Artistas intensificam produção cultural na pandemia

Isolamento social imposto pela COVID-19 levou artistas plásticos e poetas a ampliar o processo criativo

Estado de Minas 11/10/2020 04:00
Arquivo pessoal
Durante a pandemia, o artista plástico Mário Azevedo produziu mais de 100 obras, a maioria desenhos em aquarela (foto: Arquivo pessoal)
É inegável que a pandemia do novo coronavírus trouxe danos imensos ao setor cultural. Escutamos ao longo de toda a quarentena relatos de artistas sofrendo com a ausência dos palcos e a distância dos fãs. A dificuldade de acesso à renda foi trágica na carreira de diversos cineastas, atores, dramaturgos, músicos e cantores. Por outro lado, atividades artísticas que não dependem tanto do público conseguiram tirar proveito da situação. Artistas plásticos e poetas descrevem como o processo de isolamento social foi proveitoso para a produção artística e o reabastecimento cultural.

“O fato da gente ter sido obrigado a fazer esse retiro, vamos dizer assim, não foi tão perturbador. Eu produzi muito. Para nós que temos esse trabalho mais recolhido num certo gabinete individual, a gente não sofreu tanto com a reclusão assim”, afirma Mário Azevedo, de 63 anos, artista plástico belo-horizontino e ex-professor do Departamento de Artes Plásticas da UFMG. Segundo ele, a produção artística durante a pandemia de COVID-19 trouxe certo conforto para superar o momento. “Foi mais fácil pra gente porque a criação também nos dá uma alegria. Foi uma energia produtiva que me poupou de muito sofrimento”, acrescenta.

Em mais de 40 anos de carreira, foram raras as oportunidades que Mário teve de mergulhar tão profundamente na arte. Recolhido em seu sítio, localizado em São Brás do Suaçuí (MG), durante a pandemia, o artista produziu mais de 100 trabalhos, sendo a maioria deles desenhos em aquarela. “Teve obras que fiz em uma hora e teve outros que demoraram cerca de 15 dias. Isso também é um prazer, ter tempo de maturar o trabalho”, esclarece. Segundo ele, a solidão envolvida no processo foi fundamental para a produção. “O trabalho de artes plásticas é muito solitário, a gente precisa da solidão para criar. Foi esse momento que ganhou muito valor pra mim. Além de segurar minha cabeça, foi de fato produtivo”, aponta.

Além de intensificar a produção artística, Mário teve a oportunidade de revisitar e organizar antigos trabalhos artísticos. O processo culminou na elaboração do seu novo website (marioazevedo.com) e inspirou novas produções. “O próprio fato de organizar o trabalho do passado me deu um pontapé para algumas coisas serem retomadas. Eu revi um tanto de obra e comecei a perceber que alguns elementos estavam sempre presentes por baixo das imagens”, descreve. Sua ligação com as paisagens e o interesse por trabalhos no papel (em vez da tela) foram algumas das descobertas que influenciaram novas obras.

Depois de mais seis meses de pandemia, o processo continua em andamento e Mário Azevedo pretende elaborar uma série com os trabalhos produzidos durante esse período até o fim do ano. “A gente teve que lidar com uma consciência muito intensa do trabalho. Isso eu gostei, achei que foi um presente de certa forma. A gente teve força, pelo menos, para atravessar a fase mais negra da quarentena e chegar até aqui. E isso graças à arte”, conclui.
João Vargas/divulgação
Júnia Penna revisitou sua escultura Compartimento, que reflete a redução do espaço habitacional nos grandes centros urbanos (foto: João Vargas/divulgação)

PROCESSO CRIATIVO

Júnia Penna, artista plástica e professora Escola Guignard, também experimentou um maior contato com o processo criativo durante a quarentena, em Belo Horizonte. Logo em março, ela organizou uma rotina de trabalho para aproveitar o momento e o ambiente doméstico foi invadido por vários trabalhos em andamento. As paredes do seu apartamento foram ocupadas por desenhos em desenvolvimento, registros de pensamentos e referências de imagens. “É um processo doloroso, então, essa imersão foi muito positiva para me manter em pé. Ficar envolvida com trabalho, me ajudou a enfrentar esse período tenebroso”, destaca. A partir disso, Júnia foi dando novos rumos a suas produções e encerrando outras.

Como integrante do Núcleo de Estudos e Ensino em Desenho Contemporâneo (Nedec), a artista participava de uma dinâmica de produção semanal baseada em uma palavra lançada no Instagram (@nedec_desenho), além de encontros virtuais com os colegas. A angústia de estar vivendo no contexto de uma pandemia influenciou uma série de desenhos dialogando com a média de mil mortos por dia no Brasil. Nas obras, feitas com pastel preto e branco em papel japonês, Júnia inseriu números de 1 a 1.000 por meio de uma ação gestual veloz. Na medida em que as mortes iam aumentando, mais números iam sendo sobrepostos gerando massas gráficas escuras e indefinidas.

A artista também aproveitou o momento para iniciar a transformação da sua escultura Compartimento, elaborada em 2006, que reflete a redução do espaço habitacional nos grandes centros urbanos. Na galeria Manoel Macedo, Júnia utilizou uma motosserra para remontar o trabalho, que tinha uma vida útil limitada em função da madeira utilizada. “Precisei de muito tempo e consegui ter força porque é um trabalho muito pesado e envolve muita gente na montagem. Talvez, a grande conclusão dessa pandemia seja essa energia”, revela.

A ação foi registrada em vídeo no qual a modificação constante da cidade decorrente dos interesses da especulação imobiliária é sugerida através do processo de cortar a escultura até ficar em ruínas. “Com certeza, eu quero mostrar essa produção, que ainda não está pronta. Esse filme vai demorar um ano para ser concluído ou mais. Vai envolver outros processos, como a captura de novas imagens. Estou sem pressa”, explica.

Entretanto, a pandemia de COVID-19 não foi proveitosa somente para a produção artística. “A quarentena pra mim não foi de criação, mas de abastecimento cultural que faz parte do processo do artista e, principalmente, do escritor”, aponta o poeta e jornalista mineiro Carlos Ávila, autor dos livros Aqui & agora (1981), Sinal de menos (1989), Bissexto sentido (1999), Área de risco (2012) e Anexo de ecos (2017).

Segundo Carlos Ávila, o isolamento social foi proveitoso para se dedicar a vários romances, poesias e ensaios que estavam em sua prateleira há muito tempo e que, finalmente, teve a oportunidade de se dedicar. “Os livros foram o grande antídoto dessa pandemia pra mim. Acho que ficaria louco se não pudesse ler, essa é a verdade”, explica o autor, de 65 anos.

Às avessas, de Huysmans, Bouvard e Pécuchet, de Flaubert, O tempo, de Stephen Spender, e O náufrago, de Thomas Bernhard, foram algumas leituras que marcaram sua quarentena. O escritor também aproveitou o tempo livre para reler alguns poemas de Carlos Drummond de Andrade e Jorge de Lima. “Pra mim, esse período foi muito produtivo e me abasteceu artisticamente. Para o escritor, a leitura é um alimentador do processo. Isso que eu gostei. Estou me sentido bem com as leituras que fiz”, alega.

Carlos utiliza a frase do autor argentino Jorge Luis Borges ("Que outros se gabem das páginas que escreveram; eu me orgulho das que li") para explicar a importância do seu hábito constante de leitura neste momento tão devastador. Segundo ele, o processo de poesia é lento e as leituras fazem parte do ócio criativo. “O escritor tem que ler muito, se informar e estudar. Estou me sentindo muito bem por ter acumulado esse combustível e recarregado as baterias. Acho que daqui pra frente, como as coisas já estão melhorando, pode ser que eu volte a escrever. Já estou começando a sentir alguma melhora no sentido de pensar mais na criação”, aponta.
João Vargas/divulgação
A angústia desse momento influenciou uma série de desenhos de Júnia Penna, como esse Mil mortos, referência à média diária de mortos pela epidemia no Brasil (foto: João Vargas/divulgação)

NA ACADEMIA 
O processo de reclusão social também contribuiu para o desenvolvimento de pesquisas acadêmicas com temas artísticos. “O trabalho criativo atravessa o que eu faço, mas nesse período da pandemia, especificamente pra mim, teve uma importância fundamental, sobretudo, no processo de finalização do meu doutorado que fiz sobre poesia e design”, explica o poeta e designer gráfico Júlio Abreu, autor dos livros Jogo das horas (2015) e o fotolivro Dentro da faixa (2017).

Segundo ele, o fato de ficar em casa possibilitou um mergulho muito maior do que em outros tempos. “Acho que acelerou esse processo de finalização. Sem ela, essa conclusão teria sido muito difícil. Apesar da pandemia, eu agradeço um pouco a minha quarentena. Foi muito favorável no meu caso essa reclusão”, explica o poeta, de 47 anos.

A tese A sintaxe visual na poesia de Augusto de Campos: uma leitura estrutura, produzida no Departamento de Pós-Graduação em Estudos de Linguagem do Cefet-MG, foi apresentada por Júlio de Abreu no mês de agosto. Segundo ele, a intensificação do processo criativo na quarentena atravessa seu doutorado. “Era uma tese sobre poesia e design, então, acaba tendo uma escrita mais técnica e teórica, mas também tem uma criatividade que acaba atravessando isso. Acho que não teria concluído sem a quarentena”, justifica. O poeta afirma que a demanda impulsionou sua dedicação na quarentena, mas, se não fosse a pesquisa, o mergulho seria em outra atividade artística.

O silêncio presente na cidade e a calma dentro de casa foram pontos que contribuíram com a conclusão da tese e influenciou Júlio a escrever um poema, denominado Desse carnaval. “Eu falava: não tem uma semana no ano que a gente para tudo e faz um carnaval? A gente devia constituir também uma data não para ir pra rua, mas pra ficar em casa, no silêncio da gente”, explica. Júlio de Abreu, agora, encontra-se no prelo do livro de poemas visuais Música e deve utilizar as recomendações de isolamento social ao seu favor.

*Estagiário sob supervisão da editora Teresa Caram


MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS