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Blocos de BH integram teatro, poesia e dança aos desfiles de rua

Bloco Circuladô usou em 2019 performance com tecidos e poesia para falar sobre a tragédia de Brumadinho - Foto: Bruno Figueiredo/Divulgação
Circo, teatro, dança, cinema e literatura. Blocos de rua de BH têm incorporado uma nova tendência aos cortejos, acrescentando diferentes elementos artísticos para transformar as ruas da capital mineira em palco de espetáculos durante a folia. Quem acompanhou o desfile do Sagrada Profana durante o primeiro dia do calendário oficial do carnaval (8) presenciou um pouco dessa nova tendência. O bloco feminista levou às ruas do Bairro Renascença, Região Leste da cidade, pautas do movimento por meio da linguagem circense e cênica.


Da periferia ao Centro, mais de 400 blocos desfilarão durante o carnaval de BH em 2020. Em meio a essa pluralidade cultural, produtores de blocos como Circuladô, Corte Devassa e Magnólia têm encontrado espaço para democratizar o acesso às artes. É o que conta Ana Cecilia Assis, à frente do Sagrada Profana. "O nosso cortejo é principalmente um cortejo político. Nós falamos sobre os direitos das mulheres por meio da arte cênica e circense, que têm bastante força e conseguem tocar mais fundo o público".

Outro bloco que mescla diferentes elementos artísticos à folia é o Corte Devassa,  conhecido pelos figurinos de época. Formada em teatro, Lira Ribas, fundadora do bloco, conta que desde o surgimento a Corte sempre esteve intrinsecamente ligada às artes cênicas. "A gente cria performances porque para nós a folia não é só para pular carnaval. Acho que Belo Horizonte tem uma potência artística muito grande. A gente tem de entender que os blocos são diversos. O carnaval de rua de BH é feito em um espaço público e ele mostra a importância de ocupar esse espaço que é das pessoas."

Mapa dos blocos de carnaval de BH 2020: datas, horários e locais


Também fundamentado nas artes cênicas, o bloco Circuladô apresentou em seu primeiro cortejo, em 2019, um pouco da cultura nordestina em seu tema de desfile, mas sem se esquecer da tragédia socioambiental ocorrida poucas semanas antes. "Cidade de Brumadinho estado de Minas Gerais, vejam vocês minha gente do que o lucro é capaz", recitou um dos integrantes do bloco da sacada de uma casa no Bairro Floresta, Região Leste, no caminho do cortejo. 



Enquanto as palavras ecoavam pelas ruas, integrantes da bateria foram cobertos por tecidos de cor marrom, em referência à lama de rejeitos do rompimento da Barragem B1 da Mina Córrego do Feijão, da Vale. Na rua, foliões acompanhavam atentos a apresentação do bloco, fundado a partir dos trabalhos do multiartista Di Souza à frente da escola de música Percussão Circular.

Di Souza diz que para o desfile do Circuladô no dia 16 (domingo) os integrantes do bloco usarão dança, literatura de cordel e pintura para criticar a gestão cultural no Brasil. "Nosso bloco é cênico, politemático e político. Neste ano estamos vivendo um momento que a cultura está sendo atacada por esse governo e o carnaval revoluciona, aproxima as pessoas no sentido de a gente ter espaço para dizer o que acredita e do que discordamos. Nosso cortejo é regado a muitas intervenções. A cada esquina do nosso cortejo temos alguma coisa para dizer de um jeito diferente."

Di Souza considera o carnaval uma oportunidade de levar ao público linguagens artísticas que muitas vezes não fazem parte da vida de todos. "Muitas vezes, as pessoas não têm tempo e estrutura para ter acesso à arte, porque a vida do trabalhador é muito sofrida. No carnaval, o país para e é muito mágico, porque as pessoas têm tempo para contemplar. Às vezes, a gente fica pressionado com as circunstâncias da vida e nem fica sabendo das coisas bonitas que acontecem. O carnaval revoluciona, pois leva essas coisas de forma gratuita para as ruas." 

Carnaval e política 

Há uma década, o carnaval de BH ganhou um novo fôlego de vida e refloresceu de maneira espontânea, impulsionado pela contestação popular ao Decreto Municipal 13.798/2009, que proibia a realização de eventos na Praça da Estação. A ocupação desse e dos demais espaços públicos da cidade durante a festa veio como resposta ao então prefeito Marcio Lacerda, que revogou o decreto poucos meses após ele entrar em vigor.

Desde então, o carnaval da capital mineira toma as ruas da cidade e cresce vertiginosamente ano após ano. A festa popular segue em boa parte sem perder de vista essa origem de contestação e ocupação dos espaços públicos, levando às ruas debates sociopolíticos atuais.
 
*Estagiária sob supervisão do subeditor Rafael Alves