Filme chinês Bai Ri Yan Huo, de Diao Yinan, ganha Urso de Ouro

Longa também conquista prêmio de melhor ator para Liao Fan. A atriz japonesa Haru Kuroki ficou com o Urso de Prata

por Pablo Gonçalo 16/02/2014 13:27

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Tobias Schwarz/Reuters
Liao Fan e Diao Yinan: Urso de Prata de melhor ator e Urso de Ouro de melhor filme para Bai Ri Yan Huo (foto: Tobias Schwarz/Reuters )
Berlim – Foi uma missão difícil. Presidido por James Schamus e com a presença de estrelas como Christolph Waltz, Tony Leung, Michel Gondry, Barbara Broccoli, Trine Dyrholm e Greta Gerwig, o júri da 64ª edição da Berlinale resolveu destacar filmes orientais, da China e do Japão, assim como diretores norte-americanos mais reconhecidos, como Wes Anderson e Richard Linklater. Numa distribuição equilibrada, o júri contemplou desde o thriller policial chinês Bai Ri Yan Huo (ainda sem nome em português e que ganhou o título em inglês de Black coal, thin ice) até a leveza e a ingenuidade de obras como Boyhood e The Grand Budapest Hotel.

Bai Ri Yan Huo, dirigido por Diao Yinan, que ficou com o Urso de Ouro, é uma produção em clima noir, que conta a história de um ex-policial, Zhang Zili (papel que deu a Liao Fan o Urso de Prata de melhor ator), que investiga uma série de assassinatos. Como único representante de língua alemã do Júri, Christolph Waltz, um dos atores preferidos de Tarantino, entregou o prêmio de melhor atriz para Haru Kuroki, por The little house, que, muito emocionada, compareceu à cerimônia vestindo roupas japonesas tradicionais, num figurino muito semelhante ao que usa no filme de Yoji Yamada.

 

Ao subir no palco, Richard Linklater agradeceu principalmente a sua equipe. Ele recebeu o prêmio de melhor direção, mas disse que seu trabalho é coletivo. Numa mensagem lida por carta, Wes Anderson, vencedor do Grande Prêmio do júri, declarou que ficou feliz por receber pela primeira vez um prêmio de prata, real, e tão importante. A presença latina na noite de premiação ficou restrita à condecoração de melhor filme da seção Panorama, para o mexicano Güeros, de Alonso Ruizpalacios. Praia do futuro, de Karim Aïnouz, de fato morreu na praia e acabou não levando nenhuma menção. O vácuo de prêmios confirmou a fria recepção da imprensa internacional, o que, claro, não impede uma acolhida mais entusiasmada do público brasileiro.

 

Numa entrevista informal com a apresentadora da premiação da Berlinale, Dieter Kosslick, o diretor do festival, destacou como os filmes da competição focaram no tema das crianças, que, segundo ele, merecem carinho especial, sobretudo frente ao atual contexto de crise econômica mundial. Com estilos e temas tão diferentes, é arriscado encontrar uma linha comum entre as obras que fizeram parte da competitiva da 64ª Berlinale. No entanto, Kossalick deu pistas de alguns caminhos possíveis. Filmes como Boyhood, de Richard Linklater, Jack, de Edward Berger e Macondo, de Sudabeh Mortezai, possuem ênfase dramática em crianças que lidam com o dia a dia dos adultos.

 

Crianças e adultos Filmado entre 2000 e 2014, Boyhood mostra as transformações íntimas e psicológicas de Mason (Ellar Coltrane), que vive numa pequena cidade do Texas. Como um romance de formação influenciado pelo estilo prosaico de Truffaut, Linklater filma sobretudo um olhar de crianças sobre adultos que, ao buscar uma sutil autonomia existencial, parece pronto para sozinho experimentar o mundo que está à sua frente.

 

De um ponto de vista diferente, vê-se, em Jack, a necessidade do menino Jack (Ivo Pietzcker), com cerca de 8 anos, cuidar de si e do seu irmão caçula, Manuel (Georg Arms), já que Sana (Luise Heyer), a mãe deles, costuma passar dias sem voltar para casa e joga-se em paixões intensa e efêmeras. O filme é claramente inspirado em Nobody knows (2004), de Hirokazu Koreeda, e passa-se nas ruas de Berlim, onde as crianças, perdidas e sem a chave de casa, pernoitam. Pelo tema de arrimo de família vê-se como retrata-se crianças que não são apenas protagonistas de um drama, mas que, pelas desventuras dos adultos, reivindicam para si o protagonismo de suas vidas.

 

Em Macondo, acompanha-se a trajetória de Ramasan (Ramasan Minkailov), que vive em Viena como um imigrante junto com a sua mãe e sua irmã num alojamento de exilados políticos do Leste europeu, do oriente médio e da África. Ramasan tem onze anos de idade e vê-se diante de uma complicada situação sendo levado a atuar como o líder da sua família. Situação comum aos exilados na Europa oriundos de países em conflitos ou que convivem com regimes autoritários, o filme retrata uma delicada situação geopolítica a partir de atores amadores que vivem, de forma autêntica, a condição de entre-lugares cara à experiência imigrante e juvenil.

Guerra
Paralelamente e de forma mais sutil, a mostra da seleção competitiva revelou a busca por outras maneiras, éticas e estéticas, de lidar com o passado. Embora a Segunda Guerra Mundial seja um pano de fundo em The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson e The little house, de Yoji Yamada, percebe-se em ambos os filmes uma maneira de suavizar o peso de um passado traumático. É pela comédia, e sua sofisticação, que Anderson parece propor, nas entrelinhas do seu filme, uma forma de voltar a flertar com a elegância e o requinte do período anterior à guerra.

 

Por outro lado, é com uma carta não entregue ao seu destinatário, mas que atravessa gerações, que uma empregada doméstica The little house mostra como a delicadeza e a discrição de um relacionamento extraconjugal no seio de uma família tradicional. Mesmo que impelidos pelo histórico da guerra, esses dois filmes propõem a força de atuação dos bastidores.

64ª BERLINALE
Principais prêmios


Melhor filme – Bai Ri Yan Huo, de Diao Yinan.
Grande Prêmio do júri –The Grand Budapest Hotel, de Wes Anderson
Melhor diretor – Richard Linklater, por Boyhood
Melhor atriz – Haru Kuroki, The little house
Melhor ator – Liao Fan, Bai Ri Yan Huo
Melhor roteiro – Dietrich Brüggeman e
Anna Brüggeman por Kreuzweg
Curta-metragem –As long as shotguns remain, de Caroline Poggi e Jonathan Vinel
(Urso de Ouro); Laborat, de Guillaume Cailleau
(Urso de Prata)
Contribuição artística – Zeng Jian, diretor de fotografia de Blind massage
Alfred Bauer, novas perspectivas
Aimer, boire, chanter, de Alain Resnais.
Panorama, melhor filme
Güeros, de Alonso Ruizpalacios

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