Para aqueles que leram a obra-prima de Jack Kerouac, o primeiro pré-requisito para ver Na estrada é o desapego completo em relação ao livro. Feito isso, digamos que terá meio caminho andado para embarcar na viagem proposta pelo filme dirigido por Walter Salles. Antes de detalhar a nova produção do brasileiro, cabe mais um recado para a calibragem da alta dose de expectativas que cercam o projeto: adaptação talvez não seja melhor palavra para este caso. É uma leitura. Assim como na literatura, a busca por liberdade e por sensações à flor da pele, que incluem muitas drogas e sexo, estão na tela, mas não com a intensidade das letras de forma.
Veja imagens de Na estrada, de Walter Salles:
Veja imagens de Na estrada, de Walter Salles: Na estrada, o filme, mostra muito mais a história de um escritor em busca de seu livro do que propriamente um jovem que vive, sem medidas, a busca por descobertas para depois contá-las. “O que talvez dê unidade ao livro é o fato de o narrador utilizar as histórias que ele vive para relatar depois. É o relato dentro do relato. Já o roteiro conta a história do livro sendo feito”, reconhece Salles, durante entrevista no Rio de Janeiro, onde o filme foi exibido para a crítica na manhã de terça-feira, 3.
Diretor experiente, principalmente quando se trata de road movies, muito antes de aceitar a empreitada Walter Salles sabia o tamanho do desafio que estava enfrentando. “Sempre soube que a paixão pelo livro não era um passaporte suficiente para fazer o filme”, conta. Sendo assim, quase de forma concomitante à elaboração da ficção ele também fez um documentário percorrendo a mesma rota da obra literária como uma forma de se aproximar aquele universo. “Parti em busca dos personagens do livro que ainda estão vivos, os poetas mais próximos do Kerouac. Posso dizer que conheci as pessoas de 80 anos mais jovens com quem tive o prazer de compartilhar uma conversa”, elogia.
O documentário, em finalização, deve ser lançado até o fim do ano. O fato de a produção ter funcionado como um laboratório para a realização de uma ficção é curioso, principalmente pelo resultado alcançado. O melhor do novo filme de Walter Salles está no trabalho do elenco, protagonizado por Garrett Hedlund (Dean Moriarty), Kristen Stewart (Marylou) e Sam Riley (no papel do narrador, Sal Paradise). Mas isso não foi suficiente para conter as críticas negativas que Na estrada tem acumulado desde a estreia no Festival de Cannes, em maio.
O Brasil será o quarto país a exibir o longa e por aqui a percepção geral também não deve ser diferente da estrangeira. É incrível como um livro que influenciou tantos artistas de vanguarda possa dar origem a um filme tão insosso. Se a criação de Kerouac alterna o clima solar e instigante das descobertas com a atmosfera soturna da constatação da realidade, no cinema, até mesmo a fase que deveria transbordar a ânsia de viver e os desejos de mudança é opaca. Já na segunda parte do filme, quando a realidade e a crueldade da vida dão as caras, há uma coerência na narrativa que equilibra o resultado final.
“A busca ali é por todas as formas de liberdades que estavam sendo negadas naquele momento. Embora tudo parecesse bem, nem tudo estava bem. Por um lado, tem toda uma experimentação; por outro, uma viagem interna que guarda uma dor. Não é uma trajetória sem consequências e por isso é complexo”, contextualiza Walter Salles. Na estrada se passa entre 1947 e 1951, período do pós-guerra, em que ao mesmo tempo em que o american way of life era construído, havia uma geração de artistas pungentes que iam na contramão do que dominava o país. “O que o livro narra é o início das opções para um outro modelo. Quando você tem 18 anos busca por todos os lados”, comenta Salles .
Pulsação
Para traduzir esse ímpeto, Walter Salles aproximou – e muito – a câmera dos personagens. A inquietação, cenas muito movimentadas, quase nada contemplativas, apesar de ser um filme de estrada, também marcam a linguagem cinematográfica de Na estrada. A opção, segundo o diretor, foi uma maneira de fazer com que o público pulsasse junto com os personagens. “O Kerouac usava a máquina de escrever como extensão do corpo, como um cara que toca jazz. O resultado disso é muito mais sensorial”, explica o diretor.
Antes do Brasil, Na estrada foi exibido na França, na Holanda e na Bélgica. A estreia nos Estados Unidos está prevista para dezembro. “Até lá, ainda estaremos em mais de 30 festivais em 20 e poucos países. Ou seja, a estrada será longa. Ainda estamos no início”, contabiliza Walter Salles.
NAS LIVRARIAS
Com o lançamento do filme de Walter Salles, o romance On the road, de Jack Kerouac, volta às livrarias brasileiras em edição da L&PM, com tradução e novo prefácio de Eduardo Bueno. Está também chegando aos leitores a biografia Jack Keoruac – O rei dos beats, de Jack Miles, pela Editora Civilização Brasileira.
* A repórter viajou a convite da produção do filme.
Assista trailer do filme:

