Autor de 'O lado bom da vida' usa literatura para dar ordem ao caos interior

Matthew Quick confessa que livro pode ajudar seus leitores. Obra deu origem ao filme, que está em cartaz

por Mariana Peixoto 02/02/2013 07:40

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Alicia Bessette/Divulgação
"O filme é a versão que David O. Russell deu para a minha história, e achei fantástico", Matthew Quick, autor de O lado bom da vida. (foto: Alicia Bessette/Divulgação)
Quando estava escrevendo o romance O lado bom da vida – lançado há pouco no país antecipando a chegada ao filme homônimo, em cartaz desde ontem nos cinemas brasileiros e candidato a oito Oscars – o escritor Matthew Quick decidiu que seu protagonista, homem de 30 e poucos anos que passou longo período internado em hospital psiquiátrico, teria ataques de fúria sempre que ouvisse a canção My cherie amour, de Stevie Wonder. Ao conseguir uma editora para publicar seu livro de estreia, em 2008, não obteve os direitos de publicação da letra pela editora de Wonder. Teve pouco tempo para efetuar a mudança e, por sugestão da mulher, utilizou a infame Songbird, de Kenny G., já que, como a música é instrumental, não teria problema algum com direitos autorais.

O saxofonista norte-americano, sinônimo de música romântica, melosa e doce além dos limites do suportável, é um não-personagem sempre presente na narrativa de Quick. E uma das razões para rir a valer da trajetória de seu protagonista, Pat Peoples – que sempre refere-se a ele como Sr. G. Não é difícil comparar o livro de Quick a Nick Hornby, o nome mais conhecido de uma geração de romancistas que unem fina ironia, muitas referências pop e uma dose exata de doçura (outros de mesma lavra são os também britânicos Tony Parsons e David Nicholls). Em O lado bom da vida, estão presentes características de livros de Hornby: música pop (como Alta fidelidade), paixão pelo esporte (Febre de bola) e um protagonista de 30 e poucos anos que tem dificuldade em crescer (Um grande garoto).

Só que aqui o buraco é mais embaixo. Pat Peoples (na versão cinematográfica interpretado por Bradley Cooper, que virou Pat Solatano), ao voltar para a casa dos pais, não tem noção de quanto tempo ficou internado. Seu pai é sempre ausente, e Pat não demora a descobrir que só poderá conseguir algum afeto por meio do futebol americano. O período de recuperação do personagem, seu reencontro com a família, os amigos e a própria vida formam a gênese da narrativa (que o cinema, infelizmente, levou para o lado da comédia romântica pura e simples). Seu objetivo maior é voltar para a ex-mulher. Para tal, busca recuperar a forma física tirada pelos remédios antidepressivos (praticando musculação e correndo obsessivamente) e lendo os livros que a ex, professora de português, pediu que lesse quando casados (clássicos da literatura norte-americana, quase todos com finais trágicos, como A redoma de vidro, de Sylvia Plath).

Tal como na ficção, Quick foi professor, sofreu de depressão (assim como parentes próximos) e mudou radicalmente de vida aos 30 e poucos. Depois de O lado bom da vida, publicou duas novelas para o chamado público jovem adulto, Sorta like a rockstar (2010) e Boy21 (2012). São narrativas que versam sobre jovens que vêm de ambientes disfuncionais. Um novo livro, ainda inédito, The good luck of right now, foi comprado em janeiro pela DreamWorks. “As histórias têm sido uma parte terapêutica da minha vida. Meus leitores costumam dizer que meu trabalho os faz se sentirem menos sozinhos. Escrevo também para dar ordem ao caos que existem na minha cabeça”, afirma Quick.
Paris Filmes/Divulgação
Da mesma forma que o personagem do livro e do filme (interpretado por Bradley Cooper), o escritor teve depressão (foto: Paris Filmes/Divulgação)

O LADO BOM DA VIDA

De Matthew Quick
Editora Intrínseca, 256 páginas
R$ 24,90 (impresso) e R$ 14,90 (e-book)

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