Em imagens, livro revisita a tragédia da Barragem de Mariana

Livro 15:30, da fotógrafa mineira Isis Medeiros, registrou várias histórias dos atingidos pelo crime ambiental de 2015 com rompimento da área de rejeitos na mineradora Samarco

Pedro Galvão 29/11/2020 06:00
Isis Medeiros/Divulgação
O livro 15:30 registrou os efeitos dramáticos do crime ambiental de 2015, que abalou a vida de várias comunidades em Minas e no Espírito Santo (foto: Isis Medeiros/Divulgação)
Às 15h30 do dia 5 de novembro de 2015, a barragem de rejeitos de mineração conhecida como Fundão, controlada pela empresa Samarco, se rompeu no município de Mariana, despejando 62 milhões de metros cúbicos de lama tóxica sobre vilarejos, matas, rios, animais e pessoas. Vidas que foram perdidas ou paralisadas numa extensão geográfica que se estendeu pela Bacia do Rio Doce até o litoral capixaba. Algumas delas ainda tentam seguir em frente novamente, com dificuldades, como está registrado no trabalho da fotógrafa mineira Isis Medeiros. Nesta semana, ela lança 15:30, livro produzido por cinco anos, desde o primeiro dia do até então maior crime ambiental da história do Brasil.

“É um livro é fotográfico. Foi um desafio muito grande representar nas imagens o passar do tempo, a dificuldade que essas pessoas estão enfrentando. Tentei trazer isso a partir de uma edição que fizemos para aguçar algo mais sensorial”, explica a autora, que construiu um recorte cronológico que “conta a história do primeiro dia do rompimento até os dias de hoje”, segundo ela.

Além das 71 imagens, escolhidas entre mais de oito mil fotografias feitas em pelo menos 20 localidades atingidas em Minas e no Espírito Santo entre 2015 e 2020, a publicação feita pela editora Tona traz textos da fotógrafa e prefácio escrito pelo filósofo e ambientalista Ailton Krenak. Ele participará de uma live especial de lançamento, junto com Isis, nesta segunda-feira (30), no YouTube.

Isis, que se dedica à fotografia desde 2013, sempre com enfoque sobre temas sociais, explica que o trabalho traz não só um registro, mas olhares sobre o que vem ocorrendo desde o minuto que dá nome ao livro.

“Além de fotografar, procurei perguntar para as pessoas sobre o passar do tempo. As respostas são muito parecidas. A maioria responde que a vida só piorou. Não houve nenhuma ação efetiva com relação à responsabilidade do crime. Por isso, achei importante trazer isso já no título, com esse momento que partiu a vida de tantas pessoas ao meio. A vida delas parou naquela hora, naquele dia”, diz a fotógrafa. Mais do que as fotos, a obra apresenta legendas com histórias e até uma carta em que uma moradora de São Mateus, no Espírito Santo, denuncia a situação de abandono vivida pelas mulheres da região, cinco anos após a tragédia.

INCERTEZA 

Nas 120 páginas do livro estão retratos de pessoas que trazem no semblante o sentimento de perda (houve 19 mortes no rastro de devastação) e incerteza, que ainda é latente. Paisagens naturais devastadas e ruínas, como a de uma escola municipal, também aparecem, contextualizando a dimensão da destruição causada pela atividade da Samarco, em parceria com a Vale e a BHP Billiton.

“Tem um pouco de tudo. Eram muitos arquivos para editar e contar isso. Então, tentei falar um pouco de cada aspecto. Sei que são muitas camadas de entendimento sobre tudo isso, é um problema muito grande, mas tentei ser bem democrática nas escolhas. Tem o viés fotojornalístico, só que mais sensorial. Tentei ser mais sutil, fugir desse hardnews, das imagens muito impactantes. Tive esse cuidado de não agredir ainda mais a população atingida, que ainda sofre muito, porque quero disponibilizar o livro para as comunidades”, argumenta Isis Medeiros.

Isis Medeiros/Divulgação
Foram escolhidas 71 imagens entre 8 mil registros feitos ao longo de cinco anos pela fotógrafa mineira Isis Medeiros (foto: Isis Medeiros/Divulgação)

Humanizar os atingidos, um dos desafios da obra


O passar do tempo a partir do início dos registros, feitos por Isis logo já no dia seguinte à tragédia, ainda em 2015, deu novos entendimentos às imagens. Sobretudo pela sucessão de acontecimentos desde então, que, além do impacto direto na Bacia do Rio Doce, incluem outro crime ambiental de proporções gigantescas de responsabilidade da Vale, em Brumadinho (o rompimento da Barragem de Córrego do Feijão, com 250 mortos, em janeiro de 2019).

“Revisitar as fotos para preparar o livro me trouxe novas perspectivas que não tinha quando as fiz. Revi uma por uma e encontrei imagens que antes não achava tão interessantes assim”, explica a profissional, ressaltando, por exemplo, o simbolismo da imagem que mostra o Pelourinho de Mariana. “A importância que ele tem para a cidade é o quanto ele diz sobre o Brasil colônia e a destruição da memória dessa cidade. É importante resgatar este lugar, porque sabemos que a injustiça continua acontecendo, a escravidão não acabou e a mineração ainda explora a população de forma quase colonial nas cidades. Tento trazer essa imagem”, observa.

A fotógrafa destaca que teve uma aproximação especial com a população atingida durante suas vivências nas localidades afetadas pela lama. “Todas as pessoas que estão no livro foram consultadas, ouvidas, entrei em contato com todas. São imagens que contam suas histórias. Um morador de Bento Rodrigues (distrito de Mariana), por exemplo, se sentiu desconfortável por uma imagem em que seu pai aparecia no túmulo. Muito educadamente, me solicitou que não fosse incluída e não incluí”, revela a autora sobre o processo.

MEMÓRIA 

A perspectiva histórica do trabalho está presente também no prefácio escrito por Ailton Krenak. Em poucos parágrafos, ele traz a memória de sua ancestralidade sobre a “Floresta do Rio Doce”, descrevendo como o lugar “onde os botocudos sempre viveram, antes de os brancos chegarem no Brasil. Ela era uma floresta muito admirada, aqueles viajantes que atravessaram desde o litoral para chegar por aqui nos séculos 17 e 18 diziam que era mais impressionante do que a Mata Atlântica. Era uma floresta que não dava para imaginar que iria acabar, era para sempre”. Ele ainda destaca: “O extrativismo mineral foi crescendo até transformar essa região, que era chamada de ‘Floresta do Rio Doce’, em ‘Vale do Aço’.”

Isis Medeiros se refere a Ailton Krenak como “uma liderança muito forte não só em Minas, mas no Brasil e no mundo, alguém que tem muita legitimidade para falar sobre a exploração da mineração e também da luta história dos povos indígenas”.

Na semana que vem, em nova live, a fotógrafa debaterá o livro com o fotojornalista João Ripper, a ativista do grupo de atingidos da Bacia do Rio Doce Eliane Balke e a jornalista Cristina Serra, autora do livro Tragédia em Mariana: A história do maior desastre ambiental do Brasil.

LIVES
Segunda-feira (30), às 19h, com Ailton Krenak, e 7 de dezembro, às 19h, com João Ripper, Eliane Balke e Cristina Serra. Transmissão no canal da editora Tona no YouTube

15:30
.De Isis Medeiros
.Editora Tona
.71 fotos
.120 páginas
.R$ 40, à venda em www.tonaeditora.com.br




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