Otto, de Cao Guimarães, é o único representante mineiro em mostra competitiva de longas do Festival de Brasília

Mostra de cinema brasileiro começa nesta segunda-feira no Teatro Nacional

por Carolina Braga 17/09/2012 08:36

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Leandro Couri/EM/D.A Press
Cao com Flor e Otto: "A mãe tem o bichinho dentro, o pai é meio espectador" (foto: Leandro Couri/EM/D.A Press)
Cao Guimarães resolveu dar a cara a tapa. Otto (71min), único representante mineiro na mostra competitiva de longas (documentário) do 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa nesta segunda-feira na capital federal e segue até dia 24, tem tom extremamente confessional. Declaração de amor à sua mulher, Flor Matínez, de 25 anos; a seu filho de nove meses, que batiza a obra; e também à vida e à arte, o filme tem fotografia primorosa (característica recorrente no trabalho do artista), em cenas espontâneas do cotidiano de quem vai se tornar mãe. “É tão gostoso conhecer alguém”, deixa escapar Cao, que, além de diretor, câmera e editor, é narrador da trama. Aos 47 anos é ele quem apresenta sua mulher com delicadeza e poesia, dividindo com o público momento único revelado com plasticidade. Tudo embalado por bela trilha sonora do grupo que é parceiro constante de Cao, O Grivo. Primeiro filme do artista que tem personagem feminina como foco central, Cao não compreende bem por que a obra foi qualificada no gênero documentário. “Otto poderia ter sido inscrito como ficção. Este ano, resolveram fazer essa separação, acho bobagem. Parece que se tem a ideia de que a ficção tem que ser meio careta, cara. Daí o filme mais doidão ser colocado em outro gênero. Não tenho paciência para essas fronteiras”, afirma. Por isso mesmo, em seu próximo longa, O homem das multidões, ele e Marcelo Gomes (com quem divide a obra) prometem confundir todo mundo. “Vamos misturar tudo e ninguém vai saber se está vendo ficção ou documentário, se é comédia ou não.” Logo na abertura de Otto pode-se conhecer o mote da trama: Cao e Flor se conheceram no Uruguai, no Cine Casablanca, durante exibição de Andarilho (Brasil, 2006, 80min) em mostra do artista. Ela era a única espectadora na sala. Deu uma saidinha pra ir ao banheiro e, na opinião do diretor, perdeu a melhor cena do filme, por isso, teria que vê-lo de novo. Desse encontro surgiu a relação da qual nasceram dois Ottos, o bebê e o longa. “Como quase todo trabalho meu, está muito relacionado ao momento que estou vivendo ou à realidade por onde transito.” As filmagens foram feitas no Uruguai, na Turquia e em BH, onde vive o casal. Cao começou a registrar a espera do neném, a rotina e as viagens deles, tudo sem compromisso. “Flor é muito bonita, fotogênica, engraçada. Percebi no material que ela era muito expressiva. Vi a barriga crescendo e aquela situação paterna, de quem não participa, fica de fora do processo. A mãe tem o bichinho dentro, o pai é meio espectador. Então, fiz um filme de nascimento, de crescimento. Tentei fazer algo minimalista, da barriga crescendo até explodir, mostrar todas as mudanças pelas quais passa a mulher, que muda muito, que fica tão radiante mas tem também a coisa difícil, a imobilidade. Vi que tinha material fantástico e acabei percebendo que havia uma possível narrativa, meio plástica”, revela. O parto aparece de forma sutil, há muitas cenas de crianças em Istambul, já que os dois, assim que souberam da gravidez, voltaram seus olhares para o universo infantil (em alguns momentos a câmera é da própria Flor). Em Otto há também colagens de imagens de crianças da família, em 16mm, do acervo do avô de Cao Cisalpino Gontijo, pediatra. “Ele me escolheu, ainda novinho, em meio a 20 netos, e me ensinou sobre fotografia e cinema, tinha um laboratório no fundo de casa, na Rua Aimorés. Ganhei dele minha primeira super-8. Acho que ele pensou: ‘Esse menino não vai dar em nada mesmo...’” (risos). Se o novo longa de Cao foi construído em torno de momento único na vida do artista e do casal, ele é também demonstração de que é possível tratar tema íntimo e pessoal sem expor os envolvidos, apesar da confessada entrega do diretor (“já estava babando mesmo, fiz o texto e decidi narrar”). Tudo porque também está em cena outro traço da obra do diretor: o cuidado de capturar imagens dos personagens sem invadi-los. E, acredite se quiser, Otto mostra que isso é realmente possível. O melhor: além de íntimo e pessoal, a abordagem acaba se tornando universal.
Sem entressafra
Se o cinema mineiro enfrenta entressafras, consequência do controverso esquema das leis de incentivo e patrocínio – tanto que nas listas de festivais deste ano não há longas mineiros –, Cao Guimarães não tem do que reclamar. “Não dependo de leis, coisa boa é trafegar entre artes plásticas e cinema, você tem certa autonomia de sobrevivência, não depende de arrumar grana para filme. Faço um tipo de cinema diferente, que não envolve set de filmagens, muito dinheiro. Posso fazer o que quiser, tenho um grau de liberdade incrível. Meus filmes são sempre relacionados a uma realidade, não tenho que construí-la. Cada um tem um jeito de filmar, o meu é esse.”

 

Arte por toda parte O 45º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro teve recorde de inscritos este ano: 508 filmes. São cinco mostras competitivas: longas de ficção e de documentário, curtas de ficção, de animação e de documentário. Além das mostras Brasília, Panorama Brasil, UnB e o cinema e Brasília 5.2 – Cinema e memória – É tudo verdade. Integraram o júri responsável pela seleção dos longas de ficção Cibele Amaral, José Geraldo Couto, Marcio Curi, Pedro Butcher e Sérgio Borges. No júri de longas de documentário, Ana Paula Sousa, André Luiz Oliveira, Guto Pasko, João Jardim e Leonardo Sette. O mais tradicional festival de cinema do país propõe este ano atividade de reflexão sobre o papel da crítica, a história do cinema na Universidade de Brasília, os diversos gêneros cinematográficos, a necessidade de promover o cinema infantil no Brasil e os caminhos da concepção e produção das séries de TV. Em parceria com a Associação Brasileira de Críticos de Cinema (Abraccine), a 45ª edição do festival promove seminário para reavaliar o alcance e atualidade da obra de um dos seus fundadores, Paulo Emilio Salles Gomes (1916-1977), considerado o mais influente pensador do cinema no Brasil. A abertura para convidados, nesta segunda-feira, às 20h30, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional Claudio Santoro, terá apresentação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro, sob regência do maestro Cláudio Cohen, e a exibição do filme A última estação, de Marcio Curi. O filme é narrativa bem-humorada e poética sobre a trajetória de vida de um libanês que, ainda menino, é obrigado a deixar sua terra natal, envolvida em uma guerra, e migrar com a família para o Brasil. No foyer será apresentada a mostra Arte por toda parte – A visão de Ronaldo Fraga, Sílvio Botelho, Mauricio de Sousa e Angeli sobre o cinema brasileiro. Longas em competição » Ficção A memória que me contam, de Lucia Murat (RJ) Boa sorte, meu amor, de Daniel Aragão (PE) Eles voltam, de Marcelo Lordello (PE) Era uma vez eu, Verônica, de Marcelo Gomes (PE) Esse amor que nos Consome, de Allan Ribeiro (RJ) Noites de Reis, de Vinicius Reis (RJ) » Documentário Domésticas, de Gabriel Mascaro (PE) Elena, de Petra Costa (SP) Kátia, de Karla Holanda (PI) Olho nu, de Joel Pizzini (RJ) Otto, de Cao Guimarães (MG) Um filme para Dirceu, de Ana Johann (PR) Veja programação completa em www.festbrasilia.com.br.



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