Pernambucano Cláudio Assis, diretor de A febre do Rato, é convidado do projeto Curta circuito

Cineasta conversa com o público sobre sua carreira nesta segunda-feira e adianta que já prepara dois novos longas

por Gracie Santos 24/09/2012 08:53

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(foto: Divulgação)

 

“Se queres ser universal, começa por pintar sua aldeia.” O pensamento atribuído ao escritor russo Liev Tolstói (1828–1910), autor de Guerra e paz, é lembrado pelo cineasta Cláudio Assis, que há dois anos voltou a viver em sua terra natal, Pernambuco. Ele não tem vontade de filmar fora de seu estado. “Conheço muito o interior, nasci em Caruaru. Ainda tenho muitas histórias de lá para contar. E olhe que está dando certo. Como diria o poeta, fale de sua aldeia e falará com o mundo”, afirma. Estão aí Amarelo manga (2002), Baixio das bestas (2006) e, agora, A febre do rato (2011), todos para comprovar que há outros Brasis a serem (bem) explorados pelo cinema. O novo longa, já lançado em circuito comercial, vem ganhando sessões especiais (passou por Araçuaí e Montes Claros, na semana passada) e chega nesta segunda-feira a BH em exibição com entrada franca do projeto Curta circuito, no Cine Humberto Mauro,  do Palácio das Artes. Às 19h, com a presença do diretor para bate-papo com o público. 

 

Há duas coisas de que Cláudio Assis faz questão. Uma delas é conversar com os espectadores, outra é trafegar por circuitos alternativos e cineclubes. São coisas que ele fazia e continuará fazendo, seja em Pernambuco, em projeto na Baixada Fluminense, no Rio, ou onde mais for convidado. “O filme tem que ser visto. Temos, sim, compromisso com o distribuidor, mas é importante que a obra não seja vista simplesmente na sala de cinema. Cláudio começou a atuar no meio assim. A diferença é que antes exibia obras dos outros. Ele está na estrada desde 1986. Trabalhava com cineclube, promovia mostras nas favelas. “Quando cansei de mostrar, decidi fazer cinema. Comecei como assistente de produção de Otávio Bezerra. Tive uns problemas, quis sair. Mas fui aconselhado pelo montador, Severino Dadá: “Nunca abandone um filme, senão, quando você quiser trabalhar, vão dizer, ‘o Cláudio não, ele abandona o filme’.”

 

Polêmico, Cláudio Assis sempre provoca comentários da imprensa, do público e de colegas com seus trabalhos. Costuma ser visto como anarquista, contestador, autor de obras virulentas ou violentas. Neste caso, não desta vez, pois A febre do rato foi visto como “o filme mais elegante de Cláudio Assis.” Verdade? “Não gente, Amarelo manga também é elegante”, responde o diretor. Mas ele admite que a nova obra tem poesia, está em preto e branco, e os atores são ótimos, soma de fatores que a tornam de fato elegante. “Mas nem por isso você precisa pensar que não se trata de um filme forte. É,  sim. As pessoas estão dizendo, ‘Poxa, você se superou’. Não é bem assim. Filmei do mesmo jeito, gosto muito de Baixio das bestas, de Amarelo manga. Agora, só tenho que lutar para que A febre do rato ganhe o mundo”, planeja.

 

P&B, ANARQUIA A decisão de fazer o longa em preto e branco foi consenso “Meu curta Soneto do desmantelo blue – filme de 1993 sobre o poeta pernambucano Carlos Pena Filho – já era em p&b. Tinha vontade de fazer um longa assim também e acabou sendo uma ideia de toda a equipe”, conta, comentando “o horror do fim dos negativos, já com data marcada para 2014.” E avisa: “Enquanto tiver, vou usar”. E depois? “Vou fazer o que der, me adaptar”, garante.

 

O personagem central do filme, o poeta Zizo (interpretado por Irandhir Santos), vem chamando a atenção pelo tom anárquico. Tanto que muita gente assegura que A febre do rato é autobiográfico. Então, qualquer semelhança entre personagem e diretor é mera coincidência? “Ele tem um pouco o meu jeito, tem a minha mão por trás, mas não sou eu”, garante Claúdio Assis, defendendo que o poeta pode tudo. “Com a poesia, você pode falar o que quiser. O poeta é um revolucionário.” 

 

E CORAGEM Afinal, para que serve o polêmico cinema de Cláudio Assis? “Para contribuir para que as pessoas pensem e tomem atitude. Não se pode fazer concessões. O que vemos no meio é todo mundo querendo as mesmas coisas, ir para Hollywood. Não faço concessões a ninguém, nem ao público, tenho que ser franco com ele.” Também não é preciso pensar que o cineasta se sente sozinho nessa empreitada. “Tem outras pessoas fazendo assim, mas a maioria prefere se esconder atrás dos mesmos interesses”, acusa. Não por acaso, o poeta Zizo grita, em determinado momento: “Coragem! Coragem para você ser quem você é”. E coragem é o que Cláudio Assis tem de sobra.

 

A Cena no recife 

 

Há algum tempo a cena cinematográfica pernambucana vem bombando. Cláudio Assis não é o único representante dela. Por exemplo, só no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que termina nesta segunda na capital federal, são sete obras do estado em exibição, entre longas e curtas. Orgulhoso, Cláudio lembra que ele, Paulo Caldas e Lírio Ferreira (digamos, os mais veteranos da cena) sempre lutaram pelo cinema em sua terra. “Pedíamos recursos, um concurso e o governador Eduardo Campos (PSB) acabou criando o Fucultura, que destina R$ 11,5 milhões anualmente para toda a cadeia (programa de TV, longa, curta, distribuição, incentivo). Agora, não precisamos bater à porta de ninguém pedindo dinheiro”, celebra. É escolhido um júri de todo o Brasil, que se reúne com o conselho de cultura local, para avaliar os projetos. “Tem tudo isso acontencendo, sem falar nas facilidades da tecnologia digital”, avalia.

 

Com condições, o que não falta aos cineastas pernambucanos é criatividade. Cláudio Assis, por exemplo, voltou a morar lá porque está produzindo dois filmes. Com a Anna Muylaert (diretora de É proibido fumar), está escrevendo o roteiro de seu próximo filme, Piedade, nome de uma praia do Recife. Em cena, o mar invadindo a terra e o homem invadindo o mar. Outra história forte, que vai envolver petróleo, tubarões e, claro, relações humanas. O projeto foi selecionado pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro para ser apresentado a produtores estrangeiros no próximo Festival de Cannes. O segundo filme está sendo feito com Ana Carolina Francisco. Os dois estão adaptando livro inédito do Xico Sá, Big jato (“este será de baixo orçamento, cerca de R$ 1,2 milhão – A febre do rato custou R$ 2 milhões”), história que se passa nos sertões de Pernambuco e Ceará. 

 

Curta circuito

Exibição de A febre do rato e bate-papo com o diretor Claúdio Assis, nesta segunda-feira, às 19h, no Cine Humberto Mauro do Palácio das Artes (Av. Afonso Pena, 1.537, Centro). Entrada franca (as senhas serão distribuídas meia hora antes). Assista ao trailer de A febre do rato:



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