Confira horários e salas de exibição para 'Uma linda mulher'
Ela roda a bolsinha - em Rodeo Drive, onde, por sinal, estão as lojas com as marcas mais caras do mundo. Mas Vivian recusa-se a ter um gigolô, escolhe os clientes. Seu príncipe também é um cara esquisito. Há quase 25 anos, Richard Gere estava no auge. Como galã, os cabelos ligeiramente platinados, e ainda por cima fazendo um milionário, bastaria estalar os dedos para que ele tivesse a mulher que quisesse. Mas, casualidade ou não, ao tomar emprestada a Lotus de seu advogado e se perder - justamente na zona de meretrício de Los Angeles -, ele candidamente pede uma informação à mocinha de pernas de fora - e que pernas! Ela, Vivian, lhe dá uma direção para a vida toda.
Confira o trailer de 'Uma linda mulher':
'Uma linda mulher' é a atração da semana na programação de clássicos restaurados da rede Cinemark. Depois do brutal 'Scarface' de Brian De Palma, com Al Pacino, muda o tom. Sai o sangue, entra o romance. Pacino, por sinal, era o preferido do diretor Marshall para o papel, mas ele recusou. Marshall pensou em outras alternativas - Daniel Day Lewis, Denzel Washington. Seria totalmente outro filme.
Vivian, no primeiro roteiro, era drogada. Denzel, um príncipe negro? Interessante, mas, talvez, arriscado. Gere foi a escolha sábia. Por que ele, como Edward Lewis, contrata uma prostituta para acompanhá-lo em seus compromissos sociais na cidade é coisa que o roteiro não se preocupa muito em explicar. O que importa é a transformação da garota com potencial, mas um tanto bruta, numa princesa.
Com o cartão do seu príncipe, Vivian entra na primeira loja de luxo que vê. A vendedora tenta enxotá-la. A mensagem é que as pessoas valem mais que aquilo que você vê. Com o banho adequado de butique, Vivian reluz. O espectador apaixona-se por ela. Como Edward não iria se apaixonar também? A questão é - Edward, que bancou a transformação da garota, vai bancar a outra transformação, maior ainda? Vai se casar com ela?
O tema da transformação está no centro de 'Uma linda mulher'. O diretor Garry Marshall e o roterista F.J. Lawton pegam carona no mito de Pigmaleão e Galatéa, que inspirou, por exemplo, 'My fair lady'. O professor Higgins pega uma garota da rua e faz dela uma dama. Elisa não é prostituta. Vende flores. Vivian é - prostituta. Nada que boas roupas, e boas maneiras não possam mudar. Mesmo sem forçar a barra, a comédia romântica fica a um passo do melodrama. E tanto que a ópera italiana, 'La rraviata', contribui com a ária 'Dammi tu forza'. Com a trilha adequada - 'Pretty woman' e 'It must have been love', com Roy Orbison e a banda Roxette -, o filme estourou.
Virou, na relação custo/benefício, o maior sucesso daquele ano. Revelou uma estrela. Julia, com um penteado mais desleixado e sobrancelhas grossas, havia feito um filme pequeno - 'Mystic Pizza'. Era uma das três garotas que trabalhavam na pizzaria portuguesa de uma cidadezinha pesqueira. O filme de Donald Petrie, por sinal, chamou-se 'Três mulheres, três amores' no Brasil. Já era uma história de Cinderela. O riquinho apaixona-se pela garçonete, mas precisa de coragem para enfrentar a família. Lá, a transformação era do príncipe.
Sendo um conto de fadas, "Uma Linda Mulher" precisa dela - a fada-madrinha, que ocorre ser um padrinho. Hector Elizondo é Barney, o gerente do hotel que vai superar a resistência a Vivian. Ele a ajuda a comprar a roupa certa, a usar o talher certo à mesa. Tudo e todos funcionam, mas é Julia a alma do filme. A própria Pretty Woman. Como Vivian, ela venceu resistências e ganhou o Oscar (por "Erin Brockovich", de Steven Soderbergh, em 2000). Tudo perfeito, mas quando Hollywood quis reproduzir o sucesso e juntou de novo Julia e Gere em "Noiva em Fuga", de novo sob a direção de Marshall, em 1999, o público não quis saber. Moral da história - contos de fadas não ocorrem a toda hora.