“É muito emocionante. Trabalhamos com um elenco internacional muito atrativo. Estamos fazendo o que eu acho que será uma série totalmente impactante no mercado latino”, define.
O décimo homem estreou no Festival de Berlim em fevereiro deste ano. O nome do filme no Brasil é totalmente diferente do original: El rey del once, título que acentua o caráter bairrista da produção. Toda a trama se passa no Bairro Once, de Buenos Aires, habitado por famílias judias bastante apegadas às tradições.
Assim como fez em Abraço partido (2004) e O ninho vazio (2008), mais uma vez interessa a Burman explorar dilemas morais. No caso, quem está no foco é Ariel (Alan Sabbagh), economista argentino bem-sucedido em Nova York. Em um breve retorno a Buenos Aires para reencontrar o pai, Usher (interpretado pelo próprio Usher, não ator e morador do Bairro Once), se lembra o quão sufocante pode ser a vida em família de origem judaica. E mais: o quanto tradições afetam as escolhas que fazem.
Daniel Burman garante que não se trata de uma história biográfica, mas há no filme situações que o foram interessando ao longo da trajetória do protagonista. Para ele, ao completar 40 anos, um sujeito passa a refletir o que falta encontrar pelo caminho, ao mesmo tempo em que pensa sobre o que construiu. O décimo homem localiza essa crise na relação entre pai e filho.
É curioso porque, apesar da dependência emocional, Ariel e Usher praticamente não se encontram. “A presença física não necessariamente constrói a relação entre pai e filho”, justifica o cineasta. O vazio entre eles simboliza, então, tanto o aprisionamento de cada um a valores familiares tradicionais, como também revela uma verdade dolorosa: toda família é sufocante. Aceite.
Há um momento em que os personagens conversam por telefone e Ariel questiona o pai se ele não poderia ser normal nem que seja por um momento. A resposta de Usher não deixa espaço para drama.
TRADIÇÃO Todos os dilemas morais que Daniel Burman aborda no longa o faz pelo viés do humor. “A comédia para mim é uma maneira de colocar o espectador em situações que paradoxalmente promovem maior profundidade. É um anestésico suave”, define. Nessa lógica, o cineasta questiona tanto o apego familiar como também a lógica das tradições. “Por que toda família judia sempre precisa de um décimo homem?”, pergunta um ainda jovem Ariel, antes de se ver totalmente imerso em uma ciranda de comportamentos viciados.
O décimo homem é, no fim das contas, sufocante. Ao retornar a Buenos Aires, Ariel ensaia uma liberdade pessoal conquistada no exterior, mas não tem força para se assumir como adulto, dono das próprias vontades. Sucumbe. A curva emocional que o diretor oferece ao espectador é a mesma do protagonista. Se, inicialmente, desperta curiosidade sobre a jornada pessoal do personagem, frustra ao não conseguir ir além da repetição dos padrões sociais.
Burman evita categorizar O décimo homem como otimista ou pessimista em relação à sociedade atual.