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Experiência extrema

Estreia nesta quinta 'O regresso', épico de Alejandro Iñárritu que recebeu 12 indicações ao Oscar

Saga de caçador de peles para vingar o filho é experiência forte para o protagonista Leonardo DiCaprio

Mariana Peixoto

Em meio à bela paisagem, DiCaprio reúne suas últimas forças para se manter vivo e vingar o assassinato do filho em 'O regresso' - Foto: FOX/DIVULGAÇÃO

Deixado para morrer, Hugh Glass consegue abrigo em uma caverna ao lado de um rio. Surpreendido pela chegada de índios arikaras, o homem tenta se esconder em meio às pedras. Ao ser descoberto, não vê alternativa a não ser pular no rio. E é o que faz, a despeito das feridas mortais causadas por um ataque de urso e do frio devastador. É fugir ou morrer.

A cena em questão foi ensaiada durante semanas. O cineasta Alejandro González Iñárritu queria que a primeira parte dela fosse realizada em um único take. A câmera, muito próxima de Leonardo DiCaprio, pega a expressão de horror de seu personagem assim que ele assiste à chegada dos índios. Há o momento da dúvida, até que ele recua.
A câmera deixa o ator e segue até os arikaras, depois faz um curto sobrevoo até o rio, descrevendo sua imensidão, até voltar ao ator. Este pega seu único bem, um cantil, e vai, rente à parede de pedra, tentando desaparecer em meio à natureza. O inevitável acontece e ele chega ao rio, sempre acompanhado pela câmera.

 

 

 

Tal cena consome não mais do que 1 minuto e meio dos 156 que fazem de O regresso o mais ambicioso projeto de um dos nomes de maior prestígio na Hollywood atual. Depois dos três Oscars por Birdman em 2015 (filme, direção e roteiro), o cineasta mexicano de 52 anos tem reais chances de repetir a dose. O épico ambientado no Velho Oeste americano sobre um explorador que, em 1823, percorre centenas quilômetros em busca de vingança em condições subumanas concorre a 12 estatuetas – entre elas de melhor filme, diretor e ator para DiCaprio. A bolsa de apostas dá como certo o prêmio para o ator, em sua quinta indicação ao Oscar.

Iñárritu filmou no Canadá, na Patagônia argentina e nos EUA uma história ambientada no curso do Rio Missouri (onde é hoje o estado da Dakota do Sul). Consumiu ainda milhões de dólares, algo em torno de US$ 135 milhões, contra um orçamento inicial que era a metade desse valor. Toda a filmagem foi realizada em locações com luz natural. A estupenda fotografia do também mexicano Emmanuel Lubezki deve dar a ele, merecidamente, seu terceiro Oscar consecutivo – venceu nos anos anteriores por Birdman e Gravidade. São planos muito longos e quase nenhum efeito especial.

O visual cheio de virtuosismo de O regresso se contrapõe a uma história simples. O que move o personagem é vingança e sobrevivência. O explorador Glass, guia de um grupo de caçadores de pele, é parcialmente retalhado por uma ursa. Os homens, que já sofreram muitas perdas com os constantes confrontos indígenas, seguem caminho levando o sobrevivente.

Glass tem um filho mestiço, fruto de uma relação com uma índia.

A decisão de deixar pai e filho aos cuidados de dois integrantes do grupo – os outros devem seguir caminho – se traduz em dois fatos: o garoto é assassinado pelo mercenário John Fitzgerald (Tom Hardy, também indicado ao Oscar de coadjuvante) e Glass é deixado, sem qualquer recurso, para morrer. Milagrosamente, ele sobrevive e começa sua jornada de vingança. Sobreviver aos ferimentos é apenas um dos percalços do personagem, que deve se livrar de perseguições indígenas, de exploradores franceses e da própria força da natureza. A jornada ocorre durante um inverno cruel.

Glass não tem folga em momento algum – sobrevive na carcaça de um animal; é obrigado a comer fígado cru de um bisão (um sacrifício e tanto para o vegetariano DiCaprio); utiliza como rota de fuga as águas caudalosas de um rio gelado. Iñárritu tampouco dá folga ao espectador. O cineasta afirmou que sua intenção era fazer com que o público sentisse o mesmo que Glass.

Tal façanha é realizada. As mais de duas horas e meia da jornada extenuam também o espectador – a experiência só vai crescer com a exibição de O regresso em IMAX, sala de cinema que cria maior “imersão”. “Enquanto ainda tem fôlego, você luta. Você respira, continua respirando”, diz Glass. O público o acompanha, até o respiro final.

 

 

 

Entrevista
Leonardo DiCaprio


No limite

Nova York – Nas filmagens de O regresso, novo filme de Alejandro González Iñárritu, Leonardo DiCaprio sofreu por sua arte: entrou na água em temperatura negativa, carregou uma pele de 45 quilos, comeu fígado cru de bisão americano.

Tudo para encarnar Hugh Glass, guia de uma expedição de caça de animais e comércio de peles no inexplorado e gelado Norte dos Estados Unidos, em 1820. O longa-metragem foi inteiramente rodado com luz natural e levou nove meses para ser completado, também por conta de uma onda de calor no Canadá que fez com que precisasse ser completado na Argentina. DiCaprio conta como foi o processo de filmagem.

Você sempre está procurando personagens fortes. De onde vem isso?
Talvez da minha avó... (risos) Não havia muitas informações sobre Glass, só de onde era, que foi atacado por uma ursa e percorreu centenas de milhas de território sozinho para se vingar do homem que o prejudicou. Mas eu sabia que este filme ia ser mais do que isso. É o que Alejandro trouxe ao projeto. No fim, a história é sobre essa perseverança em viver, o que há no espírito humano que nos faz querer sobreviver contra todas as probabilidades.

Iñárritu é famoso por colocar os atores em situações extremas. Conseguimos ver um lado novo seu, não?
Isso que era interessante para mim como ator. Quando li o roteiro, sabia que Alejandro ia fazer disso algo especial, que íamos passar pela mesma coisa que aqueles homens, íamos mergulhar na natureza. Ela se tornou um personagem. Nem sei como fizemos este filme. E ainda tinha o desafio de trazer os espectadores para este mundo sem ter ninguém com quem contracenar boa parte do tempo.

Em uma filmagem tão dura, dá para dizer que está atuando realmente?
Há muita interpretação envolvida. Mas a chave é fazer parecer que não há (risos). Claro que muito era reação. Nós planejamos cada tomada durante dois meses. Foi como uma experiência louca de teatro para conseguir uma única tomada todos os dias com a luz perfeita. Tivemos clima extremo. Não havia estúdio, estávamos expostos ao tempo. Como ator, jamais teria imaginado a paisagem a partir do roteiro. Então, estava sempre me reinventando e trabalhando com o diretor para tornar a experiência visceral para o público.

Mas, quando está tão frio e molhado, de onde vem a energia para atuar?
Sentia muito frio, todos os dias. E o principal problema eram minhas mãos. Muitas das coisas que você vê no filme realmente ocorreram, tirando algumas cenas com os animais, porque era impossível fazer de outra maneira. Alejandro queria que fosse realmente uma experiência. Esse filme para mim é como o neorrealismo, de muitas maneiras, mas estilisticamente feito com uma câmera voyeurística, dançando para dentro e para fora do drama, para dar espaço a essa paisagem impressionante.

Você sentiu que não ia dar para continuar?
Acho que todos sentimos. Em muitas ocasiões diferentes.

Pensa em dirigir?
Sim. Mas o problema é que esses cineastas são tão bons! (risos) A não ser que achasse uma história com a qual estivesse tão conectado que tivesse de fazer eu mesmo, prefiro persuadir um deles a trabalhar comigo (risos). Porque fazer filmes é complicado. (Estadão Conteúdo)

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