Cinema

Cinema americano se especializa no filão de produções para público jovem, com muita ação, fantasia e marketing

Mercado brasileiro imita a receita, mas sem alcançar os concorrentes

Mariana Peixoto

No brasileiro 2 coelhos, jovens se envolvem em trama de violência, com muitas cenas de ação em ritmo frenético

Filme com uma história emocionante, inspirada em livro que vendeu milhões de cópias no mundo, que os próprios fãs, através de redes sociais, sites e blogs, contribuem diretamente para a divulgação, e que contêm elementos de aventura e ação. Visto dessa maneira, essa poderia ser a definição das sagas Harry Potter e Crepúsculo. Mas não é. Trata-se de Jogos vorazes, primeiro longa-metragem inspirado na trilogia homônima, da escritora Suzanne Collins (13 milhões de exemplares vendidos em todo o mundo). Essa é a aposta da indústria cinematográfica para tomar de assalto os cinemas em 2012, como o fizeram, no ano passado, a última e a penúltima sequências de Harry Potter e Crepúsculo, respectivamente. Todos, sem exceção, são voltados para o público jovem, o atual grande consumidor de cinema.


Dirigido por Gary Ross, que não é propriamente do primeiro time da indústria (como diretor, assinou Seabiscuit – Alma de herói e A vida em preto e branco), e um elenco em que os nomes mais conhecidos estão entre os coadjuvantes (Woody Harrelson, Donald Sutherland e Stanley Tucci), Jogos vorazes estreia no Brasil somente em 23 março. A despeito disso, a aposta é grande. Salas dos multiplex já vêm sendo tomadas pelos trailers dos filmes. Na internet o movimento também é grande (há vários sites de fãs dedicados exclusivamente à série) e a Editora Rocco, que publica a trilogia desde 2010, se prepara lançar em março um box com os três livros. Ou seja forte campanha promocional vem aumentando a expectativa.

Para usar um velho bordão do futebol, cinema também é uma caixinha de surpresas. Nem toda franquia baseada em livro de sucesso voltada para os jovens se dá bem na tela grande. Há exemplos recentes, como os de Percy Jackson e A bússola de ouro, que prometiam ser os novos Harry Potter, e passaram longe de qualquer grande feito. O que chama a atenção é que esse tipo de filme tem dominado as salas e, consequentemente, as maiores bilheterias. De acordo com o ranking da Filme B, empresa especializada em pesquisa de mercado cinematográfico, a maior parte das 10 maiores bilheterias desde início de ano correspondem a filmes infantis ou para o público jovem. O primeiro colocado é Alvin e os esquilos 3; o segundo Imortais; o terceiro Sherlock Holmes – O jogo de sombras (os dados são das bilheterias até o dia 22).

Editor do portal Filme B, o jornalista Pedro Butcher afirma que Guerra nas estrelas (1977) é uma espécie de paciente zero do caminho que o mercado cinematográfico tomou. “Foi a produção que transformou a temporada de férias (janeiro e julho) na principal para o lançamento de filmes. Antigamente, a maior parte dos filme era voltada para adultos, pois eles frequentavam mais o cinema.” Com o caminho aberto por George Lucas, as franquias foram se propagando. “A grande questão é que a franquia criou diversas possibilidades de ver um filme. A juventude tem um lado gregário e o cinema tem seu lado social.
Além disso, é um motor de consumo muito importante. O primeiro empresário que viu isso foi Walt Disney, quando criou os bonecos e as roupas de seus personagens. Na época, era considerado um pária pela indústria. O que Hollywood fez foi adotar o modelo Disney”, analisa.

Ainda de acordo com Butcher, hoje o que se gasta em marketing em cima das franquias chega a ser superior ao custo dos próprios filmes. “A indústria tem que produzir o desejo de sair de casa para ver um filme. E o que se vê é um grande investimento inicial na franquia, e a partir do momento em que a marca se torna conhecida, ele se dilui. Uma franquia se alimenta de si própria. Quando o filme 2 estreia no cinema, o número 1 está passando na TV. Ou seja, a mesma história é oferecida várias vezes”, explica.

Morte na TV
A narrativa de Jogos vorazes é dirigida abertamente ao jovem. Num futuro distante, os Estados Unidos estão sob o comando de um regime totalitário. A capital concentra todo o poder e 12 distritos que têm que mandar, a cada ano, um garoto e uma garota para participar de um reality show (Jogos vorazes), uma luta até a morte, exibida na televisão. A protagonista é Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence, que esteve no mais recente X-Men), de 16 anos, que é enviada para o embate no lugar da irmã.

Disputa ainda é desigual
Lançado em 30 de dezembro, Imortais, filme que trata de uma guerra entre deuses e titãs, fez até agora 2 milhões de espectadores no país. A produção norte-americana, que ocupa atualmente o segundo lugar no ranking dos filmes mais vistos no Brasil neste início de ano, é distribuída pela Imagem Filmes. A mesma empresa distribui também 2 coelhos, produção nacional que estreou no dia 20. A história trata de um jovem à beira da criminalidade que decide fazer justiça com as próprias mãos. Traz vários elementos do universo jovem, como games, animação e ritmo bem acelerado.

A distribuidora utilizou a mesma estratégia de lançamento para os dois longas: investimento em redes sociais, anúncios em portais de internet dirigidos aos jovens etc. E como o longa-metragem é brasileiro, ainda promoveu pré-estreias com a presença do diretor (Afonso Poyart, estreante em longas) e elenco (capitaneado por Fernando Alves Pinto, Alessandra Negrini e Caco Ciocler). A produção norte-americana foi mal cotada pela crítica, que de uma maneira geral viu com bons olhos o filme de Poyart.

2 coelhos estreou há dez dias em 239 salas brasileiras. No primeiro fim de semana foi bem aquém das expectativas da Imagem (a renda foi de R$ 1,1 milhão), que espera que o filme encerre carreira com 500 mil espectadores, número mediano, dado o tamanho do lançamento. O principal argumento é de que o público jovem aprova um produto internacional com mais facilidade.

Para o diretor, a data de estreia foi o principal empecilho para que a bilheteria fosse melhor. “Acho que o filme tem um pacote visual que pode seduzir o jovem, mas abrange faixas etárias diferentes. Na hora da venda, houve foco excessivo para esse público jovem, com o que não concordei. O grande problema é que acharam que poderiam disputar com blockbuster de verão. Esta época é muito competitiva para o cinema brasileiro e o tipo de público do meu filme tem preferência por produções estrangeiras e vai sempre escolher Tintim ou Sherlock Holmes.”

2 coelhos é um filme de ação, coisa rara de se ver na indústria brasileira. “Hoje o que mais se vê são filmes baseados na experiência de TV. O cinema brasileiro não costuma ousar muito na estrutura de roteiro”, diz o cineasta, que entre julho e agosto filma a história do campeão de MMA José Aldo, que será vivido por Malvino Salvador. “Não é na linha de 2 coelhos, mas tem alguns componentes em comum, como aventura, ação e uma bela história de vida.

Próximas franquias jovens
A viagem 2: a ilha misteriosa (3 de fevereiro)
Star Wars: episódio I – A ameaça fantasma (relançamento em 3D, 10 de fevereiro)
O motoqueiro fantasma 2 (17 de fevereiro)
Pequenos espiões 4 (9 de março)