'O mestre': obra prima de Paul Thomas Anderson estreia em BH

Trama mescla religião, Segunda Guerra e a melancolia do cotidiano

por Walter Sebastião 25/01/2013 07:00

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Paris Filmes/Divulgação
O ex-soldado Freddie Sutton (Joaquin Phoenix) tem que se adaptar à vida civil depois da Segunda Guerra (foto: Paris Filmes/Divulgação)
Grata surpresa na febre cinematográfica trazida pelo Oscar é O mestre, de Paul Thomas Anderson. Só para começar: são justíssimas as indicação ao Oscar de ator, ator coadjuvante e atriz coadjuvante para, respectivamente, Joaquin Phoenix, Phillip Seymour Hoffman e Amy Adams, que dão um show. O diretor não é o mesmo dos interessantes Magnólia e Boogie nights – Prazer sem limites. A trama, ambientada nos anos 1950, gira em torno de Lancaster Dodd (Hoffman), figura carismática e líder de uma organização cuja doutrina disciplinadora (mistura de psicologia e religião) não funciona com o ex-soldado Freddie Sutton (Phoenix).

A história começa mostrando os preparativos de soldados que lutaram na Segunda Guerra para a volta à vida civil. E prossegue acompanhando as dificuldades de Freddy. O que se vê, ao longo de duas horas e 40 minutos, é um drama. Desde a melancolia e sonhos do personagem até a angústia pelo fato de ele querer, e não conseguir, ajustar-se ao mundo que tem à volta. Inserindo pequenos incidentes em cotidiano idílico, a narrativa, sem retórica, mostra o quanto a busca da perfeição do mundo e do ser humano pode ser aterradora. Um fim irônico, libertário, com pequeno ato pra lá de humano, coroa com lucidez história difícil sobre maluquices nascidas com o pós-guerra. E ainda à solta por aí.

Tudo é contado com leveza, perspicácia, sem caricatura. É filme envolvente mas que, de forma provocativa, faz o espectador balançar entre empatia e distanciamento, identificação e dúvidas quanto a tudo e a todos que vê. A primeira meia hora é, inclusive, cinema de altíssima qualidade, movido não só pela beleza das imagens, mas por síntese, indissociável, entre fotografia, montagem e música. A câmara passeia pelos ambientes, situando personagens e o contexto dos anos 1950, de forma minuciosa, sem valer-se de nenhum texto explicativo. Os mesmos elementos, somados à primorosa direção de arte (elegante e sem excessos), potencializam, ao máximo, a atuação de todo o elenco.

Surpreendente é a desenvoltura com que O mestre adentra, sem afetação, em territórios sociológicos, psicanalíticos e filosóficos. Mérito é, ainda, criar interfaces entre ontem e hoje, sem determinismo. O que só mostra o quanto é filme ambicioso e de diretor com maturidade para realizá-lo. Que deixa a impressão, inclusive, de trazer consigo toda uma memória do melhor do cinema norte-americano. Está na tela o realismo “crítico”, humanista, liberal, dos anos 1940. Que foi radicalizado, mais tarde, pelas utopias estéticas dos independentes dos anos 1960, dos quais vem a irreverência. Nesse sentido, Paul Thomas Anderson é mais um dos que aponta para promissora renovação do cinema nos EUA.

O mestre é o quinta longa-metragem de Paul Thomas Anderson. Ele escreveu, até agora, todos os filmes que dirigiu. O diretor lançou, em 1988, o curta The Dirk Diggler story, feito em vídeo, filmado como documentário, quando tinha apenas 17 anos. Diz a lenda que o, diretor largou o curso de cinema, da Universidade de Nova York, no segundo dia de aula e, com o dinheiro da matrícula que conseguiu de volta, filmou Cigarretes and coffee (1993). Mais uma de Paul Thomas Anderson: conta-se que, ao fim de cada produção, ele sempre raspa a cabeça. 
 
Assista ao trailer de 'O mestre':
 
 

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