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11ª Mostra de Cinema de Ouro Preto homenageia Eduardo Coutinho

Evento também tem impactante performance sobre o papel da memória, colocando em diálogo lutas sociais de ontem e hoje

Walter Sebastião
Performance dirigida pelo videomaker Francisco de Paula na abertura do 11º CineOP - Foto: leo lara/DIVULGAÇÃO


OURO PRETO - Na abertura oficial da 11ª edição da CineOP – Mostra de Cinema de Ouro Preto, na noite de anteontem, autoridades, personalidades e patrocinadores passaram pelo palco do Cine Vila Rica. Mas foi a performance dirigida pelo videomaker Francisco de Paula que roubou a cena e ganhou aplausos. Numa edição cujo tema é a luta pela implantação de uma cultura da preservação junto a emissoras de TV, evocou-se no palco um programa de auditório com bailarinas, textos, reflexões, música ao vivo, em torno do tema da revisão do período que vai de 1976 a 1988, momento da redemocratização do Brasil.

O que se viu foi um convite feito à plateia para refletir sobre história, preservação e educação _todos temas caros ao CineOP. A performance envolveu trechos de noticiário televisivo e atuações ao vivo, colocando em diálogo lutas cidadãs de ontem e de hoje; manifestações de mulheres contra a cultura do estupro; ocupação de escolas pelos secundaristas; protestos contra o governo interino (e ouviu-se “Fora Temer” gritado pela plateia), ao lado de passeatas de 1968 e outras formas de luta contra a repressão e a ditadura militar que transformaram os artistas em porta-vozes da sociedade civil.

Rachel Hallack, diretora da Universo Produções, realizadora da mostra, observou, em seu discurso, que vivemos em tempos de cinema expandido, em que as ferramentas de produção e difusão de produtos audiovisuais estão sendo constantemente redimensionadas, permitindo que eles transitem da tela do cinema ao celular. Ela notou ainda que nesses tempos de compartilhamento, o cidadão se tornou um produtor de imagens, ampliando enormemente o acervo existente. “O que acende alerta sobre o que preservar, já que muito se perde”, enfatizou.

A homenagem ao cineasta Eduardo Coutinho (1933-2014) foi marcada pelo sentimento de perda. A atriz Inês Peixoto, do Grupo Galpão, entregou troféu a Laura Liuzzi, assistente do diretor. “Foi uma pessoa especial, que marcou e reverberou em todos que trabalharam com ele”, disse Laura.
“Eduardo Coutinho consegue transformar histórias comuns em algo importante e que abre o coração das pessoas. Foi um grande artista e um grande ser humano”, acrescentou Inês.

Durante cerimônia foi assinado protocolo de cooperação entre a Universo Produções e a Universidade Federal de Ouro Preto para recuperação do Cine Vila Rica.

A personalidade mais reverenciada foi o restaurador Chico Moreira (1950-2016). Carioca especialista em recuperação de filmes em película, um dos pioneiros da restauração no Brasil, Moreira foi o responsável pela recuperação dos filmes de Nelson Pereira dos Santos, entre outros. “Foi um verdadeiro artista que enfrentou e encontrou solução para estragos nos filmes às vezes considerados intransponíveis. Foi meu mestre”, afirmou Hernani Heffner, curador da temática Preservação. “Chico Moreira carregava, em si, conjugação rara de vivência em cinemateca, conhecimento técnico e da história do cinema no Brasil”, contou Rafael Luna, pesquisador, cineasta e curador.

*O jornalista viajou a convite do CineOP.