Um olhar sobre o tropicalismo

Recorte feito pelo diretor Marcelo Machado coloca Gil e Caetano em primeiro plano

por Mariana Peixoto 12/10/2012 07:00

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Eduardo Martino/Divulgação
Caetano Veloso assiste ao seu show em um dos momentos marcantes do filme Tropicália (foto: Eduardo Martino/Divulgação)
 

 

Desde que o documentário Tropicália começou a fazer carreira – primeiro em festivais, como o brasileiro É tudo verdade, onde foi lançado em março e, posteriormente, no circuito comercial – Marcelo Machado começou a ser chamado de cineasta. Realizador experiente, é cofundador, ao lado de Fernando Meirelles, da produtora Olhar Eletrônico; tem passagens por emissoras; assinou séries de TV, bem como programas e clipes. E também alguns documentários. Ou seja, o cinema é um dos braços a que ele se dedica na área audiovisual.

 

Esse hibridismo é visível no longa-metragem que chega hoje a Belo Horizonte. Um dos projetos mais ambiciosos em que Machado se envolveu em 30 anos de carreira – foram ao menos cinco anos de dedicação a ele – recupera um dos movimentos artísticos mais ricos do país. Depois de tentar outros caminhos, Machado optou por contar a explosão multicultural dos anos 1960 por meio de imagens de arquivo. Seria uma opção conservadora, não fosse o formato.

 

Ele, por exemplo, colore clássicos do cinema do período assinados por Glauber Rocha, o que para muitos seria uma heresia. E faz uma costura (o roteiro é de Machado em parceria com Di Moretti e a montagem, esse o maior acerto do filme, de Oswaldo Santana) sem furos, com imagens provenientes de diferentes mídias. São fotos, programas de TV, filmes, gravações de shows e outros documentários. A despeito das fontes diversas, não há quebra de ritmo nem fios soltos na narrativa. E o cuidado estético é impecável.

 

Embalando as imagens antigas há entrevistas atuais com Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Zé e outros artistas. O filme é aberto com apresentação de Caetano e Gil, pouco depois de terem partido do Brasil para o exílio em Londres, para um programa da RTP portuguesa. O registro é de agosto de 1969, quando Caetano afirma não existir mais o Tropicalismo. A partir disso, ele retrocede e faz, em ordem cronológica, um retrato do movimento. As imagens raras, algumas desconhecidas até dos próprios integrantes do Tropicalismo, enchem a tela (e os olhos do espectador). Uma das mais comentadas é a da apresentação dos músicos no lendário festival da Ilha de Wight, na Grã-Bretanha. Outro é o retorno de Gil e Caetano à Bahia, em 1972, depois do período de exílio. Machado os coloca nos dias atuais, assistindo às imagens, e as reações de ambos são reveladoras.

 

O protagonismo dos dois baianos no documentário é gritante, assim como a música (outros nomes em destaque são os Mutantes e Tom Zé). A arte de Hélio Oiticica, uma das principais inspirações do movimento, ganha não mais do que algumas pinceladas. Nomes essenciais do período, Capinam e Torquato Neto também aparecem em pequenas citações. É o recorte feito pelo diretor, que, em momento algum, desmerece o resultado. Mas que não faz deste o filme definitivo do movimento e abre possibilidades para novas leituras do Tropicalismo.



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