Depois de críticas ao orçamento e ao tapete vermelho, Festival de Gramado sofre alterações

Mostra celebra os 40 anos com mudanças conceituais

por Carolina Braga 10/08/2012 09:05

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Marlon Penido/Divulgação
O curta Diário do não ver, das diretoras mineiras Cristina Maure e Joana Oliveira, será exibido em Gramado (foto: Marlon Penido/Divulgação)
 
Durante muitos anos, o Festival de Cinema de Gramado ostentou o estigma de ser um dos mais importantes – e charmosos – eventos do gênero realizados no país. Mas, como a fama andava meio suspeita nos últimos anos, a luz vermelha acendeu. É assim, quase em alerta com tanta mudança, que começa hoje no interior do Rio Grande do Sul a edição de número 40. É histórica não só pelo aniversário, mas pela guinada a que se propõe. 
“O que houve foi uma mudança importante em relação à própria organização. Um novo grupo assumiu e tenta dar rumo diferente aos próximos 40 anos”, diz o crítico gaúcho Marcos Santuário. A curadoria, que ele divide com o ator e diretor José Wilker e o também crítico Rubens Ewald Filho, responde por grande parte da virada. “É momento de celebrar os 40 anos de um festival que foi fundamental para o desenvolvimento do cinema brasileiro e latino, e ao mesmo tempo ser cenário para o contexto contemporâneo de produções”, completa. 
Em termos de estrutura, praticamente não há mudanças. A disputa pelo Kikito começa hoje com quatro mostras competitivas: longas-metragens brasileiros, longas latinos, curtas brasileiros e gaúchos. Segundo Marcos Santuário, a curadoria foi pautada por três nortes. “Filmes que dialogassem com um espectro maior no universo cinematográfico: com o público, com a crítica e com o potencial turístico da cidade de Gramado. O festival entra na agenda turística e cultural como elemento a mais”, explica.
O apelo turístico explica em grande parte a escolha de 360, novo longa do diretor Fernando Meirelles, para a abertura fora de competição. Inspirado em uma peça de teatro de Arthur Schinitzler, o filme reúne tramas que se passam em diversas partes do mundo. “Fernando é um cineasta que representa o cinema contemporâneo, sabe dialogar com esse universo mais amplo que queremos abordar. Faz filmes relacionando histórias e vivências do mundo todo, sem entrar no esquema de Hollywood, ao mesmo tempo em que insere atores brasileiros no circuito internacional”, analisa Marcos Santuário. 
Claro que, nos últimos 40 anos, o cenário, não apenas do cinema brasileiro, mas dos festivais mudou muito. No caso de Gramado, o que se percebe na programação é que há sim o desejo de contemplar novos realizadores e uma estética mais autoral, sem abrir mão de trabalhos que alcancem o público mais diretamente. “Não é uma lógica excludente. O cinema pode sim ser autoral, assim como também pode estabelecer o diálogo com a plateia”, defende o curador. 
Sendo assim, na competitiva nacional disputam o Kikito, seja o documentário de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt sobre Jorge Mautner (Jorge Mautner – O filho do Holocausto), como O som ao redor, novo trabalho do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, reconhecido esmero estético e autoral. Outra característica entre os selecionados é a mistura de gerações. Além dos nomes citados – que podem ser considerados veteranos – Eu não faço a menor ideia do que eu tô fazendo com a minha vida, por exemplo, é o segundo longa do carioca Matheus Souza, de 20 anos. 
“Vivemos um momento em que se privilegia o individual em vários aspectos. O cinema, de certa forma, também representa isso. Mas acho que conseguimos localizar uma produção que pode ser considerada autoral, tem a marca do diretor. Ao mesmo tempo em que está preocupado em dialogar com a interioridade dos personagens, conecta-se a um movimento global de economia, de sociedade, de política”, analisa Marcos Santuário. 
HOMENAGEM O Festival de Gramado também é marcado pela distribuição de homenagens. Betty Faria será agraciada com o Troféu Oscarito e o cineasta e jornalista Arnaldo Jabor, com o troféu Eduardo Abelin. O Kikito de Cristal será entregue ao argentino Juan José Campanella e o troféu Cidade de Gramado vai para Eva Wilma.
 
CELEBRIDADES
Uma das críticas mais frequentes ao Festival de Gramado é o exagero ao culto das celebridades. Marcos Santuário reconhece que, em determinado momento de sua história, o evento escorregou mesmo nesse quesito. Mas é sempre bom lembrar: tapete vermelho é marca de festivais de cinema no mundo todo. “ Talvez Gramado tenha pecado em algumas edições quando privilegiou um olhar mais midiatizado em relação às estrelas do que ao cinema.
 
Agora, há preocupação por parte da organização de trazer pessoas que digam algo dentro e fora dele. O olhar para o tapete vermelho está estendido para quem deu, está dando ou tem algo a dar”, explica.  A 40ª edição do Festival de Gramado também já é marcada pela mais polêmica em relação às finanças. As dívidas deixadas pela edição passada repercutiram. Sob a coordenação geral de Rosa Helena Volk, a promessa é de rígido controle orçamentário. Este ano, o festival  custará R$ 2,5 milhões, sendo parte dos recursos da lei federal de incentivo à cultura.  
 
Representante mineiro 
 
No pacote com mais de 150 longas inscritos para a mostra competitiva nacional, nenhum filme mineiro chamou a atenção da curadoria. Por outro lado, Diários do não ver, de Cristina Maure e Joana Oliveira, é um dos concorrentes entre os curtas-metragens. “Foi muito bom termos sido selecionadas para Gramado. Sabemos que é um festival que já mudou de cara várias vezes. Especificamente este ano, a seleção me agrada muito. É bom estar junto com realizadores que admiro”, diz Joana Oliveira. 
Diário do não ver disputa o prêmio, por exemplo, com O duplo, curta de Juliana Rojas recentemente agraciado na Semana da Crítica do Festival de Cannes. Há, ainda novos trabalhos de Gabriela Almeida Amaral (A mão que afaga) e de Andre Farkas e Arthur Guttilla (#). Entre os longas, as recentes realizações do pernambucano Kleber Mendonça (O som ao redor) e de Caetano Gotardo (O que se move), atraem a atenção de Joana. O filme de Gotardo, inclusive, tem no elenco os atores mineiros Fernanda Vianna e Rômulo Braga. 
“Nosso filme fala sobre a dificuldade de uma pessoa que vai ficar cega se adaptar ao mundo e a relação que estabelece com os sonhos dela”, conta Joana Oliveira. Diários de não ver nasceu do desejo das diretoras em realizar uma ficção. Joana assina o roteiro sobre a arquiteta prestes a perder a visão. “Acho que o filme teve algumas coisas muito felizes. Isadora Fernandes, a atriz principal, abraçou o projeto e está muito bem. A fotografia de Cristina Maure e a edição de som também dão dimensão grande”, avalia a criadora. 


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