Em meados do século passado uma película francesa provocou certo barulho nos meios cristãos. Dessa vez, porém, a polêmica não se justificava. "Quis fazer deste um filme reconfortante para todos aqueles que veem na religião alguma coisa mais do que um simples abrigo contra as tempestades. E é nesse sentido que Deus necessita de homens (Dieu a besoin des hommes/1950) é um filme religioso", declarou o diretor francês Jean Delannoy, no lançamento da obra na Bienal de Veneza. A explicação, é bom lembrar, foi dada num contexto de controvérsias. Primeiramente, os organizadores do festival, alegando um possível tom irreligioso da história, se recusaram a programá-la. Superada a crise, paradoxalmente foi esse o filme escolhido como "o melhor do ano" pelo Bureau Internacional do Filme Católico.
Aceitando-se ou não a "mensagem" veiculada por Deus necessita de homens, mensagem, de resto, respeitabilíssima, pois que procura situar em seu real lugar a significação dos símbolos e da liturgia no culto a Deus (colocando para isso em primeiro plano não apenas o caráter nitidamente supersticioso da fé de seus personagens como a contradição existente na prática dessa mesma liturgia) permance a película como uma obra de real e inegável importância, na verdade a coisa mais importante feita até então por Jean Dellannoy, seu diretor. Mesmo do que em Sinfonia pastoral (La symphonie pastorale/1946), nessa fita ele também figura como um narrador seguro, que às vezes ainda persiste na forma do raconto literário.
Assim, aqui como lá estão presentes as características do romance, melhor, do conto: as raízes dos acontecimentos anteriores (à existência da ilha cuja população é semi-selvática e cultua à sua maneira o seu deus, a quem pedem naufrágios, para a própria sobrevivência), mostradas superficialmente; a elaboração sucinta do conflito (aqui, a deserção do padre, que é narrada por um locutor) e a necessidade que a população sente de um guia espiritual para ministrar os últimos sacramentos, para ouvir a confissão dos pecadores, para absolvê-los), criando as situações de que o filme se nutrira; e a resolução surpreendente desse mesmo conflito (com a chegada de um novo padre e a marcha da população para enterrar no mar o pobre suicida, a quem o religioso negava o direito a um pedaço de terra no cemitério
Sem prejuízo disso, porém, o "cinema intimista" de Delannoy se projeta integral, mais autêntico e mais cinematográfico do que o do já citado Sinfonia pastoral (cujos maiores defeitos talvez se devessem a André Gide, principal responsável pelo roteiro original, que controlou todo o processo de sua feitura.
Concentra-se, então, sobre o drama de Thomas (Pierre Fresnay), escolhido pelos companheiros para substituir o padre ausente.
Reverência diante do sagrado
Não só a sua profunda reverência diante daquelas coisas que sempre tivera por sagradas, como o conflito moral, espiritual e mesmo físico em que se debate diante da inúmeras solicitações partidas de uma população que tem a "necessidade de ter fé", estão perfeitamente caracterizados em todo o desenrolar da película. Para isso muito colaborou, além do extraordinário desempenho de Pierre Fresnay, inexcedivelmente belo, os diálogos, de uma magnífica maleabilidade, de autoria de Jean Aurenche e Pierre Bosto (os mesmos de Adúltera/Le diable au corps, 1947, curiosamente o único filme francês do pós-guerra que admite e se sobrepõe a paralelos como Deus necessita de homens), que se basearam na novela de Henri Queffélec, Un recteur de l'Île de Sein, obra sem maiores méritos.
Ao lado de Pierre Fresnay (que aqui aparece em papel superior ao desempenhado em Monsieur Vincent/1947) surgem, também em interpretações magistrais Daniel Gelin, sem dúvida um dos grandes astros franceses da sua geração, como o atormentado Joseph; Madeleine Robinson, a mulher que confessa seu adultério a Thomas, irmão do seu marido; Andrée Clement; Sylvie; e Jean Brochard, como o pároco mandado para a ilha no final.
Cite-se ainda aquela que talvez seja a mais patética dena de um filme quase sempre patético: aquela em que da vila aparentemente abandonada levanta-se, em cantochão lamentoso, o coro dos habitantes levando o corpo de Joseph, que seria, depois de uma estranha e fascinante cerimônia, entregue ao mar. Observa-se, então, a qualidade da música composta por René Cloërec, muito boa. Em resumo, Deus necessita de homens é um grande e digno filme, que representa um dos pontos altos da cinematografia do pós-guerra. Direção de Jean Delannoy e interpretação magnífica de Pierre Fresnay, o maior ator francês do seu tempo.
Passemos agora para um exemplar do cinema nacional chamado Tudo azul (1952), um dos muitos filmes de meados do século passado produzidos com o propósito de pegar carona na popularidade das "cantoras do rádio" que definiram a cultura daquela época.
Ananias é um sujeito normal, só que um tanto "pesado": casado, briga com a mulher, briga com o patrão, namora a colega de serviço, faz gazeta e sonha. Ah, principalmente sonha.
Cantoras do rádio em filme pífio
Sonha bonito, sonha meia hora seguida. Sonha com Virgínia Lane (sonho bom), sonha com Linda Batista (sonho mau), sonha com Dalva de Oliveira (sonho péssimo) e sonha com Blecaute (pesadelo). As novas gerações terão que recorrer ao Google para descobrir quem são alguns dos personagens reais da história da música e das artes cênicas brasileiras aqui citados, mas é isto mesmo: resenha de filme antigo também é cultura.
No começo, Ananias, o protagonista, parece um sujeito normal - normal, razoavelmente bem comportado, mas que tem a desvantagem de ser compositor de samba. Compositor ineditíssimo, que não encontra ninguém para o gravar, ninguém para o ouvir. E vai ficando infeliz, infelicísíssimo; implora a Jorge Goulart. Nada. Implora a Francisco Alvez, a Orlando Silva. Nada. No fim, se apaixona por Marlene, que o beija a seu modo, e vai dormir. Aí, então, que começa a inana. Aparece, em primeiro lugar, a sra. Virgínia Lane, desenvoltamente seminua e cantando Sassaricando, no que talvez seja o mais transitável dos quadros musicais do filme.
Depois surge Linda Batista num número apenas abominável. Aliás, essa película dá motivo para se questionar o "fênomeno" Linda Batista. De lastimosa falta de espírito, graça e jeito, como cantora não apresenta maiores méritos, aqui, do que os de uma cozinheira flautista. Em seguida, vem a madame Dalva de Oliveira, com pastoras e com escolas de samba, gingando algo cretinamente. Ela faz algumas poses de menina prodígio o que, afinal, na sua idade à altura do filme (35 anos bem vividos) e com a sua fama, não lhe caíram nada bem.
Blecaute, um bom tipo cinematográfico, interpreta com alguma classe Maria Candelária, enquanto Carmélia Alves massacra dois baiões. E Marlene se defende também em dois números, ambos encenados com total falta de gosto, mas dos quais se salva Lata d'água, que não irrita. O quadro do grupo Quatro Ases e um Coringa é pífio, como de resto pífia é a melodia de Apanhador de papel e pifiíssima a sua letra.
Tudo azul tem um processo de ligação curiosíssimo entre sua parte "dramática" e suas músicas: até 15 minutos antes do fim vai seguindo como um filme de narrativa, contando as desditas, os sofrimentos de Ananias, um barnabé que não é funcionário público.
E tome sucessos de carnaval
Aí, os produtores descobrem que a fita está ficando sem as músicas de carnaval. O que fazem? Põem o Ananias (faltou dizer que ele é interpretado por Luiz Delfino) para sonhar nos últimos minutos. E ele sonha, imaginem com o quê? Com as músicas de carnaval. E tome Sassaricando, e tome Maria Candelária, e tome Linda Batista, e tome Dalva de Oliveira, e tome Carmelita Alvez, sem lenitivo. No fim, tudo dá certo, terá prensado o produtor e diretor Moacyr Fenelon, que antes desse filme e em outras áreas, havia merecido a nossa confiança.
No elenco de Tudo azul há um razoável bom comportamento. Tanto Luiz Delfino quanto Marlene (intérprete da personagem Maria Clara) saem-se quase satisfatoriamente em seus papéis. E Delfino, com boa cara, procede desenvoltamente, acompanhado por Laura Suarez, na pele da personagem Sofia. Para resumir, Tudo azul foi um filme produzido sob encomenda para ser lançado no carnaval de 1952. Restaurado em 2001, numa iniciativa do Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro patrocinada pela Petrobras, a última exibição pública da fita de Fenelon, até onde sei, foi em Diamantina, no 37º Festival de Inverno da UFMG, em 2005.
Para assisti-lo, o cinéfilo de hoje terá que ficar atento a festivais de arte e sessões nostalgia dos canais pagos. Sua trilha sonora, porém, é bastante acessível nestes tempos de música gerada a um clique no enter do computador. Alguns dos hits da época incluídos na película: Virgínia Lane canta Sassaricando; Blecaute canta Maria Candelária; Dalva de Oliveira canta Estrela do mar; Marlene canta Lata d'água e Quatro Ases e um Coringa cantam Apanhador de papel. É só procurar nos sites especializados ou nas boas casas do ramo (como se dizia naquela época).