A viagem, longa dos mesmos autores da trilogia Matrix, dá voltas e não diz muito

Irmãos Wachowski pecam por excesso de ambição em filme dividido com diretor alemão

por Carolina Braga 11/01/2013 07:30

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Imagem Filmes/Divulgação
Halle Berry e Tom Hanks se dividem entre sete e seis papéis, respectivamente (foto: Imagem Filmes/Divulgação)
Desde que os irmãos Andy e Lana Wachowski presentearam o universo cinéfilo com a trilogia Matrix (1999), Matrix reloaded (2003) e Matrix revolution (2003), ainda que os dois últimos sejam irregulares, o conjunto criou em torno da dupla culto mundial. De fato, os filmes marcaram a passagem do século 20 para o 21 com equilibrada mistura de filosofia e ficção científica. Mas ficou nisso. Projetos posteriores da família seja como diretores ou roteiristas, como V de vingança ou Speed racer, não conseguiram chegar nem perto do êxito da saga de Neo e companhia.

O novíssimo A viagem, dirigido em parceria com o alemão Tom Tywer (Corra Lola, corra), vai pelo mesmo rumo. Haverá sempre quem incensará os feitos dos irmãos Wachowskis. Mesmo assim, há que se reconhecer certa repetição nas propostas. O longa que estreia hoje também tem batalhas futuristas, objetos que param no ar e, invariavelmente, aquele ar de moral da história no discurso. No fim das contas, eles querem dizer que tudo no universo está conectado de uma maneira ou de outra. O problema é que dão voltas demais para falar isso.
 
Imagem Filmes/Divulgação
Seis tramas paralelas se desdobram em ambientes futuristas e históricos excessivamente produzidos (foto: Imagem Filmes/Divulgação)
Há tanta ambição, seja no roteiro ou no modo de realizá-lo que a empreitada acaba não chegando a um lugar algum. Grosso modo, o trio atira para muitos lados e acaba não acertando (pra valer) num alvo sequer. A viagem é um filme literalmente difícil de embarcar.

Corre pela internet a notícia de que a ideia da adaptação do livro Cloud atlas – Além das nuvens de David Mitchell – origem do roteiro –, teria sido da atriz Natalie Portman. A estrela de Cisne negro, quando foi a protagonista de V de vingança comentou com os também roteiristas o fascínio que sentiu ao ter contato com a saga na literatura. Isso foi em 2005. Logo, o amigo Tom Tywer foi convocado e, desde então, o trio trabalhava para transformá-la em filme. Tarefa um tanto quanto árdua.

A grande diferença entre literatura fantástica e ficção científica no cinema é que, enquanto nos livros estão a cargo da imaginação do leitor os universos descritos nas palavras, o filme obrigatoriamente tem que recriá-los em imagens. Dependendo de como é feito, o resultado pode ser catastrófico. Como acreditar em algo demasiadamente fake? Mesmo tendo no elenco figuras do naipe de Tom Hanks, Hugh Grant e Halle Berry A viagem padece um pouco disso.

PÓS-FUTURO
Assim como na obra de Mitchell, são seis tramas que se misturam ao longo dos 172 minutos de projeção. As histórias se passam em tempos completamente diferentes, o que dificulta o acompanhamento. São pequenos detalhes que conectam umas às outras, já que os enredos são bastante distintos. Vão desde um navio negreiro em 1850, passando por uma investigação jornalística na década de 1970. Tem ainda reflexões sobre a terceira idade no século 21, impactos nucleares e até um pós-futuro ultra tecnológico e absolutamente inóspito. Uma frase, um sinal de nascença ou outro pequeno detalhe desse tipo são as chaves da teoria defendida no filme. Entre o passado, o presente e o futuro sempre haverá algo que se repete e conecta os seres humanos uns aos outros.

Em A viagem, o elenco se multiplica, ou seja, um mesmo ator interpreta incontáveis personagens. Tom Hanks, por exemplo, dá vida a seis, entre eles, um cientista, um gerente de hotel, um escritor, um ancião e até um homem da selva. Halle Berry vai além e assume o papel de sete mulheres. Essa multiplicação acabou prejudicando a atuação de todos eles de maneira geral. Poucos conseguem garantir nuances muito diferentes para suas criações. 
 
Apesar de ter três diretores, o filme não foi dirigido totalmente de maneira conjunta, a seis mãos. Andy e Lana Wachowski cuidaram dos episódios mais futuristas, enquanto Tywer ficou responsável por aqueles de viés mais histórico. Foi três a três. Essa escolha é curiosa porque não prejudica a dinâmica do filme, ainda que cada cineasta deixe sua marca registrada.

As histórias vão e voltam de maneira misturada. A maneira como são montadas sugere não um, mas vários jogos com o espectador. Chega a ser caótico. Para começar, a estrutura do filme é um quebra- cabeças que deve ser montado por quem assiste. Sendo assim, caberá a cada um dar mais peso ou não para as questões filosóficas apresentadas ou para a forma como elas aparecem. Além disso, tem a brincadeira de descobrir o ator, já que todos batem cartão nas seis tramas. Tudo isso dilui o que poderia haver de consistente na obra.

Na chamada temporada de ouro dos Estados Unidos, há quem trace semelhanças entre A viagem e As aventuras de Pi, de Ang Lee. Ambos partem de livros classificados como infilmáveis. A experiência de Lee, no entanto, foi mais bem-sucedida que a dos irmãos Wachowskis e Tywer. Talvez porque, ao contar a saga de um indiano perdido em alto-mar, o diretor tawianês ressalte o que há de mais inexplicável na relação de qualquer obra e seu receptor: a magia. 
 
Assista ao trailer de A viagem:
 



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