Quando o filme é melhor que o livro

por Gustavo Fonseca 08/09/2012 14:47

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Marlon Brando como Vito Corleone: um dos personagens mais marcantes do cinema americano do século 20 (foto: AE/Mundo/Divulgação)

Em agosto, completaram-se 10 anos do lançamento de um marco do cinema brasileiro: o longa-metragem Cidade de Deus, dirigido por Fernando Meirelles, com roteiro de Braulio Mantovani inspirado no romance homônimo de Paulo Lins. Em março, outra data celebrada foram os 40 anos da estreia do clássico norte-americano O poderoso chefão (The godfather), escrito e dirigido por Francis Ford Coppola com base no livro homônimo de Mario Puzo. Os dois filmes, apesar das muitas diferenças entre si, guardam algumas semelhanças que, se não explicam totalmente o sucesso que obtiveram mundo afora, apontam decisões que foram imprescindíveis para que ambos alcançassem tamanho êxito. Pensar essas escolhas talvez ajude a apreciá-los melhor, bem como o trabalho de seus realizadores.

É sabido que tanto Paulo Lins quanto Mario Puzo escreveram os respectivos romances a partir das próprias experiências, mesmo sem terem feito parte propriamente falando do que retrataram, como traficante no caso brasileiro e como mafioso no caso americano. Paulo Lins (1958), de um lado, morador da Cidade de Deus, cresceu com a deterioração do conjunto habitacional projetado nos anos 1960 para os flagelados das enchentes nas favelas cariocas. O ítalo-americano Mario Puzo (1920-1999), do outro lado, filho de imigrantes italianos estabelecidos em área pobre de Nova York, dedicou-se ao estudo da máfia e de seus costumes, matéria-prima de seus livros – inclusive, claro, O poderoso chefão.

Nas duas situações, portanto, submundos pouco conhecidos em seus meandros pelo grande público são desvendados por autores inseridos naquela realidade, ainda que não tenham participado dela diretamente. Com isso, a aproximação dos diretores com o universo que levaram às telas é mediado pelo romance desses escritores, o que estabelece um certo distanciamento. Minimizá-lo para o público foi um dos desafios nos dois projetos. Não por acaso, em Cidade de Deus optou-se por elenco com predominância de atores amadores, oriundos de favelas cariocas. Em O poderoso chefão algo semelhante aconteceu, porém de maneira mais sutil: o diretor e os atores principais, Marlon Brando e Al Pacino, são ítalo-americanos, assim como outras figuras secundárias da equipe.

Nos dois casos, contudo, havia outra dificuldade ainda maior que aproximar o público daquelas histórias: era necessário condensá-las para duas, três horas de filme. E neste ponto as escolhas dos roteiristas são brilhantes. O romance Cidade de Deus narra a trajetória de três décadas do conjunto habitacional, dos anos 1960 até os anos 1980, com centenas de personagens e episódios isolados. Selecionar os mais relevantes e, muitas vezes, fundir duas, três figuras ou situações do livro em uma do filme foi um recurso bem utilizado por Braulio Mantovani, dando ao longa-metragem uma coesão que o próprio livro não tem, excessivamente fragmentado em muitos pontos. Talvez por conta disso, trocou-se nas telas inclusive o nome dos personagens, em claro indicativo da transposição de literatura a cinema. No romance, Tutuca, Inferninho e Martelo; no filme, Alicate, Cabeleira e Marreco. No primeiro, Inho e Zé Miúdo; no segundo, Dadinho e Zé Pequeno. Pardalzinho e Zé Bonito; Bené e Mané Galinha. E assim por diante.

Sem ter fundido os personagens como fez Braulio Mantovani, Francis Ford Coppola superou o desafio de resumir para as telas a história dos Corleones descartando o que não fosse absolutamente imprescindível ao enredo e aglutinando situações ou histórias esparsas ou muito extensas no livro. E nenhuma sequência do longa-metragem representa isso tão bem quanto o assassinato dos chefes das outras famílias, durante o batizado do afilhado de Michael Corleone. Tendo sido detalhada cada uma das mortes em muitas páginas do livro, Coppola juntou-as em poucos minutos do filme, dando maior senso de unidade ao plano arquitetado por Michael. Com o famoso som do órgão ao fundo, ganhou-se ainda em dramaticidade.

Em Cidade de Deus, a mesma estratégia é empregada por Mantovani/Meirelles, por exemplo, para apresentar a boca dos Apês – que Zé Pequeno toma de Neguinho, num dos momentos mais marcantes do filme. Em menos de três minutos, consegue-se contar como a boca passou de dona Zélia para o Grande, deste para o gerente Sandro Cenoura e, finalmente, para Neguinho. Para explicar rapidamente a estrutura do tráfico, desde o embrulho das drogas até o papel dos vários “funcionários” do negócio, usou-se o mesmo recurso.

Outra semelhança entre os dois roteiros/filmes é a construção do próprio enredo, com tempo narrativo diferente do elaborado pelos romancistas. O livro Cidade de Deus é dividido em três partes: 1- A história de Inferninho; 2- A história de Pardalzinho; 3- A história de Zé Miúdo. Já o filme une essas três partes em uma só trama, com o uso frequente de flashbacks e, especialmente interessante, apresentando-se a mesma cena de dois, três pontos de vista. Aqui novamente, o exemplo mais significativo é o da tomada da boca do Neguinho, fato visto da perspectiva de Busca-Pé, de Neguinho e de Zé Pequeno.

Já o filme O poderoso chefão narra a história de modo linear, na ordem começo, meio e fim. Porém, também se diferencia da narrativa do livro em vários momentos. A famosa cena de abertura, por exemplo, consta bem à frente no romance. Uma maneira primorosa que Francis Ford Coppola encontrou de iniciar um filme sobre imigrantes italianos em busca do sonho americano: “Eu acredito na América”, diz Bonasera a Don Corleone, antes mesmo de a imagem aparecer. Na verdade, toda a cena do casamento serve de prólogo à saga dos Corleones, apresentando cada um dos personagens centrais. Outra decisão acertada do diretor/roteirista.

Narradores Uma diferença marcante entre os dois filmes, no entanto, deve ser analisada: a presença de um narrador em Cidade de Deus, recurso dispensado em O poderoso chefão. É comum haver um narrado em off em filmes baseados em livros, geralmente com resultados pífios. Algo quase tão ruim como teatro filmado. Braulio Mantovani, contudo, dribla bem a situação dando peso ao narrador-personagem Busca-Pé, figura secundária no livro, mas que nas telas é o antagonista de Zé Pequeno, com quem o espectador não se identifica, o que o aproxima de Busca-Pé. Com isso, um elemento que possivelmente poria o projeto a perder se tornou um de seus aspectos mais expressivos. Não à toa, logo na abertura, o clique da máquina fotográfica do narrador-personagem “puxa” o título do filme à tela, indicando sob qual ponto de vista a história é contada.

Os dois projetos também se distanciam numa questão curiosa: em Cidade de Deus, o roteiro é assinado exclusivamente por Braulio Mantovani, apesar de muitas contribuições do diretor Fernando Meirelles e da codiretora Katia Lund, que chegou a pleitear na Justiça um crédito maior no filme e teria pedido para também assinar o roteiro, segundo Mantovani em entrevista recente. Já em O poderoso chefão, o roteiro é assinado por Francis Ford Coppola e por Mario Puzo, ainda que Coppola deixe escapar vez ou outra que a principal contribuição de Puzo foi como uma espécie de supervisor do texto, cortando uma ou outra palavra ou trocando-a por alguma mais própria ao vocabulário mafioso, por exemplo.

Isso, porém, não impediu o diretor de dar o primeiro crédito no filme justamente ao autor, com o título Mario Puzo’s The godfather. Em outros projetos, Coppola repetiria o gesto, como em Bram Stoker’s Dracula e John Grisham’s The rainmaker (O homem que fazia chover). Tamanho respeito pelos autores fez com que Coppola assinasse sua primeira história apenas em 2009, com o filme Tetro (Francis Ford Coppola’s Tetro, lê-se na abertura), mesmo que em O poderoso chefão – parte 2, por exemplo, tenha elaborado toda a trama de Michael Corleone (a ascensão do jovem Vito Corleone, interpretado por Robert De Niro, é baseada no romance) e em O poderoso chefão – parte 3 seja no mínimo coautor.

Na verdade, vendo os três filmes da família Corleone como um conjunto, emerge mais claramente a visão do próprio Coppola, mesmo que baseada no livro de Puzo e valendo-se de sua contribuição nos roteiros. Na parte 1, os Corleones são mafiosos com influência em Nova York, basicamente; na parte 2, com a expansão dos negócios aos cassinos o contato com setores mais altos de poder se estreita, chegando ao ápice na parte 3, com as negociatas multimilionárias com aquela que talvez seja a instituição mais poderosa do Ocidente no último milênio: a Igreja Católica. Sob essa perspectiva, o Coppola autor ganha nítida dimensão, ainda mais em suas declarações sobre como não pôde desenvolver como queria o último roteiro da trilogia, pressionado pelos executivos do estúdio a lançar o filme no fim de 1990, apesar de ter pedido ao menos mais seis meses para aprimorá-lo.

À parte a questão da parceria Coppola/Puzo, os 40 anos da estreia de O poderoso chefão suscitam uma análise sobre como o tempo depurou as duas obras: livro e filme. A leitura do romance de Mario Puzo hoje, obviamente, não pode ser feita descolada da adaptação ao cinema, mas a despeito disso é inegável se tratar de romance menor, talvez já esquecido não fosse a trilogia, mesmo tendo sido um best-seller no começo dos anos 1970. O filme, por sua vez, ganha admiradores a cada geração, permanecendo uma grande influência cultural – até mesmo pop – mundo afora.

Apesar de obras mais recentes, já é possível fazer também o comparativo entre o livro Cidade de Deus, com 15 anos de publicação, e o filme que inspirou, com 10 anos de estreia. Neste caso mais uma vez é impossível dissociar a leitura do romance da versão cinematográfica. E, igualmente deixando esse fato à parte, novamente as limitações do texto literário parecem claras, sobretudo pela fragmentação narrativa, com alguns recortes de histórias reais mal costurados, excessivamente tangentes à trama principal. Como Mario Puzo, porém, Paulo Lins terá sempre o crédito de ter descortinado aos leitores uma realidade que de outra forma permaneceria alheia aos que não a vivenciaram. E isso Fernando Meirelles e Francis Ford Coppola traduziram com maestria para as telas.

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