Cine 104 aposta na exibição de obras de diretores do novíssimo cinema brasileiro

Programação do início do ano reúne três longas com esse perfil

por Walter Sebastião 07/01/2014 06:00

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Tarumã Filmes/Divulgação
O amazonense Sérgio Andrade, de 'A floresta de Jonathas', conta que a floresta é personagem de seu filme (foto: Tarumã Filmes/Divulgação)
O Cine 104 tem marcado presença no circuito cinematográfico com filmes diferentes, que tanto sinalizam renovação como estão sendo saudados por muita gente. Exibiu, por exemplo, o celebradíssimo 'O som ao redor', de Kléber Mendonça Filho, que esteve em todas listas das melhores produções de 2013 e faturou variados prêmios. Abrindo a programação de 2014, o local mostra, até dia 19, mais três filmes do novíssimo cinema brasileiro: 'Mataram meu irmão', de Cristiano Burlan; 'Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida', de Matheus Souza; e 'A floresta de Jonathas', de Sérgio Andrade.

Daniel Queirós, programador do Cine 104, explica que são trabalhos com perfis distintos, de investigação sobre a violência até obra com pegada pop, passando pelo novo olhar sobre a cultura regional. “São longas com personalidade, que revelam diretores com grande potencial de realização”, avisa.

O espaço tem como projeto especial para este ano desenvolver a formação de público. Que começa com programa educativo para adolescentes, com filmes brasileiros e sessões comentadas. As inscrições serão abertas em fevereiro, mas as escolas interessadas já podem solicitar informações pelo endereço contato@centoequatro.org.

Este ano, o Cine 104 realiza ainda a segunda edição da Mostra BH, com previsão para fim do primeiro semestre e início do segundo.

Primeiro Plano / Divulgação
'Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida' é comédia que propõe reflexões (foto: Primeiro Plano / Divulgação)
Juventude


Por pressão familiar, Clara (Clarice Falcão) está cursando medicina. Mas vive momento de dúvida em relação às suas escolhas. Ela passa a matar aulas no período da manhã, e acaba por se envolver com um rapaz que a ajuda a resolver seus dilemas. “É um filme diferente de outras produções brasileiras, uma comédia que propõe reflexões”, avisa Matheus Souza, de 25 anos, diretor do longa, explicando que não fez um filme-cabeça, nem usou fórmulas comerciais.

“O melhor que posso fazer é ser sincero, autêntico. E, buscando isso, volto-me para meu universo, meus amigos, minha família, para o que tenho à minha volta”, conta o cineasta. Matheus Souza tem feito crônicas bem-humoradas da juventude. “Mas é um cinema de sentimentos universais”, frisa, lembrando que o fim de um relacionamento (tema do primeiro filme, Apenas o fim) ou um momento de dúvidas, motivo do filme atual, tem esse perfil.

Matheus Souza é um dos mais prestigiados da nova geração de diretores brasileiros. É dele o roteiro de 'Confissões de adolescente', estreia do próximo fim de semana (e está escrevendo o número dois da franquia). Ele escreve para o teatro e a TV, tem coluna de opinião em jornal diário e cultiva projeto de livros. “Sou fascinado por ouvir e contar boas histórias”, observa. Com relação ao cinema brasileiro, ele sente falta de atenção com as produções “meio-termo”. “Que não sejam tão comerciais, não arrisquem nada de inovador, nem sejam reflexivas ao extremo, a ponto de se tornar excludentes. Precisamos de bom entretenimento, mas que não seja raso”, defende.

Amazônia em cena

'A floresta de Jonathas', de Sérgio Andrade, é o primeiro projeto da Região Norte do Brasil a ganhar apoio de edital federal para produção de longas. Está na tela uma família de área rural da Amazônia, que tem uma barraca de beira de estrada onde vende frutas. Mas que é também local de contato com as novidades do mundo e com todo tipo de gente. Certo dia, Jonathas e o irmão Juliano conhecem Milly, uma turista da Ucrânia, e o índio Kedassere. Um acampamento da turma se torna uma experiência transformadora.

“É um filme sobre pessoas que transitam entre a cidade e a floresta profunda, e são seduzidas tanto pela vida mundana urbana quanto pelo insondável da natureza”, conta o diretor. “A floresta é a floresta mental, outro mundo, outro país. Uma Amazônia diferente, que não é exótica, idealizada nem estereótipo. Deixa de ser um lugar e se torna uma entidade, personagem que tem desejos e age na vida de quem convive com ela”, enfatiza.

O filme é o primeiro longa do diretor de 46 anos. Ele vive e trabalha em Manaus. 'A floresta de Jonathas' foi realizado com 90% de atores e técnicos que trabalham no Amazonas. O longa já foi exibido em 20 festivais, no Brasil e exterior. Ganhou elogios pelo tom meditativo, pela qualidade do som e pela fotografia, e pelo fato de não romantizar a Amazônia.

Se o assunto é cinema, Sérgio Andrade conta que gosta de muita coisa. Caso da atmosfera telúrica dos filmes do russo Andrei Tarkovsky e da dramaticidade das produções do sueco Ingmar Bergman. Considera provocante, ainda, “a confusão mental” dos trabalhos de Glauber Rocha. Conta que viram no filme dele influências do tailandês Apichatpong Weerasethakul. Sobre a seleção do projeto em ação de incentivo, o diretor considera uma vitória da política de descentralização (“e de cotas para a Região Norte”). A produção de cinema na área é incipiente, mas Belém e Manaus, segundo ele, têm interesse no setor. A formação técnica começa a ser oferecida com cursos nas duas cidades.

Tragédias familiares na primeira pessoa

“Gostaria que, diante da quantidade de assassinatos que temos no Brasil, as pessoas soubessem que cada um dos mortos tem família, uma história. Deveríamos nos espantar com tantos mortos, mas vemos tudo como se fosse natural. Não é?”, afirma o paulista Cristiano Burlan, de 38 anos, diretor de 'Mataram meu irmão', vencedor da mostra competitiva do Festival É Tudo Verdade. No filme, ele reconstitui a morte de Rafael Burlan da Silva, aos 22 anos (há 12 anos), no Bairro Capão Redondo, onde a família morava, investigando as razões do envolvimento com drogas e furto de carros.

A linguagem do filme, continua Burlan, vem de decisões que tomou ao decidir enveredar pela história do irmão. “Minha posição é de alguém curioso sobre como tudo ocorreu. Não estetizei a morte dele. Depois, procurei ser o menos formalista possível. Editei o menos possível os depoimentos, para que momentos banais se revelassem, tornando presente o vazio entre as palavras, o grito silencioso que está ali”, conta. Fazer o filme não foi terapia. “Não fui buscar cura para a minha dor, não fui salvo pela arte ou o cinema, não acredito em sublimação. O ocorrido deixou marca indelével em mim”, observa.

O filme integra o que o Cristiano Burlan chama de trilogia do luto. Composta pelo média- metragem 'Construção' (2007), com memórias do pai, operário, e projeto de longa, em andamento: Elegia de um crime, sobre “o brutal assassinato” da mãe dele. “Usei o cinema, que é minha forma de expressão, para falar da vida e das pessoas. Quero entender como essas tragédias, que parecem histórias literárias, ocorreram com a minha família”, conta. Mataram meu irmão é o quinto longa do diretor. “Faço filmes, depois deixo os festivais decidirem se é documentário ou ficção”, provoca.

Assista ao trailer de 'Mataram meu irmão':



Trailer de 'Eu não tenho a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida':



Trailer de 'A floresta de Jonathas':


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