Livro da mineira Ana Vargas é semifinalista do Oceanos de Literatura

Contos de antes fala sobre medos e incertezas da adolescência e foi um dos escolhidos entre 1.872 livros de vários países

Fernanda Gomes* 16/11/2020 04:00
Danielli Vargas/Divulgação
Ana Vargas fala sobre medos e incertezas da adolescência e sua obra é uma das escolhidas entre 1.872 livros de vários países (foto: Danielli Vargas/Divulgação)
As dúvidas, medos e incertezas da adolescência são tema do livro Contos de antes, escrito pela jornalista mineira Ana Vargas, de 52 anos, e publicado pela editora Patuá. “Parece uma coisa óbvia, mas eu quis falar dessa fase, esse período entre infância e adolescência, em que ficamos meio sem saber o que fazer da vida”, explica a escritora.
A obra é semifinalista do Prêmio Oceanos de Literatura 2020 e concorreu com outros 1.872 livros, publicados na Angola, Brasil, Cabo Verde, Canadá, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Letônia, Moçambique e Portugal. Entre os 54 livros eleitos para a semifinal, apenas cinco são de contos.

O vencedor do prêmio, que busca eleger o melhor livro do ano em língua portuguesa, está previsto para ser divulgado em dezembro. “Já me considero uma vitoriosa, porque para mim foi um presente e tanto. Só de saber que aquelas pessoas tão preparadas pegaram um livro meu e acharam que ele deveria estar entre os 54... Foi uma surpresa”, comemora Ana. O primeiro colocado receberá R$ 120 mil.

Contos de antes é o primeiro livro ficcional escrito pela mineira, que levou cerca de oito anos para finalizá-lo. A obra abriga 15 contos ficcionais. “Tem algumas coisas que vivi de fato. Claro que recobri com camadas de ficção, mas são coisas que vivenciei ou que alguém perto de mim vivenciou”, revela.

No livro, ela descreve esse período dos 12 aos 20 e poucos anos, como a ‘madrugada do tempo’. “Foi uma coisa que surgiu (o termo), não tem uma coisa racional, foi na base da emoção. Acho que a adolescência é uma fase em que ficamos muito à deriva na vida: você não é criança, não é adulta, mas ainda não é jovem. Você fica muito ‘nem lá nem cá'”.

Para a escritora, uma das coisas mais complicadas na adolescência é achar que se deve ter a certeza sobre todas as escolhas. “Cresci no meio de gente muito certinha. Cresci com aquela percepção que todo mundo sabe o que está fazendo, mas não é nada disso. Cada um vai tentando fazer o que é possível, dentro do que pode fazer. Você envelhece e aí as coisas vão ficando indefinidas do mesmo jeito. Mas as pessoas continuam tendo essa ilusão”, conta a escritora. “Não importa a idade que você tem, tentar fazer as coisas da melhor maneira possível já é um ganho”, acrescenta;

INSPIRAÇÃO EM DRUMMOND 

Ana nasceu e cresceu na cidade de Dores do Indaiá, no Centro-Oeste de Minas. No final da década de 1980, se mudou com a família para São Paulo e lá perseguiu o sonho de se formar em jornalismo. Enquanto crescia, estudou em um colégio para freiras, onde convivia diariamente com muitas regras de conduta. “Não tenho boas lembranças do colégio católico. Teve coisas boas, é claro. Mas era nos anos 1970, em plena ditadura, muita pressão, ambiente opressor”, lembra.

Alguns desses dissabores foram abordados nos contos por Ana, que sentiu a necessidade de cobri-los com poesia. “Aquelas cidades do interior de Minas, que têm muito fazendeiro, têm essa separação de classe, que é algo muito forte. ‘De quem você é filho?’ Essas coisas que são meio bobas, mas quando se é criança tem um peso grande”, exemplifica.

Ela conta que um dos contos que mais gosta se chama Paisagens líricas, inspirado no texto A máquina do mundo, de Carlos Drummond de Andrade. “Inventei uma história de uma pessoa que vai caminhando em um lugar como se fosse o cerrado. Como se fosse eu, andando e meio que envelhecendo. É o conto mais forte, que tem mais haver com minhas fases da vida e com o que sou hoje”.

* Estagiária sob supervisão da subeditora Tetê Monteiro
None

Contos de antes
Ana Vargas
Editora Patuá
Preço: R$ 40 

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS