Último filme do cineasta Claude Miller, 'Thérèse D.' retrata crise da sociedade burguesa

Ponto forte do filme protagonizado por Audrey Tautou é a fotografia

por Walter Sebastião 05/04/2013 08:00

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Imovision/Divulgação
Thérèse (Audrey Tautou) e o marido Bernard (Gilles Lellouch): mundo em decomposição (foto: Imovision/Divulgação)
Há pouco mais de 40 anos o cineasta francês George Franju (1912-1987) trazia para as telas uma personagem estranha: Thérèse Desqueyroux. Uma jovem de sociedade, dos anos 1920, que vive em uma pequena cidade. Depois do casamento arranjado e do filho indesejado, ela vai se tornando cada vez mais distante das convenções do mundo em que habita. Entediada, mergulha em introspeção que, aos poucos, a leva ao afastamento de todos os papéis que a família e a comunidade esperam dela como esposa, dona de casa, mãe e mulher.

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A personagem, vinda de romance de mesmo nome, de 1927, de François Mauriac (1885-1970), Nobel de Literatura em 1952, está novamente nas telas no filme 'Thérèse D.', de Claude Miller (1940-2012), último trabalho do diretor, que por isso escolhido para encerrar o Festival de Cannes de 2012. A distância de tempo entre os dois filmes gerou encarnações distintas da personagem. O que, no clima de contestação dos anos 1960, soava como libertário, agora é retrato dramático de mulher enredada em contradições.


Na mira tanto do escritor quanto dos cineastas que levaram a história para as telas está crítica ao que antigamente se chamava “sociedade burguesa”. E, neste sentido, continua sendo trama de muitos significados, na sua inteligente articulação do social com o psíquico. Em primeiro plano, como estratégia para revelar uma classe social, está Thérèse (interpretada por Audrey Tautou). Uma mulher, até por sua condição, alheia ao mundo que tem ao redor. Contexto estreito que observa com incômodo, mas em silêncio, manipulado em proveito próprio.


Thérèse é capaz de perceber jogo de interesses econômicos e a hipocrisia usados em nome da tradição e da família. Mas não tem respostas à situação, já que, de certa forma, partilha das mesmas convicções. Vai descobrindo, angustiada, que trata-se de mundo tão asfixiante que ela mal consegue formular o que sente ou justificar suas ações e pensamentos. E tão opressivo que nem a tentativa de matar o marido vai além do ambiente doméstico, já que é convenientemente abafada – o pai é político e não quer saber de escândalos.


Apesar de ser filme elaborado, 'Thérèse D.' é irregular. Ótimos momentos, em todos os aspectos, convivem com outros nem tão expressivos assim, ainda que de grande beleza. Ponto forte é a esplêndida fotografia, que faz o que a dramaturgia não consegue: evocar nuances, de forma discreta, de um mundo de luzes e trevas, percepções e incertezas, que da personagem. Saborosa é a conclusão, sugerindo que o drama da personagem seria apenas história comum, banal e quase anônima, vivida de forma igualmente silenciosa por muitos.

Assista ao trailer do filme:

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