Ana Frango Elétrico estreia na poesia com o livro 'Escoliose'

Mais interessada na música do que na escrita, cantora descobriu que também poderia escrever poemas quando se encantou pelos versos de 'Doidonauta', de Salgado Maranhão

Guilherme Augusto 14/09/2020 04:00
Hick Duarte/Divulgação
Também cantora e artista plástica, Ana Frango Elétrico diz que %u201Co som das palavras%u201D é o que a motiva a escrever (foto: Hick Duarte/Divulgação)

Procurar uma definição única que explique Ana Frango Elétrico é uma tarefa ingrata. Multifacetada, ela hoje veste a camisa de cantora e compositora, mas já atuou em outras áreas, como as artes plásticas. Aos 22, ignorando esses rótulos, para ela já ultrapassados, Ana Frango Elétrico inaugura uma nova seara de sua produção artística com a chegada do livro Escoliose: paralelismo miúdo, pelo selo Edições Garupa.

Híbrida, a obra traz posfácio da ensaísta e escritora Heloísa Buarque de Holanda e projeto gráfico de Daniel Rocha. No recheio, apresenta uma seleção de poemas, ilustrações e gravuras autorais, que ajudaram Ana a se aprofundar no próprio processo de criação.

“Eu tenho um raciocínio muito conjunto entre os campos em que atuo. Quando penso no meu trabalho musical, tenho um pensamento gráfico, subjetivo e conceitual, por exemplo”, diz ela. “Gosto que as esferas se complementem. Dentro da minha poesia tem muito de música, de ritmo, de cor. O meu objetivo talvez seja alcançar uma sinestesia entre todas essas áreas.”

Ao longo das 88 páginas, concebidas nos últimos quatro anos, a artista oferece uma nova perspectiva sobre um trabalho baseado em percepções cotidianas e explora o “paralelismo miúdo”, subtítulo que se encaixa também na poética bastante particular presente em seu disco de estreia, Mormaço queima (2018).  

“É a minha maneira de entender e de brincar com a poesia”, afirma. “Acontecimentos paralelos e relações insuspeitas norteiam toda a minha produção. Então eu tento observar esses opostos, essas luzes e essas sombras”, ela explica, mas acrescenta que, para entender o conceito, é preciso ler o livro.


SOM

Música e literatura também se misturam, de certa forma, naquilo que motiva Ana Frango Elétrico a escrever: “O som das palavras”, conforme diz. Ela conta que nunca foi uma leitora voraz. Na infância, “gostava de bola de futebol'”. Mas, num determinado momento, viu-se diante de um livro do poeta Salgado Maranhão e se encantou pelos versos de Doidonauta.

“Ali eu pensei: 'Acho que posso gostar de poesia'. Gostava muito do verso em que ele diz 'galo sideral a zen milhas milharando estrelas doidonauta'. Esse poema me marcou muito, e eu descobri que a poesia poderia ser o meu tipo de literatura. Não leio muito, porque acabo me distraindo. Mas poesia é o que eu mais leio, então me vi motivada a escrever.”

Foi com essa mesma imprecisão e despojamento que Ana lançou, há aproximadamente um ano, o disco Little electric chicken heart (2019), que a alçou a um outro patamar na música autoral brasileira. Surreal e ecoando tropicalismo, o trabalho rendeu à artista o prêmio APCA na categoria Revelação da música popular.


RELEVÂNCIA

Olhando em perspectiva, ela entende que a repercussão que o disco teve é fruto de um esforço particular que ela dedicou a ele. “Eu tinha a intenção de que esse trabalho fosse relevante. E o fiz ao lado de muitas pessoas incríveis que já estavam comigo em outros momentos da minha carreira. Tenho muito orgulho dele, mas também quero fazer outras coisas depois dele, explorar novos terrenos.”

Pouco antes de ter a agenda suspensa em razão da pandemia do novo coronavírus, ela se apresentou em Belo Horizonte, no palco do Sesiminas, em 12 de março passado. Na ocasião, Ana Frango Elétrico subiu ao palco sozinha para interpretar as canções de seu trabalho mais recente.

“Estive em BH duas vezes, uma com banda e outra sozinha. Da última, foi muito colado com o início de todo esse caos que a gente está vivendo hoje. As lembranças que tenho desse show são ótimas, principalmente porque era um formato mais intimista, então é interessante acompanhar a reação das pessoas de perto.”

Desde então, Ana fincou raízes no Rio de Janeiro e tem conseguido dar vazão à sua criatividade. Até o fim do ano, ela pretende lançar dois singles feitos durante a quarentena. “São músicas que criei diante das dificuldades da quarentena. É um momento difícil para todo mundo, então tenho pensado neste ano como uma espécie de portal.” 

Portal para onde ela deve se transportar num próximo trabalho, revelando um pouco mais do “DNA geracional” apontado por Heloísa Buarque de Holanda no posfácio de Escoliose.

TRECHO 


se eu roubei
o creme de ruga de minha mãe
foi porque
ainda não descobrimos os males do wifi
4g ou internet
 
o biscoito fedorento
e a depilação a laser
 
kids
don’t like
poems
 
and i don’t know
 
se teremos água no calor
ou
brigas
no supermercado
pelo preço da batata
ou
tamanho do chuchu
 
a onça pintada e o
lobo
guará
vão ser clonados no sertão
 
sou jovem e sobrevivi a dois mitos
românticos
e um tesão conexão

Reprodução
(foto: Reprodução)

ESCOLIOSE: PARALELISMO MIÚDO
• Ana Frango Elétrico
• Edições Garupa
• R$ 40
• Mais informações: leiagarupa.com/anafrangoeletrico

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