Com poucas salas para o cinema autoral, BH tem ficado de fora dos lançamentos

Produções vencedoras de festivais nacionais e estrangeiros não são exibidas na cidade

por Carolina Braga 08/01/2013 07:13

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Cinemascopio / Divulgação
O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, passou por festivais brasileiros e internacionais, ganhou destaque nos EUA e ainda não estreou em BH (foto: Cinemascopio / Divulgação)
Um misto de estratégia de lançamento com escassez de salas disponíveis. Essa equação é responsável pelo certo atraso que Belo Horizonte amarga em relação a outras capitais quando o tema são as estreias do chamado “cinema de arte”. “Acho que já foi pior, mas ainda existe dificuldade. Com o fechamento de outros complexos, como o Usina, houve um certo afunilamento de oferta para tantos títulos novos que aparecem”, analisa Pedro Olivotto, responsável pelo espaço Belas Artes, na Rua Gonçalves Dias.

Se por um lado cada vez se produz e se distribui mais criações ditas alternativas ou independentes, por outro a força do cinema hollywoodiano é também maior – e robusta – com o advento da distribuição digital. Para se ter uma ideia, em novembro do ano passado, somente o episódio final da Saga Crepúsculo ocupou 60% das salas do Brasil. A lógica em película é outra. “O que ocorre é que existe uma limitação de cópias. Quando o filme é em digital, é tranquilo. Mas em película nem sempre a questão é a disponibilidade da sala”, explica Daniel Queiroz, programador do Cine CentoeQuatro.

O caso do incensado O som ao redor, do crítico e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho, é exatamente esse. Apontado pelo New York Times como um dos melhores de 2012, exibido em 13 eventos internacionais e vencedor de prêmios em festivais como o de Roterdã, na Holanda, do Rio e de Gramado, o filme entrou em cartaz na primeira semana de janeiro apenas no Rio, São Paulo e Recife. Segundo a produtora Emilie Lesclaux, a estreia em BH depende tanto do resultado nessas três cidades quanto  da liberação das cópias. Além disso, de acordo com Pedro Olivotto, o momento também não é propício para a estreia do longa por aqui, já que as próximas da fila são produções vencedoras do Festival de Berlim que, aliás, aguardam há um tempo.

Para o diretor-geral da distribuidora Nossa, Marco Aurélio Marcondes, o mercado de exibição de Belo Horizonte não está fora do padrão nacional. “É a dificuldade de sempre e isso depende muito dos filmes”, observa. Boca, longa de Flávio Frederico, é um dos filmes distribuídos por ele e que nem passou perto de Minas Gerais. Com o mineiro Daniel de Oliveira na pele de Hiroto de Moraes Joanide, o filme é ambientado na Boca do Lixo. “É uma linhagem bem paulista e nesse sentido trabalhamos para ele funcionar primeiro em São Paulo. Tínhamos a expectativa de que se ele funcionasse bem lá, poderia ajudar outros lugares. Mas o filme não foi bem e isso é uma dificuldade”, comenta.

Há 30 anos nesse mercado, Marco Aurélio ressalta que o problema aqui não é falta de salas. “Antigamente sim, BH era um parto”, lembra. De acordo com dados da Filme B, empresa especializada em análise de mercado de cinema, atualmente Belo Horizonte tem 85 salas divididas em 14 complexos. Isso equivale a 15.650 lugares no circuito comercial da cidade. No entanto, desses, apenas 353, ou seja, 2,25%, são dedicados à produção experimental e independente.

“A fila aumenta, a pressão também e temos que trabalhar com isso. É preciso sempre buscar uma média entre o interesse do filme e a lista que está se aproximando. É um trabalho bastante difícil, que exige calma”, comenta Olivotto. Às vezes dá tempo de esperar, mas em outros casos não. O alemão Borboletas negras, por exemplo, que deu à atriz Carice van Houten o prêmio no Festival de Tribeca, só saiu da lista dos desejos do programador quando foi lançado em DVD. Enquanto isso, o francês E se vivêssemos todos juntos? se mantém firme na programação há mais de 10 semanas. “Ele saiu para a mostra latino-americana e voltou por causa dos e-mails que recebemos”, conta.

ALÍVIO
A chegada do Cine CentoeQuatro, no centro cultural em funcionamento na Praça Rui Barbosa (Praça da Estação), colaborou para aliviar a espera. Inaugurado em outubro, o local mantém-se fiel à proposta de se dedicar à produção alternativa. Mas ele ainda cava seu espaço entre os distribuidores. “Temos tido algumas sessões boas e outras mais vazias. Já ocorreram casos de termos menos de 10 pessoas. É um público variado, mas a média por sessão é ainda bem inferior do que a sala que exibe uma programação mais comercial”, ressalta o programador Daniel Queiroz

A presença do público faz muita diferença na programação de um cinema alternativo. “As distribuidoras têm objetivos comerciais. Então, é mais interessante tentar o lançamento em uma sala consolidada, com o ingresso mais caro”, reconhece Daniel, ciente que faz um trabalho de formiguinha. A função dele é justamente acompanhar de perto o circuito e negociar a exibição do filme na sala ainda em processo de consolidação.

Quanto à programação, o público pode comemorar. Além de mostras dedicadas a festivais importantes como Veneza, o cinema exibiu produções que passaram batido por aqui, como Tomboy (2011) ou Cosmópolis (2012), do canadense David Cronenberg. Atualmente estão em cartaz três filmes nacionais: Era uma vez eu, Verônica (2012), de Marcelo Gomes; Vou rifar meu coração (2011), de Ana Rieper, e Na carne e na alma, de Alberto Salvá.

COMPASSO DE ESPERA


INTERNACIONAL


>> Hahaha (Coreia do Sul, 2010)

O filme de Sang-soo Hong foi o vencedor da mostra Un certain regard, em Cannes, em 2010 e até agora aguarda sua vez em Belo Horizonte. É a história de dois amigos que descobrem ter estado na mesma cidade, no mesmo dia e com as mesmas pessoas.

(Jean-Paul Pelissier/Reuters)
Com poucas salas dedicadas ao cinema autoral, Belo Horizonte tem ficado de fora dos lançamentos de produções vencedoras de festivais nacionais e estrangeiros (foto: (Jean-Paul Pelissier/Reuters))
>> Rota irlandesa (Reino Unido/França/Bélgica/Itália, 2010)
O longa do cultuado diretor britânico Ken Loach (foto) é uma história de guerra. Na trama, funcionário de empresa privada de segurança no Iraque resolve descobrir por conta própria a verdade sobre a morte de seu amigo.

>> Minha felicidade (Alemanha, 2010)
Lançado no circuito comercial brasileiro em março do ano passado, o longa de Sergei Loznitsa narra a saga do caminhoneiro Georgy. Ao pegar uma saída errada ele acaba indo parar na área rural da Rússia. Lá conhece um amargurado veterano de guerra, uma prostituta adolescente, policiais corruptos e uma cigana misteriosa.


NACIONAL

>> O som ao redor (Brasil, 2013)
Já cultuado no exterior, o filme do crítico e cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho entrou no circuito comercial brasileiro na semana passada, mas apenas no Rio, São Paulo no Recife. Narra as transformações pelas quais os moradores de uma rua de classe média do Recife passam com a chegada da milícia. Vencedor do prêmio de melhor filme no Festival do Rio 2012.

>> Futuro do pretérito: Tropicalismo now (Brasil, 2012)

O longa de Ninho Moraes e Francisco César Filho é um olhar contemporâneo sobre um dos movimentos culturais mais importantes da história brasileira. Estreou no Festival de Gramado, em agosto de 2012.

>> Histórias que só existem quando lembradas (Brasil, 2011)

Primeiro filme de ficção de Júlia Murat, estreou no circuito do Rio e de São Paulo em julho. A trama se passa em Jotuomba, pequeno vilarejo em que ninguém morre há muito tempo e o cemitério está trancado com cadeado.

(Mostra de Tiradentes/Divulgação)
Com poucas salas dedicadas ao cinema autoral, Belo Horizonte tem ficado de fora dos lançamentos de produções vencedoras de festivais nacionais e estrangeiros (foto: (Mostra de Tiradentes/Divulgação))
>> Uma longa viagem (Brasil, 2011)

Documentário dirigido por Lúcia Murat (foto), foi vencedor do Prêmio do Júri do extinto Festival de Paulínia e cinco categorias no Festival de Gramado. O longa percorre as memórias de Heitor (Caio Blat) jovem enviado a Londres nos anos 1960 para evitar que entrasse na luta armada contra a ditadura.

Só NA PROMESSA

O cinema do Ponteio Lar Shopping foi reinaugurado em dezembro, mas ao contrário do que chegou a ser cogitado pela atual administradora, as salas, por enquanto, ainda não deram sinais de que terão o antigo perfil, também voltado ao cinema autoral. Em cartaz, só cinemão.

 

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