Veja opinião do chefe do comitê que definirá filme do Brasil no Oscar

Distribuidor Jorge Peregrino diz ser contra tentar adivinhar opinião dos acadêmicos de Hollywood e defende que escolha seja pelo 'melhor filme'; decisão que era do MinC passou neste ano para a Academia Brasileira de Cinema

por Silvana Arantes 15/09/2017 08:00

JOÃO NAVES/DIVULGAÇÃO
Bingo - O rei das manhãs foi escolhido para representar o país no Prêmio Goya, na Espanha (foto: JOÃO NAVES/DIVULGAÇÃO)
Numa reunião prevista para as 10h desta sexta (15/9) na Cinemateca Brasileira, em São Paulo, deverá ser definido o título que o Brasil apresentará à Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood como o seu representante na disputa pelo Oscar 2018 de melhor filme estrangeiro. O longa será escolhido entre 23 produções que se inscreveram na seleção aberta pelo Ministério da Cultura (confira a lista nesta página).

É de se supor que, uma vez divulgado o resultado, as reações se dividam entre a alegria dos que torciam pelo vencedor e o inconformismo dos fãs dos preteridos – exatamente como em todos os anos. O que haverá de diferente desta vez é que os responsáveis pela escolha mudaram.

O Ministério da Cultura se desvencilhou dessa obrigação, depois da intensa polêmica ocorrida no ano passado, quando a escolha de Pequeno segredo, de David Schurmann, foi envolta em suspeição. Pesou sobre o MinC a acusação de haver atuado deliberadamente (na montagem do comitê de seleção) para desfavorecer Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, cujo protesto contra o impeachment da presidente Dilma Rousseff feito na sessão oficial de seu longa em competição pela Palma de Ouro no Festival de Cannes suscitou críticas públicas do então ministro da Cultura Marcelo Calero.

A tarefa de indicar o candidato brasileiro, por decisão do ministro Sérgio Sá Leitão (Cultura), passou às mãos da Academia Brasileira de Cinema, que seria a congênere nacional da Academia de Hollywood. A ABC montou uma comissão com sete membros, sob a presidência do distribuidor Jorge Peregrino. Ele vai propor aos seus presididos, hoje, que escolham simplesmente “o melhor filme” e abandonem a ideia de tentar adivinhar o gosto da Academia de Hollywood, conforme disse em entrevista ao Estado de Minas.

“Acho muito brasileiro a gente querer saber qual é o gosto das pessoas que estão votando na Academia (de Hollywood). É muita pretensão. Se eu tivesse essa sapiência, já teria acertado”, afirma.

O retrospecto do desempenho do Brasil nessa categoria corrobora as palavras de Peregrino. Na história do Oscar, o país teve apenas quatro indicações a melhor filme estrangeiro, sendo a última em 1999 (Central do Brasil, que obteve também a indicação de melhor atriz para Fernanda Montenegro). Ainda assim, o argumento de escolher “o melhor filme para o Oscar” foi incansavelmente brandido, inclusive no ano passado, quando David Schurmann argumentou que seu filme tinha “chances reais”, por supostamente ser palatável à Academia, o que não se poderia dizer de Aquarius.

No fim das contas, Pequeno segredo não obteve uma vaga na disputa, e o vencedor foi o iraniano O apartamento, de Asghar Farhadi, que também esteve na competição pela Palma de Ouro em Cannes, ao lado do filme de Kleber Mendonça Filho, e obteve as Palmas de melhor roteiro (o próprio Farhadi) e ator (Shahab Hosseini). Mas, mesmo que a ideia de tentar corresponder a um suposto gosto dominante da Academia de Hollywood seja deixada de lado, resta saber o que é “o melhor filme” na opinião da comissão.

CANDIDATOS
Entre os 23 inscritos, há filmes que se dedicam ao passado colonial brasileiro, como Joaquim, de Marcelo Gomes, e Vazante, de Daniela Thomas; cinebiografias de grandes nomes da nossa música, como Elis, de Hugo Prata, e João – O maestro, de Mauro Lima, além de títulos que tentam capturar o sentimento dos cidadãos comuns no Brasil de hoje, caso de Corpo elétrico, de Marcelo Caetano, e Como nossos pais, de Laís Bodanzky, sem falar nas produções diretamente relacionadas à tumultuada vida política e econômica do país, como Real – O plano por trás da história, de Rodrigo Bittencourt, e Polícia Federal – A lei é para todos, de Marcelo Antunez.

Peregrino afirma discordar também de que seja instituído como critério de escolha o privilégio a histórias e/ou modos de contá-las genuinamente brasileiros. “Todos esses filmes demonstram uma visão de um momento do Brasil”, sintetiza. Porém, a escolha de Bingo – O rei das manhãs, de Daniel Rezende (indicado ao Oscar de melhor montagem por Cidade de Deus, em 2004), para competir na categoria de filme estrangeiro do prêmio Goya, o “Oscar espanhol”, definida anteontem por uma comissão da qual Peregrino fez parte, pode ser um indicativo do tom das discussões de hoje na Cinemateca.

Na justificativa de sua decisão, a comissão anotou que optou pelo filme de Rezende por “ser uma obra cinematográfica com consistente marca autoral, força criativa ao apresentar um universo genuinamente brasileiro e capacidade de se comunicar com plateias de todo o mundo”.

Agora, é tentar completar a cartela de adivinhações e ver quem diz “bingo”!

SAIBA MAIS

 

A comissão de seleção
Convidada pelo Ministério da Cultura a assumir a responsabilidade da definição do aspirante brasileiro ao Oscar de melhor filme estrangeiro, a Academia Brasileira de Cinema indicou de pronto três de seus membros como integrantes do comitê de seleção, segundo Jorge Peregrino, para atender em tempo à exigência da Academia de Hollywood de receber previamente os nomes dos responsáveis pela escolha.
Além de Peregrino, que é vice-presidente da ABC, constavam os nomes da produtora Iafa Britz e do diretor
do Canal Brasil Paulo Mendonça. Mendonça alegou conflito de interesses, já que tem participação em filmes concorrentes e se retirou, sendo substituído pelo suplente, o produtor André Carreira.Em seguida, a Academia Brasileira de Cinema abriu inscrição para os acadêmicos interessados em participar do comitê e submeteu os nomes dos inscritos à votação de todos os seus membros, segundo Peregrino. Os mais votados foram: David Schurmann (diretor), Doc Comparato (roteirista), João Daniel Tikhomiroff (produtor e diretor) e Mauro Faria Jr. (diretor).



CANDIDATOS INÉDITOS

Alguns dos filmes que pleiteiam ser o representante do Brasil no Oscar ainda não estrearam nos cinemas. É o caso de Vazante, de Daniela Thomas, que está em competição a partir de hoje no 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro (leia mais na página 4) e tem lançamento previsto para 9 de novembro, e de Gabriel e a montanha, de Fellipe Barbosa, cuja estreia está marcada para 2 de novembro. De acordo com as regras da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, os filmes inscritos têm que ter estreado em seus países de origem entre 1º de outubro de 2016 e 30 de setembro de 2017. Mas a Academia especifica na exigência um mínimo de “sete dias consecutivos em cartaz numa sala comercial”. Para cumprir a regra, os produtores podem se ater rigorosamente a esse critério e colocar o filme em cartaz por uma semana numa sala brasileira, mantendo a estreia nacional para depois desse prazo. Foi o que fez no ano passado Pequeno segredo.

23 FILMES E UMA SENTENÇA

Confira os títulos que disputam hoje a escolha
do representante brasileiro no Oscar 2018

» A família Dionti, de Alan Minas
» A Glória e a Graça, de Flávio Tambellini
» Bingo – O rei das manhãs, de Daniel Rezende
» Café – Um dedo de prosa, de Maurício Squarisi
» Cidades fantasmas, de Tyrell Spencer
» Como nossos pais, de Laís Bodanzky
» Corpo elétrico, de Marcelo Caetano
» Divinas divas, de Leandra Leal
» Elis, de Hugo Prata
» Era o Hotel Cambridge, de Eliane Caffé
» Fala comigo, de Felipe Sholl
» Gabriel e a montanha, de Fellipe Barbosa
» História antes da história (animação), de Wilson Lazaretti
» Joaquim, de Marcelo Gomes
» João, o maestro, de Mauro Lima
» La vingança, de Fernando Fraiha e Jiddu Pinheiro
» Malasartes e o duelo com a Morte, de Paulo Morelli
» O filme da minha vida, de Selton Mello
» Polícia Federal – A lei é para todos, de Marcelo Antunez
» Por trás do céu, de Caio Sóh
» Quem é Primavera das Neves, de Ana Luiza Azevedo e Jorge Furtado
» Real – O plano por trás da história, de Rodrigo Bittencourt
» Vazante, de Daniela Thomas

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