Tanovic reencenou com as próprias vítimas a saga de um catador de sucatas (Nazif Mujic) em busca de algum hospital que aceitasse retirar o feto morto de sua mulher (Senada Alimanovic), sem plano de saúde e sangrando havia dias. Como ela pertence a uma minoria étnica (roma) perseguida na Bósnia, a situação é ainda pior do que parece. "A gente ligava para o hospital e marcava a hora. Mas, quando chegávamos lá, logo cedo, eles se recusavam a nos atender assim que viam a cor de nossa pele", explicou Nazif. "Nunca roubei ninguém, sou um homem honesto. Não tenho vergonha da minha origem e da cor da minha pele".
O diretor Tanovic preferiu não definir o filme. "Não é ficção e nem documentário", disse. "Não usamos nenhum ator. A única maneira de fazer esse projeto seria dessa forma, perseguindo Nazif com a câmera na mão, entrando nos ônibus com ele. A neve no filme não é efeito especial." O aborto espontâneo e a peregrinação pelos hospitais ainda emociona a "atriz". "Não desejo que isso aconteça com ninguém. Fico feliz que o filme seja visto", murmurou Senada, antes de começar a chorar na entrevista de apresentação do longa.
Já Nazif continua sobrevivendo de catar sucatas, porém criou uma pequena organização dedicada à educação das crianças de sua vila, na região de Tuzla. No entanto, sua interpretação de si mesmo é a mais chamativa entre os homens da Berlinale em 2013, repleta de grandes personagens femininos. Mas dificilmente um júri capitaneado por Wong Kar Wai, que é conhecido pela beleza plástica de suas obras, deve premiar 'An episode in the life of an iron picker'. "Pensei que nunca entraríamos em Berlim quando vi o nome de Wong Kar Wai", brincou Tanovic. "Queria agradecer pela coragem de nos receber aqui", disse.
Catador de sucata bósnio atua em filme sobre a própria tragédia pessoal e emociona Berlinale
Diretor Danis Tanovic não trabalha com atores profissionais; personagens do longa, em que um trabalhador busca atendimento médico para a esposa, são interpretados por quem viveu o drama na vida real