45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro premia os filmes mais poéticos

Produções têm personagens comuns e com maior identidade com o público

por Gracie Santos 26/09/2012 08:17

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Busca Vida Filmes/Divulgação
Elena, de Petra Costa, mineira radicada em São Paulo, conta história de superação de sua família (foto: Busca Vida Filmes/Divulgação )
 
O grande vencedor da 45ª edição do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro foi o cinema de tom íntimo e pessoal. A começar pelo longa de ficção Era uma vez eu, Verônica, do pernambucano Marcelo Gomes, de 49 anos, que faturou os Candangos de melhor filme do júri oficial (junto com Eles voltam, de Marcelo Lordello), do júri popular, de ator coadjuvante (para W. J. Solha), além de roteiro e fotografia. No gênero documentário, Otto, de Cao Guimarães, de 47, ficou com as estatuetas de melhor filme, fotografia, trilha sonora e som, enquanto Elena, de Petra Costa, de 29, recebeu os troféus de melhor filme do júri popular e os oficiais de direção, direção de arte e montagem. Se o filme de Marcelo Gomes fala diretamente ao público pela voz de uma mulher, Verônica, as obras de Cao e Petra são narradas pelos próprios diretores, que constroem narrativa emocionada do nascimento (de Otto, filho do diretor e de Flor Martínez) e da morte (por suicídio) de Elena, irmã da cineasta. 
Estudante de medicina recém-formada, Verônica (Hermila Guedes) vive momento de incertezas. Questiona desde as escolhas profissionais às relações mais íntimas. A personagem arrebatou a plateia do festival, que, mesmo em dia de chuva, lotou a sala de exibição. Quem conta, emocionado (e “rouco de tanto falar”) é o próprio diretor, feliz com o prêmio, mas principalmente com a receptividade do público. “O filme foi ovacionado ao fim dos letreiros. Isso é muito bom, contribuirá para que o distribuidor o coloque em mais salas na estreia (janeiro de 2013)”, comemora Marcelo Gomes, por telefone, do aeroporto de Brasília, de onde seguiu ontem para a Espanha (antes de estrear no Brasil, o filme vai percorrer festivais do peso do de San Sebastian /Espanha, de Chicago/EUA e da Mostra de São Paulo, entre outros).
“Quem sabe ...Verônica não tira Batman de cartaz?”, provoca Marcelo Gomes, que atribui a empatia de sua personagem com o público ao fato de “ela ser gente como a gente”. Ao contrário do lugar-comum das “histórias assertivas, de vencedores e super-heróis, Verônica tem conflitos, sentimentos universais de perda, de amor, ela vive grandes contradições e, por isso, se parece com qualquer um”, analisa o diretor. Marcelo Gomes acredita que, desta vez, o cinema intimista, voltado para a poética do cotidiano, pegou não apenas o júri de Brasília, mas principalmente o público, o que o faz celebrar duplamente a vitória daqueles que fazem cinema à margem, sem preocupações comerciais.
Era uma vez eu, Verônica dividiu o Candango de melhor filme de ficção com Eles voltam, de outro pernambucano, Marcelo Lordello. O filme conta a história de Cris, garota de 12 anos, e de seu irmão mais velho, que são deixados à beira da estrada pelos pais. O severo castigo, imposto a eles devido às constantes brigas durante uma viagem à praia, torna-se um desafio: os pais não retornam. O longa, que dividiu o prêmio principal com …Verônica, faturou também os Candangos de atriz (Maria Luiza Tavares) e atriz coadjuvante (Elayne Moura). Momentos decisivos
Tanto Elena, de Petra Costa (mineira radicada em São Paulo), quanto Otto, do também mineiro Cao Guimarães, são narrados pelos próprios diretores e dizem respeito a momentos marcantes de suas vidas. Se no primeiro Petra constrói trama emocionada sobre a morte (por suicídio) de sua irmã, no segundo, Cao aborda a espera e o nascimento de seu primeiro filho, Otto, acompanhando a gravidez de sua mulher, Flor Martínez. Tanto num caso como noutro, o que está em cena é a celebração da vida. 
Cao Guimarães destaca o viés intimista da escolha do júri, “que privilegiou o cinema mais subjetivo, com histórias pessoais e poéticas”. Otto apresenta visão comovida e comovente do pai, que assiste o crescimento da barriga, enquanto colhe o maior número de imagens possível da passagem do tempo de gestação. Fotógrafo de olhar privilegiado, Cao se despe diante das câmeras, ainda que não esteja em cena, sempre com o cuidado de não permitir invasões que possam interferir no processo de acolhida do filho pelo casal, ao mesmo tempo em que permite ao público se apropriar da experiência. “Senti a cumplicidade da plateia durante a exibição, as pessoas se mostraram muito sensíveis ao filme”, afirma Cao, contando que “muita gente saiu da sessão planejando engravidar” (risos). Surpreso com a premiação, o diretor confessa que nunca espera um prêmio, o que é uma espécie de instinto de sobrevivência. “Se você fica na expectativa, não ganha, e, além do mais Otto é muito simples, familiar, doméstico”, assegura.
Petra Costa também concorda que os filmes mais subjetivos arrebataram público e júri do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Elena conta a história de sua irmã, atriz que, nos anos 1980, durante a crise do cinema nacional, mudou-se para Nova York, onde viveu profunda crise existencial. “Tinha 7 anos quando fomos, eu e minha mãe, procurá-la nos Estados Unidos. Ela estava muito triste e, depois de uma tragédia, morreu. O filme mostra como sobrevivemos a isso, e também como, à medida que fui crescendo, acharam que o mesmo ocorreria comigo”, revela. Elena é “também obra que vem na contramão de filmes que, muitas vezes, são interessantes apenas formalmente, mas acabam sendo frios, não transmitem uma experiência. A arte é catártica, tem essa função de transpor sentimentos mais íntimos, mais universais,” afirma a diretora. Para Petra, tanto Elena quanto ...Verônica são o retrato de uma época, de uma geração “que vive crise existencial profunda, com questionamentos intensos. São fruto da era das incertezas, enquanto Otto aponta para a vida.”
 
Candangos 2012 
 
»  LONGA-METRAGEM DE FICÇÃO
Melhor filme (R$ 250 mil)
Eles voltam, de Marcelo Lordello, e Era uma vez eu, Verônica, de 
Marcelo Gomes
Melhor direção
Daniel Aragão (Boa sorte, 
meu amor)
Melhor ator
Enrique Diaz (Noites de Reis)
Melhor atriz
Maria Luiza Tavares (Eles voltam)
Melhor ator coadjuvante
W. J. Solha (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor atriz coadjuvante
Elayne Moura (Eles voltam)
Melhor roteiro
Marcelo Gomes (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor fotografia
Mauro Pinheiro Jr. (Era uma vez eu, Verônica)
Melhor trilha sonora
Karina Buhr e Tomaz Alves Souza 
(Era uma vez eu, Verônica)
»  LONGA-METRAGEM DOCUMENTÁRIO
Melhor filme (R$ 100 mil)Otto, de Cao Guimarães
Melhor direção
Petra Costa (Elena)
Prêmio especial do júri
Um filme para Dirceu, de Ana Johann
Melhor fotografia
Cao Guimarães e Florencia 
Martínez (Otto)
Melhor trilha sonora
O Grivo (Otto)
»  PRÊMIO DO JÚRI POPULAR
Melhor longa de ficção 
(R$ 20 mil)
Era uma vez eu, Verônica, de 
Marcelo Gomes
Melhor longa documentário 
(R$ 15 mil)
Elena, de Petra Costa
Veja lista completa em www.festbrasilia.com.br 


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