Exposição em BH reúne a essência da arte de Amilcar de Castro

Mostra exibirá esculturas, telas, gravuras e trabalhos nunca vistos pelo público, a partir de amanhã, no Centro Cultural do Minas Tênis Clube. Livro de poemas será lançado no dia 28.

Mariana Peixoto 11/11/2020 04:00
Bernadete Neri/divulgação
Amilcar de Castro foi um dos destaques do neoconcretismo brasileiro (foto: Bernadete Neri/divulgação )
“Escultura/ é a descoberta da forma/ do silêncio/ onde a luz guarda a sombra/ e/ comove”, escreveu Amilcar de Castro (1920-2002). Artista que se dedicou à escultura, gravura, desenhos (nunca pintura!) e também à poesia (de forma diletante), ele tem seu centenário de nascimento celebrado em nova exposição.

Com abertura nesta quinta-feira (12), na galeria do Centro Cultural Minas Tênis Clube, Amilcar de Castro – Matéria e luz, com curadoria de Rodrigo de Castro, o primogênito de seus três filhos, reúne meia centena de obras, algumas delas nunca expostas ao público.

Todas – esculturas em aço, madeira e vidro, telas, gravuras e trabalhos em eucatex – integram o acervo do Instituto Amilcar de Castro, criado dois anos após a morte do artista.

Transferida do primeiro semestre para este mês (o centenário do artista foi em 8 de junho) em decorrência da pandemia, a mostra terá um braço virtual. Websérie com sete episódios, disponibilizados semanalmente nos canais digitais do Minas Tênis Clube (MTC), apresenta a trajetória do artista e faz um passeio pela mostra, com os diferentes suportes em que ele trabalhou. Há depoimentos de Manfredo de Souzanetto, Vanda Klabin e Marília Razuk.

A exposição é patrocinada pelo Instituto Unimed-BH, cuja parceria com o MTC vai viabilizar outras mostras de artistas mineiros, além da criação de nova biblioteca para o centro cultural.

ACERVO 

Nome essencial do neoconcretismo, Amilcar produziu muito até o fim da vida. O acervo do instituto, localizado no último ateliê do artista, em Nova Lima, reúne algo em torno de 300 telas e 150 esculturas, além de gravuras e trabalhos em papel.

“O norte da minha curadoria foi mostrar a essência do trabalho criativo do artista em suas diversas maneiras de se expressar”, comenta Rodrigo de Castro.

O curador destaca obras inéditas para o público, caso da tela de oito metros que nunca havia saído do ateliê. De maneira geral, Amilcar de Castro não nomeava suas criações. Mas a mostra destaca, entre as esculturas, a peça apelidada Estrela, de dois metros – o trabalho escultórico de grande porte do mineiro, com seus famosos cortes e dobras, é reconhecido no espaço público tanto de BH quanto de outras cidades.

Artista plástico – “No começo foi difícil, pois há uma espécie de barreira psicológica em que você se compara com seu pai, mas hoje não há o menor problema, tanto que estou fazendo esculturas, algo que nunca achei que faria” –, Rodrigo de Castro assinou a curadoria de outras mostras dedicadas à obra de Amilcar. Além da exposição em BH, é o curador da exposição, com previsão de abertura para dezembro, no Museu Brasileiro de Escultura e Ecologia de São Paulo (Mube).

Um dos objetivos do Instituto Amilcar de Castro – que não conta com estrutura para receber o grande público, mas pode ser visitado via agendamento – é organizar o extenso legado do artista. “Já catalogamos cerca de 4 mil obras, contando as que estão lá e as de terceiros. O próximo passo é pegar todo o material e elaborar um catálogo raisoneé”, acrescenta Rodrigo.

POESIA E PROSA 

Outro viés do artista virá a público no ano de seu centenário. Desde jovem, Amilcar escreveu poesia. O material começou a surgir a partir dos anos 1970, primeiramente na imprensa (publicou poemas no Estado de Minas) e, mais tarde, em revistas especializadas e nos próprios livros dedicados à sua obra.

Com lançamento em 28 deste mês, a partir das 12h, na Livraria da Rua (Rua Antônio de Albuquerque, 913, Savassi), Amilcar de Castro – Poesias reúne farto material escrito pelo artista plástico, a maior parte dele inédito.

Projeto encabeçado por Ana de Castro, a filha do meio de Amilcar e Dorcília (também pais de Pedro), o livro nasceu a partir da morte da mãe. “Quando ela faleceu, fui organizar o escritório do meu pai e achei cadernos. Quando comecei a ler, fiquei muito tomada, emocionada, e vi que tinha que sair um livro daquele material”, ela diz.

Amilcar e Dorcília ficaram casados por mais de 50 anos. “Ele era um homem espetacular e uma coisa que jamais fez foi almoçar fora de casa. Estivesse onde estivesse, a hora do almoço era com minha mãe, no Sion. Uma parceria de vida, tanto que ela sofreu muito com a perda dele. Foi ficando triste e desanimada”, revela Rodrigo. Dorcília morreu três anos após o marido.

Uma novidade do livro são textos em prosa, nunca levados a público. Ferreira Gullar (1930-2016), autor do Manifesto neoconcreto (1959), do qual Amilcar foi um dos signatários, assina a introdução. Foi ele quem indicou o poeta carioca Augusto Sérgio Bastos para organizar a cronologia dos textos. O projeto gráfico é de Lúcia Nemer.

AMILCAR DE CASTRO – MATÉRIA E LUZ

Exposição comemorativa do centenário do artista. Abertura amanhã (12), no Centro Cultural Minas Tênis Clube – Rua da Bahia, 2.244, Lourdes. Visitação de terça a domingo (inclusive feriados), das 13h às 19h. Capacidade: 30 pessoas. Até 24 de janeiro.

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