Comédias nacionais disparam no ranking de cinema do país

Apesar dos altos números conquistados, produtores negam que o gênero seja o único eleito pelo público

por Mariana Peixoto 08/12/2012 08:00

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

RECOMENDAR PARA:

INFORMAÇÕES PESSOAIS:

CORREÇÃO:

Preencha todos os campos.
Mariana Vianna/Divulgação
"De pernas pro ar" vai se tornar franquia. O número 2 estreia dia 28, com o mínimo de 600 cópias, e vem aí, em breve, o terceiro filme (foto: Mariana Vianna/Divulgação)

Produtora experiente, Mariza Leão se diz apavorada. “Estão me ‘ameaçando’ com 700 cópias, vou tentar ficar nas 600”, afirma ela, referindo-se ao número de salas em que o filme De pernas pro ar 2 deve estrear, em todo o Brasil, em 28 deste mês. O tom é bem-humorado, mas ela tem noção da responsabilidade que um lançamento desse porte representa. “Por outro lado, o mercado vem trabalhando com lançamentos grandes, então, não vejo razão para não acreditar que o filme possa sair com esse número.” Cancha para tal ela tem. O filme anterior (2010), sobre uma executiva que, ao ficar desempregada, torna-se sócia de um sex shop falido e o transforma num sucesso, fez 3,6 milhões de espectadores. E antes de o número dois estrear, o três já está garantido.

Dessa maneira, De pernas pro ar, estrelado por Ingrid Guimarães, Eriberto Leão, Bruno Garcia e Maria Paula, vai se tornar efetivamente uma franquia, modelo já referendado no mercado norte-americano. Os filmes dirigidos por Roberto Santucci são exemplo bem-acabado de como a comédia está em alta na produção brasileira. Ainda faltam algumas semanas para o fim do ano, porém, independentemente do resultado das próximas bilheterias, não há como bater Até que a sorte nos separe, também dirigido por Santucci, como o filme nacional de maior público de 2012: 10 semanas depois de ter estreado, já vendeu 3,35 milhões de ingressos. É, inclusive, até agora, a única produção brasileira a figurar entre as 10 mais vistas no país este ano (está em nono lugar do ranking da Filme B, empresa de análise e pesquisa de mercado cinematográfico). E já garantiu sua continuação.

O segundo brasileiro mais visto, pelo menos até agora, também é do time: E aí...comeu?, de Felipe Joffily, fez 2,6 milhões de espectadores. Já Os penetras, primeira incursão do cineasta Andrucha Waddington no gênero, acabou de entrar em sua segunda semana em cartaz. Com o resultado da primeira – 329 mil pessoas –, ganhou o título de melhor abertura do ano para o cinema nacional. Num ano em que apostas de outros gêneros não vingaram – somente a cinebiografia Gonzaga: De pai pra filho, de Breno Silveira, entrou na casa dos seis dígitos, com 1,4 milhão de espectadores – os dados só vêm ratificar 2012 como o ano das comédias.

Davi de Almeida/Divulgação
O ano não acabou, mas vai ser difícil bater a bilheteria de "Até que a sorte nos separe": em 10 semanas, vendeu 3,3 milhões de ingressos (foto: Davi de Almeida/Divulgação)

FATOS REAIS


Mas os responsáveis por alguns desses filmes afirmam que a questão não é tão simples. “O Brasil não pode ser um país que elege um gênero de filme. Nosso cinema é maior do que isso. As comédias, historicamente, estão entre as preferidas, desde a Atlântida e as produções de Mazzaropi, até os filmes dos anos 1980. Mas também fazem sucesso aqueles filmes que partem de personagem e fatos reais (Cazuza, O homem da capa preta, Carandiru, Tropa de elite)”, afirma Mariza Leão, que traz no currículo produções totalmente diversas, como Guerra de Canudos e Meu nome não é Johnny.

Débora Ivanov, da Gullane, que produziu Até que a sorte nos separe, tem raciocínio semelhante. “Se você pegar as maiores bilheterias dos últimos 10 anos, vai ver dramas como Olga, Carandiru, Dois filhos de Francisco.” Mas admite que a tendência pelas comédias existe. A história sobre um pobretão que ganha na loteria e, muitos anos mais tarde, perde todo o dinheiro, é o maior sucesso de público da Gullane. E é ainda sua primeira comédia. “Há algum tempo a gente vem selecionando um grupo de projetos para conquistar esse mercado”, continua Débora.

Além da sequência de Até que a sorte... – que será reprisado com mesmo elenco e equipe técnica e deve ser lançado em 2014 –, a Gullane começa, em breve, a filmar Histórias de amor (título provisório), sobre a relação de um jovem executivo de São Paulo que se apaixona por uma carioca. “É uma história bastante divertida com o mesmo perfil de Até que a sorte...: aberta a todos os públicos e com elenco televisivo.”

NEOCHANCHADA

Já Augusto Casé, produtor de E aí... comeu?, chama a atenção para as diferenças entre as comédias. Nos últimos três anos, ele produziu três longas – Muita calma nessa hora (2010), Cilada.com (2011), além do já citado – que, somados, tiveram um público de 7,3 milhões. “Acredito mais numa história bem contada do que em gênero. Quando fiz Muita calma..., por exemplo, estava pensando mais numa comédia de costumes para os jovens, algo até mais próximo de Menino do Rio (marco do gênero nos anos 1980). Para mim, E aí...comeu? é uma comédia romântica, que não tem a ver com Se eu fosse você, que é o que estão chamando neochanchada.”

Daqui a um ano, Casé lança a continuação de Muita calma nessa hora. Também no mesmo período, faz seu primeiro teste para um outro nicho de mercado: a produção infantil. “A ideia é tentar preencher um pouco da lacuna deixada por Renato Aragão e Xuxa.” Totalmente inocentes, outra comédia deste ano, foi também produção voltada para público específico. Nesse caso, o jovem. Ainda que não figure entre as maiores de 2012, teve resultado muito além do esperado. 

Longa de diretor estreante, Rodrigo Bittencourt, Totalmente inocentes faz sátira em cima de grandes sucessos de bilheteria filmados em comunidades – Cidade de Deus e Tropa de elite, principalmente. “É um filme ‘fora da curva’, não é comédia tradicional como as que estão sendo lançadas. Traz história cheia de nuances, mais autoral. Produzimos o filme num tamanho específico e, dentro da proposta dele, foi muito bem-sucedido”, diz a produtora Iafa Britz. Foi ainda o primeiro longa brasileiro com lançamento unicamente em formato digital. E, na opinião dela, sucessos e fracassos são muito relativos. “Se minha expectativa era de 300 mil e o filme fez 500 mil (como foi o caso de Totalmente inocentes), foi ótimo. Agora, se ele fez 1 milhão e a projeção era de três, é uma frustração grande. Não corroboro com a informação de que só comédia funciona. Tudo depende do filme, do momento em que é lançado e de um outro tanto de variáveis”, finaliza. Agora, o que não dá para negar é que neste ano as comédias pegaram. E muito.



VÍDEOS RECOMENDADOS

MAIS SOBRE CINEMA