelle Vague passou a assumir veia política na sua obra e participação nos protestos de maio de 1968.

Excelente no papel, Garrel representa o cineasta de forma inevitavelmente cômica, mas nunca caricata. A rabugice e a pretensão vislumbradas no longa parecem condizentes com a imagem pública que se criou em torno do prolífico e revolucionário diretor, provavelmente tachado, em igual medida, como genial e difícil.

“Eu, realmente, não ligo para Godard, no geral”, afirma Michel Hazanavicius, mais conhecido por O artista (2012), obra-sensação que abocanhou cinco Oscars, incluindo o de melhor diretor e filme. “Digo, não é que, de fato, eu não me importe, mas não pensaria em fazer um filme sobre ele”, acrescenta, embora reconheça não ter o cineasta entre os seus realizadores favoritos. “Gosto dos trabalhos iniciais, mas depois, a partir de 1967, 1968, acho que ele se perdeu.”

O formidável é baseado no livro de memórias Un an après (Um ano depois), escrito por Anne Wiazemsky (no filme, interpretada por Stacy Martin), ex-mulher de Godard. O casal se conheceu quando ela participou de A chinesa (1967). A atriz e escritora morreu em outubro deste ano, em decorrência de um câncer. “Quando li o livro, vi que esse período da vida dele era muito interessante e intenso para um roteiro: a história de um cara que mudou radicalmente. E a maneira como ele mudou é impressionante”, diz Hazanavicius.

Após comprar os direitos de adaptação, o cineasta entrou em contato com Godard, por carta, para avisar sobre a produção do filme. “Ele respondeu me pedindo para ver o roteiro. Enviei o script, mas não tive retorno”, conta. Hazanavicius emula, na direção, a estética e o estilo godardiano dos anos 1960. “Não tentei mimetizar Godard. Tentei utilizar algumas de suas características e colocá-las na minha história. Não é um filme de Jean-Luc Godard, é o meu filme.”

*O repórter viajou a convite do Festival do Rio

 

CRÍTICA: É IMPOSSÍVEL AMAR O FORMIDÁVEL

 

por Silvana Arantes

 

“Só se ama errado” é uma conclusão a que chega o cineasta pernambucano Cláudio Assis em seu longa de estreia, Amarelo manga (2002). A regra pode até não ser geral, mas se aplica bastante bem ao caso do diretor francês Michel Hazanavicius (O artista) com o objeto de atenção de seu novo longa, O formidável, que estreia nesta quinta (26/10) no Brasil.

Embora seja baseado nas memórias da atriz e escritora Anne Wiazemsky (1947-2017) sobre seu casamento com o cineasta Jean-Luc Godard, o filme dispensa à personagem de Anne (Stacy Martin) um papel quase secundário em relação ao expoente da Nouvelle Vague, interpretado por Louis Garrel, de quem o diretor conseguiu subtrair quase todo o charme.

O formidável tem início em 1967, quando Godard roda seu longa maoísta A chinesa, tendo Anne como protagonista, e os dois se apaixonam. Ele com 37 anos, ela com 19, se casam. A filmografia do cineasta até então já conta com títulos como Acossado, O desprezo, Alphaville, O demônio das onze horas. Ou seja, Godard já incluíra no cinema francês e mundial um vocabulário próprio e uma assinatura de autor – reconhecível e admirada.

Mas é em tom de desdém, quase zombaria, que Hazanavicius trata as ambições artísticas e os exercícios intelectuais de Godard. O filme avança para o ano de 1968, quando o casal Jean-Luc e Anne toma parte nas assembleias e manifestações estudantis que chacoalharam Paris, e chega até o momento em que Godard decide diluir a ideia da autoria no cinema e empreender a aventura da criação coletiva no grupo Dziga Vertov. Godard o faz como uma tentativa radical de viver inteiramente de acordo com suas ideias, ou melhor, de transportar para as atitudes da vida prática suas convicções intelectuais. Mas, na abordagem de Hazanavicius, esse gesto se avizinha do ridículo.

DEFICIÊNCIAS Isso porque O formidável acentua tanto quanto pode as deficiências de Godard em suas interações pessoais. Ele soa soberbo com seus admiradores, covarde com os críticos jovens, indiferente aos sentimentos dos amigos, negligente com a mulher, mostrando-se quase incapaz de reconhecer como válidas as vontades “burguesas” de Anne e suas opiniões diferentes das dele.

Desagradável no limite da civilidade, discute indiscriminadamente, o que inclui ocupantes da mesa vizinha à sua num restaurante. Em casa, é capaz de interromper até o sexo para enunciar teses e preceitos de ação. Com o passar do tempo, revela-se mais e mais ciumento e sabotador da carreira de Anne.

Hazanavicius retrata Godard desse modo nada lisonjeiro, mas o faz decalcando o tempo inteiro os recursos empregados por Godard em seus filmes desse período. Há, por exemplo, gigantescos letreiros que estabelecem diálogo com a mise-en-scène, assim como comentários superpostos às cenas, ora feitos pelos atores, que “interrompem” a representação para encarar diretamente a câmera, ora na forma de legendas que “traduzem” os pensamentos não ditos num diálogo.

Uma elaboração sobre a utilização dramatúrgica da nudez é feita com o contraste de um diálogo em que, completamente nus no ambiente doméstico, Godard e Anne conversam (e discordam) sobre a pertinência do uso do nu no cinema.

O principal propósito de O formidável parece ter sido descrever Godard como mau amigo e mau marido e, por extensão, contaminar sua obra com o rótulo de hipócrita ou cínica. Num momento em que patrulhas de toda ordem escrutinam a vida pessoal dos artistas, aparentemente com a deliberada intenção de torná-los desprezíveis aos olhos do público amplo, esse objetivo talvez encontre mais eco do que deveria.

Com especial predileção por fazer mímica de O desprezo, O formidável tem uma parte importante de sua trama filmada numa locação que remete ao cenário (tanto a casa quanto o mar de Capri) do clássico godardiano. Além disso, Hazanavicius passeia sua câmera pelo corpo nu de Anne, numa reprodução quase exata da cena de O desprezo com Brigitte Bardot. O diretor de O formidável parece ter se esquecido de que é nesse filme que Bardot inquire seu parceiro (Michel Piccoli) com a pergunta: Tu m’aimes totalement? (Você me ama totalmente?).

Como poucos, Godard transformou em imagens a ideia de que o amor – e sua extensão – são inapreensíveis. Porém, é fácil reconhecer onde o amor não está, como nesse O formidável, um filme impossível de amar.

 

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