Artistas do teatro, música e grafite escrevem a 14 mãos um conto sobre a quarta-feira de cinzas

Inspirados pelo carnaval, artistas aceitaram o convite do Estado de Minas

por Fernanda Machado 18/02/2015 09:00

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Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press
(foto: Alexandre Guzanshe/EM/D.A Press)
Quem conta um conto aumenta um ponto, segundo o ditado. Com esse mote, o Estado de Minas convidou o ator e diretor Claudio Dias, a atriz Fafá Rennó, os músicos Henrique Portugal, Fred Heliodoro e Rodrigo Borges, o dramaturgo e roteirista Wesley Marchiori e o grafiteiro Nilo Zack para escrever um conto às escuras. O autor do início do texto recebeu como ponto de partida o trecho da canção 'A felicidade', de Tom Jobim, que diz "pra fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira e tudo se acabar na quarta-feira". A partir daí, cada convidado criou sua parte da história, conhecendo previamente apenas o trecho imediatamente anterior – sem saber quem era o autor que lhe repassava a bola. O resultado você confere abaixo. O EM Cultura agradece a participação dos autores convidados e deseja a todos felicidade, sim.

 

"Pra fazer a fantasia de rei ou de pirata ou jardineira e tudo se acabar na quarta-feira. Tristeza não tem fim, felicidade sim”, cantou o poeta. Uma personagem que faço no teatro diz: "O que é sério pra você? Para mim, o que é sério é o carnaval. Eu passo o ano inteiro juntando dinheiro, pra quando chegar fevereiro. Para sair junto da mascarada, vestido de bailarina, Pierrô, colombina, presidenta, cafetina e só voltar no raiar da quarta-feira, pensando no carnaval do ano seguinte. Porque a alegria, a alegria é uma coisa séria”. Como a felicidade dura pouco e a alegria é uma coisa séria, bora pra avenida sem pensar que existe amanhã. De hippie eu vou cantando paz, amor e carnaval que a terça-feira é gorda e eu quero mais.

 

 

E seguindo vou cantando pra ver se os males a gente espanta... Porque a coisa tá feia... A água tá pouca... A roubalheira escancarada... A fantasia exposta na avenida... E a bunda na janela!!! E acho bom cantarmos alto... E cantarmos juntos pra ver se o coro dos famintos por um país melhor ecoa longe e bate nos ouvidos moucos desses moços de terno e gravata que nos furtam, à luz do dia, nossos direitos por educação, saúde, saneamento e água limpa. Bora pra rua tomar conta desse bloco que, mesmo em dia de choro, busca a fita amarela gravada com o nome dela: Esperança!

 

 

Às vezes me pego pensando se estamos enxergando somente espinhos, onde, na verdade, deveríamos olhar para as rosas. É uma dádiva ter uma semana para fazer piadas e canções sobre a nossa baderna organizada. Sobre o nosso circo dos horrores e seus atores governamentais. Onde os absurdos morais que vemos a toda hora se tornam palavras cantadas. É a semana onde não sabemos o que é dia ou noite e quando começam ou acabam as noites de insônias alucinógenas.

 

 

Queria ter outros olhos para ver a beleza das fantasias, a ultra-alegria e a ocupação do espaço público pelos cidadãos ávidos por festejar. Queria ter outro calendário para que o carnaval tivesse uma real importância para mim, me fizesse exagerar os sentimentos e não me importar com as multidões satisfeitas que passam ao meu lado. Queria ter outro cérebro para magnetizar lembranças que me envolvessem aos feriados comemorativos. Queria ter outro sistema nervoso, que fizesse minhas mãos digitarem de maneira menos irônica. Mas não. Em casa, a cada dia que passa, minha felicidade vai aumentando, parece que vou acordando para o ano que quase começou. E na quarta-feira de cinzas começa o meu carnaval, a vida real que tanto aguardo desde o Natal.

 

 

E a partir desta tal quarta deixamos de ser os palhaços que invadem as ruas e avenidas a alegrar os espaços e voltamos a fazer papéis de “palhaços” que, seguindo sempre cansados de um sistema falido, corrupto e travado, mantido Deus sabe por quem, por um alguém que culpa seus representantes, chefes ou semelhantes, mas que na primeira ocasião tira proveito de seu irmão, desde estacionar em local proibido ou deixar de pagar o que é devido, de maneira a fantasiar mais uma vez uns aos outros de palhaços. Mas felizes são os que nestes quatro dias coloridos conseguem se divertir, fazendo então uns aos outros sorrir, para no tal dia de cinzas ver tudo partir e a nossas vidas monocromáticas continuemos a seguir.

 

 

A criança que eu fui reclamava do carnaval porque era um período sem aulas. Depois, o adolescente que eu me tornei passou a gostar disto. O adulto que hoje sou só pensa na oportunidade de vestir uma máscara e encarar os quatro dias sem ressentimentos e sem parada obrigatória. Quando adolescente, eu aguentava mais. Hoje, o corpo pede mais calma, a alma exige ir mais devagar, porque na quarta tudo volta ao normal e na quarta, para um adulto cheio de compromissos, não há lugar para brincadeiras infantis ou adolescentes. Ontem, vi um pai levando o seu filho vestido de Homem-Aranha, arrastando o filho para bem longe de uma confusão. O herói não garante proteção e o pai, o verdadeiro herói da cena, tentava inserir o filho numa festa que culturalmente é bem vista, e estava alertando o mini-herói dos seus riscos. Essa imagem não me sai da cabeça. O que é, de verdade, esta oportunidade de encontro coletivo? Então, voltei para casa para aliviar os anos que chegaram e validar a necessidade do limite para o individual e para o coletivo. Energia renovada, ainda sou herói, arriscarei os perigos do segundo tempo!

 

 

Belo Horizonte, enfim, carnavalizada! Feliz em ver a cidade ocupada pela alegria multicor, diversa e antropofágica. Festa e conquista. Evolução e transformação. Revolução da cultura, da música, do corpo, do comportamento. O Brasil como referência. Eu, você, ele, ela, nós, protagonistas do show. O quintal do vizinho não é mais bonito do que o nosso. A gente adora carnavalizar no próprio quintal. Nossa terra, nossa identidade. Prova irrefutável de que todas as segundas e terças-feiras são"possíveis. Esperança. Realidade. O carnaval vivo, pulsante, no ritmo de cada coração mineiro. Somos todos mineiros!" 



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