Em meio a continuações e remakes, franceses roubam a cena do cinema em 2012

No Brasil, universo musical e comédias ganhou destaque nos cinemas

por Gracie Santos 28/12/2012 09:11

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Paris Filmes / Divulgação / Yannick Rolandeau / Divulgação / BBC Films / Divulgação / Downtown Filmes / Divulgação / MGM / Divulgação
Variedade - produções nacionais e internacionais para todos os gostos invadiram as telas em 2012 (foto: Paris Filmes / Divulgação / Yannick Rolandeau / Divulgação / BBC Films / Divulgação / Downtown Filmes / Divulgação / MGM / Divulgação)
Na contramão dos rankings de público (e bilheterias astronômicas), que listaram mais do mesmo (continuações de Crepúsculo, Madagascar, Alvin e os esquilos, Batman, 007 e Homem- Aranha – as três últimas elogiadíssimas pela crítica), o filme mais impactante foi preterido, não por acaso, até mesmo pelo Oscar. Provavelmente, por abordar tema que arrepia os cabelos do governante da Casa Branca ao varredor de rua americano: massacres estudantis. E, o melhor: Precisamos falar sobre o Kevin extrapola o tema. Aborda relações “humanas”, a nova família e a falta de diálogo, que alimentam problemas da gravidade do enfocado e muitos outros. Precisamos falar sobre a inércia, a falta de sensibilidade para enxergar o que está diante do nosso nariz, diz a escocesa Lynne Ramsay. O choque de realidade também perseguiu estreias brasucas. Para além do país das pessoas que gostam de rir de si mesmas e de nossas idiotices (são as comédias que somam grandes bilheterias), os documentários invadiram as telas (pena que com passagem fugaz): 46 estreias, oito gringas. Entre os brasileiros, a música foi tema dominante. Do outro lado, do riso fácil, apenas seis produções do país: E aí... comeu?, de Felipe Joffily; O diário de Tati, de Mauro Farias; Totalmente inocentes, de Rodrigo Bittencourt; Até que a sorte nos separe, de Roberto Santucci; Os penetras, estreia de Andrucha Waddington no gênero; e De pernas pro ar 2, também de Santucci. Pequena quantidade, grande plateia. Em cenário mais amplo, é fácil concluir que 2012 foi o ano do cinema francês. A começar pelos Oscars acumulados por O artista, filme mudo e em preto e branco estrelado por Jean Dujardin (que na terra natal perdeu o César para Omar Sy, o enfermeiro de Intocáveis). A Palma de Ouro de Cannes também ficou para filme de língua francesa: Amor, dirigido pelo austríaco Michael Haneke. A partir daí, entraram em cena obras com a força de Políssia e Intocáveis. E, para fechar o ano, o enigmático Holy motors, de Leos Carax, coprodução. Filmes diferenciados que, da mesma forma que Kevin..., dão vida nova à produção. À americana
BBC Films / Divulgação
Precisamos falar sobre o Kevin - crítica arrebatadora e temática angustiante (foto: BBC Films / Divulgação)
Não se deve reduzir Precisamos falar sobre o Kevin a filme sobre tragédia estudantil provocada por garoto perverso. Tudo bem, a obra é baseada no romance de Lionel Shriver sobre as cartas de Eva (no cinema, Tilda Swinton) para o marido Franklin (John C. Reilly), depois do massacre provocado pelo filho (Ezra Miller). Se o tema alimenta variadas análises psicanalíticas (sobre maternidade, rejeição, excesso de permissividade, passividade...), o filme é obra-prima. A diretora Lynne Ramsay volta no tempo para mostrar quem é Kevin. Nas cenas iniciais, traz Eva coberta de vermelho. Sangue? Não, a tomatina, festa espanhola em que as pessoas jogam tomates umas nas outras. O duplo sentido, as metáforas assim como fantasia e realidade, alternam-se em imagens feitas de lirismo e drama. Tudo embalado por trilha sonora e interpretações impecáveis, para gerar angústia e provocar (muitas) reflexões.
Precisamos falar sobre o Kevin
À francesa
Yannick Rolandeau / Divulgação
Intocáveis, com Omar Sy e François Cluzet - jóia do cinema francês (foto: Yannick Rolandeau / Divulgação)
A guerra está declarada, avisa Valérie Donzelli com seu filme sobre jovem casal que tem o filho diagnosticado com câncer. A estreia de La guerre est déclarée, em 6 de janeiro, era prenúncio de que os franceses arrebatariam público e crítica o ano inteiro. Na sequência vieram L’Apollonide – Os amores da casa de tolerância, de Bertrand Bonello; O artista, de Michel Hazanavicius; A delicadeza do amor, de David Foenkinos e Stéphane Foenkinos; o tocante e divertido Intocáveis, com Omar Sy e François Cluzet, de Olivier Nakache e Eric Toledano; e o duro Polissia, de Maïwenn. Entre as dezenas de coproduções em que a França estampa sua assinatura, destaque para Deus da carnificina, de Roman Polanski; E se vivêssemos todos juntos?, de Stéphane Robelin; Em nome de Deus, de Brillante Mendoza; e Holy Motors, de Leos Carax.
Intocáveis
À brasileira
Divulgação / Imagem Filmes
Temática musical foi tema central de documentários brasileiros como Tropicália (foto: Divulgação / Imagem Filmes)
Trinta e oito documentários nacionais passaram pelas telas do país. Número que consolida o gênero no circuito comercial, ainda que a maioria não tivesse fôlego para competir com blockbusters. Entre os listados, mais de uma dezena falam sobre música e quatro sobre futebol (Heleno, de José Henrique Fonseca, o mais badalado deles). Destaque para A música segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos e Dora Jobim; Raul Seixas: O início, o fim e o meio, de Walter Carvalho; Vou rifar meu coração, de Ana Rieper; Tropicália, de Marcelo Machado; Futuro do pretérito: Tropicalismo now, de Ninho Moraes e Francisco César Filho; Onde a coruja dorme (sobre Bezerra da Silva), de Márcia Derraik e Simplício Neto; e Marcelo Yuka no caminho das setas, de Daniela Broitman. Alguns ainda não chegaram a BH.
Tropicália
À mineira Grata surpresa do ano em Belo Horizonte foi o crescente número de público conquistado pelo Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes, sala que, ao lado do Belas Artes, transformou-se em espécie de resistência do circuito alternativo. O crescimento de 300% registrado no público deste ano, no Humberto Mauro, deve-se à realização de mostras (promovidas sempre com entrada franca). Destaques para Chaplin e Luis Buñuel, o fantasma da liberdade. De janeiro a setembro, o público foi de 41.049, mais de 300% acima do registrado no mesmo período de 2011 (10 mil). As mostras Luis Buñuel, O fantasma da liberdade (março/abril) e Chaplin (agosto/setembro) exibiram todos os filmes realizados pelos dois cineastas, incluindo cópias raras. Juntas, contabilizaram 18.882 espectadores. Que a ideia prolifere. Estatuetas A diversidade marcou os tapetes vermelhos. Globo de Ouro e Oscar voltaram suas lentes para O artista e Cannes premiou a produção francesa Amor, de Michael Haneke, sobre o amor incondicional de um casal em idade avançada (a estreia no Brasil será em 18 de janeiro). A 69ª edição do Festival de Veneza deu o Leão de Ouro ao polêmico Pietá, do sul-coreano Kim Ki-duk, sobre a tentativa de redenção de um delinquente em sociedade corrompida pelo dinheiro. A cena de estupro tirou muita gente do cinema na Europa. No Brasil, a estreia do filme, que custou apenas US$ 100 mil, será em 15 de março. Em Berlim, o júri oficial premiou com o Urso de Ouro César deve morrer, drama italiano dos irmãos Paolo e Vittorio Taviani. Campeão de bilheteria do Festival do Rio 2012, mostra grupo de reclusos de uma cadeia que encena Júlio César, de Shakespeare. O filme chega ao país em 18 de janeiro. Nos festivais brasileiros, destaque para o de Brasília, que premiou cineastas de fora do eixo. Duas das obras são impecáveis: Otto, de Cao Guimarães, e Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes. Juntos eles estão filmando em BH O homem das multidões. Que venha 2013!

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