Joyce conta em livro casos saborosos da MPB

Em 'Aquelas coisas todas', cantora, compositora e instrumentista revisita suas memórias da convivência com grandes nomes da música brasileira

Augusto Pio 14/11/2020 04:00
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Cantora, compositora e instrumentista, Joyce diz que acredita na possibilidade de tratar de assuntos sérios de forma leve, na literatura e na música, para não "oprimir quem está lendo ou ouvindo"
Manifestações contra a ditadura, viagens, festivais, movimentos musicais nascentes, como a bossa nova e a Tropicália, desentendimentos e confusões entre artistas que acabariam entrando para a história. Quando algo assim acontecia, Joyce Moreno estava lá. 

A cantora e compositora diz não saber se há algum estranho magnetismo que a atrai para esses momentos importantes ou se isso é assim com todos. A diferença é que ela gosta de contar o que viu e ouviu, convivendo com outros grandes artistas.

Fotografei você na minha Rolleiflex, lançado em 1997 pela Multiletras, foi a primeira experiência de Joyce como cronista das próprias memórias. Um exercício que ela atualizou e ampliou em Aquelas coisas todas (Numa Editora), que chega agora ao mercado.

Joyce diz que o primeiro livro “nasceu, fez algum barulho, teve sua única edição esgotada e ficou guardado na memória e nos sebos”. Com o passar do tempo, ela começou a ouvir sugestões de uma reedição por parte daqueles “que apenas tinham ouvido falar, pelas gerações mais novas que não conheciam ou mesmo por aqueles que tinham gostado e pediam bis”.

Sua ideia inicial era fazer uma edição revista do volume. “Seria uma espécie de remix do original, o que acabei fazendo. Porém, tantas outras histórias vinham me assombrando, tantos acontecimentos e novas questões a debater, que não houve como não fazer uma segunda parte”. 

A segunda parte de Aquelas coisas todas se baseia na ideia de Joyce de que a MPB tem resposta para tudo. Uma ideia talvez relacionada ao contexto cultural efervescente de sua juventude. “É um privilégio fazer parte dessa geração de Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Elis Regina, João Gilberto, Torquato Neto, Gonzaguinha, Macalé, Gal, MPB4, Edu Lobo, Marcos Valle, Francis Hime, Novelli, João Donato, Bituca e Toninho Horta, entre tantos outros”, ela diz.
Roberto Somló/Acervo Chico Buarque
Joyce e Chico Buarque no Rio de Janeiro, em 1967, quando ela começava sua carreira na música e também fazia estágio no Jornal do Brasil (foto: Roberto Somló/Acervo Chico Buarque)
 

LONGO CAMINHO 

Intitulada Tudo é uma canção, a segunda parte traz saborosas histórias e memórias carinhosas do convívio com esses personagens. “Assim, as duas partes se completam num só livro. Aquelas coisas todas, tantos anos passados e um longo caminho ainda a percorrer.”

Para isso, ela confia em sua capacidade de lembrar. “Memória é fogo. A minha é bem boa, modéstia à parte. Meu HD mental funciona direitinho, movido a água e exercícios constantes, sem precisar de ajuda externa. Seminovo, praticamente. Única dona. Peças originais de fábrica.”

Quanto ao texto, ela opta por uma escrita leve e divertida, de acordo com sua convicção de que se pode contar histórias sérias sem a necessidade de pesar a mão. 

“Penso isso com relação à música também. Aliás, faço isso na música e na escrita, nas duas formas. Na verdade, é uma maneira de se passar uma coisa, sem precisar oprimir quem está lendo ou ouvindo.”

No início da carreira, quando tinha 19 anos – “Na época, era assim mesmo com todos. Era natural começar a trabalhar cedo”, observa –, ela se dividiu entre a música e o jornalismo. Trabalhava como estagiária no Caderno B do Jornal do Brasil, no mesmo ano em que participou do 2º Festival Internacional da Canção com a música Me disseram. Era 1967. 

Antes disso, aos 15, Joyce já havia gravado para um projeto do músico e produtor mineiro Pacífico Mascarenhas. Sambacana foi produzido por Roberto Menescal e lançado em 1964. “Na verdade, ao contrário do que muitos pensam, o grupo Sambacana não existia naquela época. Se não me engano, foi criado posteriormente por Pacífico. Menescal me convidou para participar desse álbum, que foi uma produção independente, pioneira. Quem bancou a produção toda foi o próprio Pacífico”, conta.

Para ela foi uma experiência interessante. “A primeira vez dentro de um estúdio. E ficar sabendo como tudo funcionava era tudo que eu queria. Mas não cheguei a ter uma passagem por Minas. O LP foi todo gravado no Rio de Janeiro. Fui apenas cantar o repertório desse álbum autoral do Pacífico nessa gravação. Mas confesso que tenho um carinho muito grande pelos mineiros. Fiz grandes amigos, como Bituca e Toninho Horta, entre tantos outros, que conheci, mas tudo no Rio de Janeiro.”

Joyce foi casada com o músico mineiro Nelson Ângelo, um dos mentores do Clube da Esquina, com quem teve as filhas Ana e Clara, hoje cantoras. O fato de ser mãe lhe inspirou a canção Clareana, que ela escreveu em homenagem às filhas e foi classificada no Festival de Música Popular Brasileira da TV Globo, em 1980. 

“Minha ligação com os mineiros ainda continua forte. Recentemente, minha filha Ana Martins gravou um disco que saiu no Japão pela gravadora Rip Curi, no qual canta Amor certinho, que é do compositor Roberto Guimarães”, conta. Essa canção também foi gravada por João Gilberto no disco O amor, o sorriso e a flor (Odeon), lançado em 1960.

Joyce não tem certeza se continuará escrevendo suas histórias. “Escrever é algo que demanda tempo e concentração, então, daqui para a frente, não sei realmente. Tinha pouco tempo para isso (escrever), pois estava ocupada com as turnês o tempo todo, muitas viagens dentro e fora do Brasil. Mas se essa situação que a gente está vivendo agora se prolongar, é provável que eu escreva outros livros.”
Arquivo pessoal
Joyce com Bituca, uma das amizades com mineiros que ela desenvolveu no Rio de Janeiro (foto: Arquivo pessoal )
 

PARCERIAS 

Por enquanto, ela tem aproveitado o recolhimento imposto pela pandemia do novo coronavírus para compor. “Basicamente, estou compondo muito por pressão dos parceiros. Normalmente, componho muito mais sozinha do que com eles. As parcerias são meio esporádicas, mas está todo mundo nesse frenesi de composição. Então, nesta quarentena já surgiram muitas músicas novas com parceiros que começaram a mandar coisas para mim. Tenho novas parcerias com Jards Macalé, Moacyr Luz e Zé Renato, entre outros.”

Ela conta que também fez uma música a seis mãos com Marcos Valle e Ivan Lins, que fizeram a melodia para uma letra dela. “Enfim, tem um monte de coisas novas agora, surgindo nessa área mais da composição. Penso em, mais para a frente, reunir essas parcerias em um disco. Estou, na verdade, com um problema de excesso de músicas. Isso porque, antes de começar a quarentena, já tinha muito material inédito.”

Entre suas parcerias, há “uma novidade total, com o Emicida”, diz. “Essas parcerias vão aparecendo e aumentando a pilha das canções recentes. E aí, em algum momento, isso terá que sair, com certeza. Tenho outra com Moraes Moreira, que acho que foi uma das últimas coisas que ele fez antes de morrer (em abril passado, aos 72 anos, de infarto).”

Ela conta ainda que já gravou a canção feita com Moraes ao lado de seu filho, Davi Moraes, que prepara um EP. “Essa nossa gravação faz parte desse disco, mas acho que ainda não saiu, estou aguardando. Enfim, projetos não faltam e agora é esperar que a coisa se acalme, porque este momento da pandemia, fatalmente, passará e quero estar pronta para isso quando acontecer. Pode ser que demore, mas vamos aguardando com calma.”

Quanto ao jornalismo, Joyce afirma ser  uma paixão mal resolvida em sua vida. “Uma paixão que foi abandonada quando eu tinha 19 anos. Foi quando saí do meu estágio no Jornal do Brasil e fui contratada por uma gravadora. Mas depois, quando o primeiro livro saiu, tive uma passagem pelo jornal O Dia, quando me deram uma coluna para escrever e fiquei lá por dois anos. Foi uma experiência muito legal.”
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Aquelas coisas todas
Joyce Moreno
Numa Editora (346 págs.)
R$ 59


CHEIA DE GRAÇA
Confira momentos hilários que Joyce Moreno rememora em seu novo livro: 
 
» Tom Jobim apresentando a Carlinhos Lyra o letrista americano Norman Gimbell: 
“Carlinhos, este aqui é o Norman Bengell”.
 
» Paulinho Jobim, no Japão: 
“Tô com uma preguiça de ter vindo…”.
 
» Toninho Horta, em Nova York, enfrentando seu primeiro inverno: 
“Isso aqui tá mais frio do que Barbacena!”
 
» Novelli, nos anos 1970, invocado com certo crítico musical: 
“Esse cara não sabe a diferença entre uma semicolcheia e uma lacraia!”
 
» Carlos Lyra, em momento de mau humor: 
“A diferença entre uma cantora e um terrorista é que com o terrorista tem negociação…”.
 
» Elis Regina, para a plateia, ao demitir a banda em cena aberta, sem aviso prévio ou negociação possível: 
“Vamos aplaudir esses músicos maravilhosos, porque hoje é a última vez que eles tocam comigo”.

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