Frei Betto lança livro com relatos, confissões e reflexões sobre a quarentena

Sacerdote dá sua perspectiva sobre o período imposto pelo isolamento social devido à pandemia da COVID-19 e outros momentos históricos

Mariana Peixoto 15/10/2020 04:00
JOÃO LAET/DIVULGAÇÃO
Em seu novo livro, o 69º que publica, Frei Betto relembra sua amizade com Tancredo Neves. Autor participa hoje do Sempre um Papo, em edição virtual (foto: JOÃO LAET/DIVULGAÇÃO)

Alice e Paulo ficaram casados por mais de 20 anos. Ele, engenheiro de produção; ela, professora de inglês. Não tiveram filhos. A COVID-19 os separou. Em 18 de abril passado, Paulo, hipertenso, sucumbiu ao vírus, que já matou mais de 150 mil brasileiros. Um mês antes, aflito por ser obrigado a ficar fechado em casa, ele havia conversado com o amigo Frei Betto pelo telefone. “Você sempre soube que não sou de ler. Nem mesmo os livros com que você me presenteia.” 

No dia seguinte a essa conversa, 23 de março, Frei Betto escreveu em seu diário um texto dirigido a Paulo, com 10 dicas sobre como suportar melhor a reclusão. Ainda que naquele período a quarentena estivesse apenas no começo, o frade dominicano, escritor e cronista já dominava o assunto. Ele foi preso pela ditadura militar e ficou encarcerado durante quatro anos (1969 a 1973). Desse período resultou seu primeiro livro, Cartas na prisão.

Quarenta e seis anos e 67 livros depois, Frei Betto volta a escrever sobre reclusão. Desta vez, como ele mesmo diz, com a “chave do lado de dentro do cárcere”. Diário de quarentena – 90 dias em fragmentos evocativos (Rocco), que começa a chegar nesta quinta (15) às livrarias, acompanha três meses (de 18 de março a 16 de junho) da pandemia do novo coronavírus. Também nesta quinta, às 18h, o autor promove o lançamento da obra em edição virtual do projeto Sempre um Papo.

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O livro não é um diário convencional. Há, aqui e ali, relatos factuais, como o supracitado suplício do casal de amigos, e os grandes marcos da peste – o número de mortos crescentes no país. Mas na maior parte da narrativa, Frei Betto evita a primeira pessoa, própria dos diários, e escreve sobre assuntos diversos que lhe são caros. Religião, política, sociedade, muitas vezes vistas sob o viés da memória.

Há dias que tem apenas uma frase; outros, páginas e páginas. Em 13 de abril, por exemplo, ele dá início a um extenso relato sobre a morte de Tancredo Neves (1910-1985), ocorrida também em um mês de abril, mas 35 anos atrás. 

Muito próximo dos Neves, Frei Betto acompanhou, sempre ao lado dos familiares, doença, morte e sepultamento do presidente eleito. “Doutor Tancredo segurou a minha mão e, emocionado, chorou enquanto eu terminava a prece de louvor pela recuperação dele”, escreve o autor sobre fato ocorrido em 3 de abril de 1985.

Frei Betto decidiu que o seu diário cobriria apenas três meses da quarentena (estamos nos aproximando do sétimo) para que o livro saísse ainda durante o período em que se demandam todos cuidados para a erradicação da epidemia. “Busquei nisso um recurso terapêutico. Diário de quarentena é uma janela que abri em minha subjetividade e em minha memória”, afirma o autor na entrevista a seguir.

O senhor começou o diário já pensando em uma futura publicação ou ele foi tomando forma ao longo do tempo?
Já pensava em publicação, mas fugi do diário tradicional, no qual o personagem principal é sempre o autor. Por isso utilizei vários gêneros literários, de ficção a ensaio, de artigo jornalístico a textos espirituais. Busquei nisso um recurso terapêutico, como minhas Cartas da prisão (Companhia das Letras), que, aliás, não foram escritas para ser publicadas, e sim para organizar meu caos interior sob a opressão da ditadura militar. Diário de quarentena é uma janela que abri em minha subjetividade e em minha memória.

No início, o senhor fala do cansaço das viagens (“uma a cada três dias”) e de aproveitar o momento de reclusão para se dedicar a tarefas que havia deixado de lado, justamente por estar sempre fora. Uma reclusão forçada ajuda na escrita?
Sim, a maioria dos autores que conheço precisa de reclusão para criar. Este é meu 69º livro. E quase todos são frutos de tempos de reclusão. Reservo 120 dias do ano para escrever. Costume que mantenho faz 33 anos.

Cinco décadas passadas desde o período em que o senhor ficou preso, que analogias consegue fazer com a quarentena atual?
Como registro no Diário, a diferença é que, agora, a chave fica do lado de dentro do cárcere... Na prisão, ela está sempre do lado de fora. E estar preso voluntariamente é um luxo, pois disponho de TV, cozinha, biblioteca etc. A única semelhança com a prisão é a falta de mobilidade (isso para quem respeita a quarentena). Há outro fator que me recordo de meus quatro anos de prisão: fiquei dois anos sem a menor noção de quanto tempo ficaria ali, pois só fui julgado dois anos depois de preso. E, hoje, ninguém sabe quando essa pandemia vai, de fato, cessar.

“Mineiro desconfiado”, como o senhor se define, acredita que este período sombrio possa trazer mudanças positivas?
Não sou muito otimista, pois vejo o descaso do nosso governo com a maioria de nosso povo, que não pode se dar ao luxo de ficar em quarentena, precisa sair à rua para sobreviver, enfrentar aglomerações em ônibus e metrôs etc. Fosse um governo de fato preocupado com as pessoas, faria o que se faz na Europa, onde os salários dos que precisam ficar em casa são complementados pelos governos. Por outro lado, vejo crescer a xenofobia e o autoritarismo, o que não me deixa esperançoso de que a humanidade haverá de tirar boas e grandes lições dessa pandemia. Apesar de tudo, guardo o axioma: vamos deixar o pessimismo para dias melhores!.

Como o senhor analisa o período atual, da flexibilização? Aliás, o senhor permanece recluso?
Permaneço recluso e só saio à rua em caso de extrema necessidade. Aos 76 anos, embora sem doenças preexistentes, sou vulnerável. E a reclusão é minha opção de vida, embora eu não seja um monge enclausurado. Considero prematura a flexibilização. E o modo como nossos governos (municipal, estadual e federal) são indiferentes a quem circula sem máscara, promove aglomerações etc. Pena que os relapsos não sejam multados, como acontece na Itália.

De que maneira poderemos sair mais fortes deste período?
Primeiro, preservando a saúde, física, mental e espiritual. A física, pela reclusão (pra quem pode...) e/ou excessivos cuidados. A mental, pelas 10 dicas que aponto no livro, dicas de como suportar a reclusão, como leituras, jogos, artesanato etc. E a espiritual, pela meditação e oração.

O senhor cita vários autores e livros no diário. Qual a leitura que mais o confortou nesse período?
Leituras que contextualizam como foi redigido o evangelho de Marcos, o primeiro dos quatro. Isso me fez mergulhar no Império Romano, no judaísmo e na cultura da Palestina do século 1, na visão de Jesus como militante político.

O que espera do Brasil, e dos nossos governantes – já que estamos à beira de uma eleição municipal –, pós-pandemia?
Espero que tomem vergonha na cara, aprovem uma reforma tributária progressiva (quem ganha mais, paga mais), reduzam os salários dos marajás, aprimorem a democracia e façam cessar o genocídio (mais de 150 mil mortos por descaso do governo federal) e o ecocídio (a devastação de nossos melhores biomas).

DIÁRIO DE QUARENTENA
>> Frei Betto
>> Rocco (224 págs.)
>> R$ 49,90 e R$ 29,90 (e-book)
>> Nesta quinta (15), às 18h, o autor participa do Sempre um Papo, transmitido pelos canais do projeto no YouTube, Instagram e Facebook

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