Documentário Marighella e longa A memória que me contam são exemplos de filmes que carregam marcas profundas da ditadura

por Mariana Peixoto 29/07/2012 08:44

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Uma viveu a ditadura da forma mais dura possível, incluindo prisão e tortura. A outra, criança no período mais duro da repressão, assistiu, com olhos sem malícia, à luta de protagonistas que iam contra o regime ditatorial. Mesmo com experiências completamente distintas na ditadura civil-militar, Lúcia Murat e Isa Grinspum Ferraz vêm levando seus olhares sobre o período para o cinema. A primeira, experiente cineasta e documentarista, exibe em setembro, no 45º Festival de Cinema de Brasília, A memória que me contam, seu nono longa-metragem, que reúne, nos dias de hoje, ex-militantes em torno da morte. A segunda, depois de exibi-lo no circuito de festivais, lança em agosto o documentário Marighella, retrato pessoal do tio, que só soube, dois meses antes de ele ser assassinado, ser o guerrilheiro mais procurado do país.

Força de um rosto


Em setembro de 1969, militantes do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e da Aliança Libertadora Nacional (ALN) sequestraram o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick. A intenção do grupo era trocá-lo por presos políticos. Com o rosto de Carlos Marighella dominando os cartazes de “Procura-se” em todos os jornais, havia chegado a hora de explicar às crianças que aquele tio que aparecia e desaparecia era o homem mais procurado não só do Brasil, como da América Latina.

Foi dessa maneira que Isa Grinspum Ferraz, então com 10 anos, soube a verdade sobre Carlos Marighella. O tio foi morto em novembro daquele ano e, obviamente, os desdobramentos foram dificílimos para toda a família. Tia Clara, a viúva de Marighella, ficou exilada 10 anos em Cuba. Antes disso, o próprio pai de Isa havia sido preso e torturado.

TC FILMES/DIVULGACAO
Foto de Carlos Marighella que faz parte do documentário dirigido por Isa Grispum Ferraz (foto: TC FILMES/DIVULGACAO)


“Escrevi um roteiro em 1986, mas não consegui nenhum tostão. O nome Marighella, como durante várias décadas, era maldito.” O tempo foi passando e outros projetos vieram. Até que alguns anos atrás, com a proximidade do centenário dele (em dezembro de 2011), Isa resolveu voltar à velha ideia. “Sentei com minha tia, que está superbem e lúcida, apesar da idade avançada, e formatamos o projeto em função da data.” Tanto como queria, Isa conseguiu exibi-lo, em 5 de dezembro do ano passado, em Salvador, onde Marighella havia nascido 100 anos antes. A trilha sonora de Marighella leva a assinatura de Marco Antônio Guimarães. Já a música que encerra o filme é de Mano Brown, líder dos Racionais MCs.

O retrato que aparece no documentário é muito pessoal. “Decidi me colocar na primeira pessoa desde o começo. Seria mentiroso se não fosse assim, e nunca quis fazer um filme objetivo e jornalístico. Me coloquei como uma sobrinha curiosa para entender um personagem que se tornou mito no Brasil e no exterior.” E também mostrar um outro lado. “Marighella esteve só dois anos e meio na guerrilha, mas ele começou a militar em 1932. Era um mulato baiano, filho de anarquista italiano, um poeta, que passou clandestino quase 40 anos.” Foram entrevistadas 31 pessoas, e todas, à exceção de quatro historiadores, conheceram Marighella.

“Queria fazer o retrato do homem filtrado na minha memória e a de quem o conheceu”, continua Isa. E é um retrato através da palavra, já que não existe nenhuma imagem em movimento de Marighella vivo. “Fiz um filme sem imagens dele. Há 20 e poucas fotos inéditas, e por conta da dificuldade de encontrar imagens tive que criar soluções. Então construí o documentário com imagens que ganham um novo significado no filme. Ou seja, tudo que está ali tem uma razão.”

Relatos de sobreviventes


Nos dias atuais, um grupo de amigos, ex-militantes de esquerda, se reúne em torno de uma antiga companheira que está morrendo. Esse é o mote de A memória que me contam. Mesmo que seja um filme de ficção, muito do que Lúcia Murat e seus amigos passaram estará nas telas dos cinemas. “Já tinha essa ideia há muito tempo, pois queria fazer uma homenagem a uma amiga, Vera Silvia Magalhães (morta em dezembro de 2007, em decorrência de câncer), que foi quase um mito para a esquerda”, conta a cineasta.

De acordo com ela, na luta contra o câncer, o mesmo grupo se encontrava em torno dele. “Além do passado, o único elemento em comum era ela.” Dessa maneira, ela construiu o roteiro do longa, que mostra como essas pessoas sobreviveram, “diante dos próprios limites, das contradições e da relação com os filhos. É uma relação muito afetiva com a pessoa que está morrendo, que representa o passado de todos”, continua Lúcia Murat. No grupo do filme, estão uma artista, um ministro e até mesmo uma diretora de cinema.

Taiga Filmes/Divulgação
Em A memória que me contam, Lúcia Murat reflete sobre o tempo, a política e a morte (foto: Taiga Filmes/Divulgação)


“Como tema genérico, a ditadura está em toda a minha filmografia, pois não consigo fugir disso”, continua ela. Trazendo a ditadura como centro da narrativa, Lúcia tem quatro filmes, o mais antigo deles lançado em 1989, Que bom te ver viva, que tratou da tortura em mulheres durante a ditadura militar. “Foi um filme bastante difícil, primeiro longa, e era extremamente audacioso para a época, tanto na estética quanto no tema, já que fugia da imagem da vítima.”

Era ainda uma outra época. “Tinha muito medo, cheguei a receber ameaças”, relembra. Hoje, a história é diferente. “O olhar está mais calmo, nostálgico. Ele é menos de denúncia e mais de reflexão.” E é essa diversidade de olhares que faz com que o tema não se repita. “A história não está revelada, estamos lutando para poder conhecer tudo. A Comissão da Verdade foi feita apenas este ano e tem ainda dois anos de trabalho pela frente. Temos que trabalhar ainda muito sobre isso.”

Outros olhares


» Pra frente, Brasil (Roberto Farias, 1982)
Confundido com militante político, homem é preso e torturado, deixando sua família a procurá-lo.

» O que é isso, companheiro? (Bruno Barreto, 1997)
Grupo terrorista MR-8 elabora plano para sequestrar o embaixador americano, pensando em trocá-lo por presos políticos torturados.

» Ação entre amigos (Beto Brant, 1998)
Vinte e cinco anos depois de serem presos e torturados, quatro amigos decidem sequestrar e matar seu antigo torturador.

» O ano em que meus pais saíram de férias (foto) (Cao Hamburger, 2006)
Fugindo da repressão, casal de militantes deixa o filho com o avô. Com a morte deste, o garoto terá que se integrar, sozinho, à comunidade judaica de São Paulo.

» Batismo de sangue (Helvécio Ratton, 2006)
No final dos anos 1960, convento de frades dominicanos torna-se trincheira de resistência à ditadura civil-militar. Narra a morte de Marighella e a tortura a que foi submetido frei Tito.

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