Livro analisa erros na investigação do assassinato de Marielle Franco

De Vera Araújo e Chico Otavio, obra revela momentos chaves que foram ignorados na investigação e ainda traça um paralelo com universo do crime do Rio

Adriana Izel - Correio Braziliense 01/12/2020 10:13
Rio de Janeiro Municipal Chamber / Renan OLAZ
(foto: Rio de Janeiro Municipal Chamber / Renan OLAZ)
A execução da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março de 2018, ainda segue com uma pergunta essencial sem ser respondida: "quem foi o mandante do crime?". O livro Mataram Marielle: Como o assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes escancarou o submundo do crime carioca, lançado em novembro pela Editora Intrínseca, não busca dar essa resposta. Mas, sim, apontar as falhas que ocorreram durante o período da investigação e como o homicídio foi capaz de abrir uma "caixa de pandora" do universo do crime e das milícias no Rio de Janeiro.

Com 224 páginas, a obra foi escrita pela dupla de jornalistas Chico Otavio e Vera Araújo, ambos integrantes do time do jornal O Globo e que participaram da cobertura do assassinato. No livro, os repórteres compartilham um trabalho investigativo iniciado logo após a morte. Eles trazem diferentes situações durante a investigação, como a demora da polícia em ouvir testemunhas chaves, a troca no comando da investigação, a disputa entre órgãos e até a busca dos investigadores em encontrar um culpado logo, mesmo que não fosse o verdadeiro.

O material também mostra como as investigações ajudaram a descortinar a atuação de traficantes, milicianos e assassinos de aluguel, que tiveram os nomes apontados como suspeitos, mesmo que depois tenham sido descartados.

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Narrativa do livro
Livro Mataram Marielle

Mataram Marielle é dividido em sete capítulos. O primeiro se destrincha no crime e traz relatos impactantes da única sobrevivente do crime, a assessora Fernanda, que acabou tendo que sair do país por questão de segurança.

O segundo, intitulado O jogo de xadrez no PSol, fala sobre a carreira política de Marielle e a situação que ela vivenciava antes de morrer, a confirmação de que sairia candidata a vice na chapa do partido pelo governo do Rio de Janeiro nas eleições de 2018.

O terceiro, As testemunhas que a polícia não viu, é um dos mais importantes, por mostrar que a mídia é que foi atrás das pessoas que estavam presente no Bairro Estácio, onde ocorreu a execução, como um homem em situação de rua e uma mulher que passeava com os filhos naquela noite. A demora no depoimento deles teve impacto nas investigações, levando a direcionamentos errados em torno das circunstâncias do crime.

A partir do quarto capítulo, o livro passa a trazer histórias de criminosos conhecidos do Rio de Janeiro, que acabaram, de alguma forma, tendo os nomes relacionados ao homicídio. A obra ainda aborda como o nome da família Bolsonaro apareceu na investigação, desde os desentendimentos de Marielle com Carlos Bolsonaro na Câmara de Vereadores até o conhecido episódio no condomínio da família, que recebeu a visita de Élcio de Queiroz, um dos suspeitos.

Também há, na parte final, um desenvolvimento sobre a investigação que chegou até Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, hoje presos sob a acusação de matar Marielle Franco e Anderson Gomes. Ao final, o epílogo revela o legado da vereadora morta, que sobrevive nos movimentos e também através dos familiares. Um livro necessário para quem quer entender todos as peças desse quebra-cabeça.

SERVIÇO
Mataram Marielle
De Chico Otavio e Vera Araújo. Editora Intrínseca, 224 páginas. Preço médio: R$ 49,90 (livro impresso) e R$ 29,90 (e-book)

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