Peça sobre biografia de astros do rock se adapta ao formato virtual

'Heróis' realiza temporada com sessões via Zoom a partir desta sexta (20). Autor diz que função da pausa para o protagonista no texto condiz com o contexto da pandemia

Guilherme Augusto* 17/11/2020 04:00
Vitor Vieira/Divulgação
(foto: Vitor Vieira/Divulgação)


Tentar compreender o que se passa na cabeça de um astro do rock não é uma coisa simples. Ainda mais quando ele está no auge da fama e entra em crise, como é o caso do personagem David, protagonista de Heróis, peça idealizada, escrita, dirigida e encenada pelo mineiro Paulo Azevedo, cuja temporada on-line estreia na próxima sexta-feira (20), às 21h.


''Em que momento eu crio?''; ''Por que as pessoas admiram um artista?''; ''Vale a pena ser um herói?'' são algumas das perguntas que David faz a si mesmo - e as endereça também para o público.

''A peça questiona essa necessidade de performar-se como um herói. O texto parte da pausa e do conflito para buscar as repostas. Esse personagem está cansado de se repetir, e essa é uma situação bastante parecida com a pausa obrigatória que o mundo vive. Nada mais contemporâneo do que falar sobre isso'', analisa Paulo Azevedo.

"A peça questiona essa necessidade de performar-se como um herói. O texto parte da pausa e do conflito para buscar as repostas. Esse personagem está cansado de se repetir, e essa é uma situação bastante parecida com a pausa obrigatória que o mundo vive. Nada mais contemporâneo do que falar sobre isso"

Paulo Azevedo, ator, escritor e diretor de Herói


ASTROS 

Escrito em 2014, o texto é inspirado pelas biografias e as músicas de astros do rock das décadas de 1960 e 1970. Como seu nome já sugere, o personagem é inspirado em David Bowie (1947-2016), mas também possui aspectos de Jim Morrison (1943-1971), Lou Reed (1942-2013), Bob Dylan e outros nomes da música inglesa e norte-americana.

''Esses artistas pegaram um momento histórico cheio de paradigmas e acabaram abduzidos pelo mainstream. Isso não era uma intenção deles, que só queriam viver da própria arte e endereçar uma mensagem para o mundo'', avalia o ator e diretor. 

Músicas como Wish you were here, do Pink Floyd; Rocket man, de Elton John; e Smells like teen spirit, interpretada por Patti Smith, fazem parte da peça e desempenham um papel importante na dramaturgia. ''O próprio espetáculo é pensado como um álbum. Além da trilha, duas músicas são cantadas, e as letras traduzidas serão projetadas na tela, para que o público entenda o significado delas para a história'', diz Paulo. 

As cenas foram pensadas como faixas de um álbum, com títulos e minutagem, com as letras das músicas pontuando momentos da narrativa. Alguns dos títulos vieram de nomes de canções de astros do rock que inspiraram o espetáculo.

Heróis, que marcou o surgimento da Suacompanhia, iniciativa de Paulo Azevedo, integra a trilogia Solo, na qual o coletivo investiga a relação entre o teatro e áreas afins, como a música, as artes plásticas e o rádio. Já encenada em diversos palcos Brasil afora e contemplada com o Prêmio Funarte Myrian Muniz, a peça foi ''recriada'' para as apresentações virtuais.

''A principal característica do teatro é a presença. Neste momento em que não é possível fazer uma apresentação com público cara a cara, somos obrigados a buscar soluções, e as transmissões ao vivo são a saída. Isso nos proporciona novos recursos, como pensar o uso da câmera, usar a lente como um lugar de muita intimidade. É possível fazer closes, mostrar detalhes, proporcionar uma melhor qualidade de som. Tudo isso são ganhos para a encenação'', afirma o diretor.

A montagem também é a forma que a companhia encontrou de arrecadar recursos para sua sobrevivência. ''Estamos vivendo um momento de ataques e sucateamento da cultura. É muito importante que a gente consiga reunir esse coletivo e reafirmar a nossa atuação,'

Heróis ficará em cartaz até o próximo dia 13 de dezembro e será encenada às sextas, aos sábados e aos domingos. Após as sessões dominicais – nos dias 22 e 29 de novembro, e 6 e 13 de dezembro –, a Sucompaanhia promove, em parceria com o podcast Almasculina, uma conversa com um convidado especial, sobre temas relacionados ao espetáculo. Entre os confirmados estão o escritor e dramaturgo Marcelino Freire e o ator Paulo André, do Grupo Galpão. 

HERÓIS

Texto, direção e atuação de Paulo Azevedo. Estreia nesta sexta (20). Apresentações às sextas e sábados, às 21h, e aos domingos, às 17h, via plataforma Zoom.  Até 13/12. Ingressos a partir de R$ 10. Vendas pelo Sympla.

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