Em seu novo livro Leonardo Padura revela paixões além da escrita

Em Água por todos os lados, autor revela inspirações, como o beisebol. Escritor e ensaísta enfatiza a importância de Cuba para seu processo criativo

Estadão Conteúdo 09/09/2020 04:00
Adalberto Roque/AFP
O cubano Leonardo Padura afirma que, como escritor, cumpre a função de %u201Cdepósito de memórias%u201D (foto: Adalberto Roque/AFP)

Além de grande ficcionista, o escritor cubano Leonardo Padura também produz ensaios de grande envergadura. É o que prova o conjunto reunido no livro Água por todos os lados, que a Boitempo lança em 14 de setembro. São comentários pertinentes que revelam de seu processo de criação (“Entre uma obsessão abstrata, quase filosófica, e o complicado processo de escrever um romance, há um longo período, cheio de obstáculos e desafios”) a grandes paixões, como o beisebol.

Na entrevista a seguir, o escritor ressalta ainda a importância de morar em Cuba, apesar de convites para se mudar: “Sou cubano e tenho um alto senso do que esse pertencimento significa”. Tal decisão direciona  sua literatura, como a opção pelo gênero policial, ideal para explicar o âmago da sociedade. “Rubem Fonseca fazia literatura social”, diz ele.

Água por todos os lados faz referência a um verso de Virgilio Piñera (1912-1979), escritor dissidente que falava a língua áspera das ruas e cuja ironia foi escondida durante anos pelo regime cubano.
Virgilio Piñera, de fato, era um dissidente. Sempre foi. Desde jovem. Antes da revolução e depois.

Talvez ele estivesse mais integrado nos primeiros anos da revolução do que nunca em sua vida. Mas ele era um inconformista que não se adaptou e isso sempre o afetou. Era homossexual e, naquele tempo, naquele mundo, homossexuais não eram aceitos. Na Inglaterra, nos anos 1960, eram presos...

Por ser um inconformista, foi, na época, um revolucionário, no melhor sentido da palavra. Revolucionou, por exemplo, o conto e o teatro cubanos. Antecipou o que seria mais tarde conhecido como teatro do absurdo. E escreveu grandes poemas como La Isla en Peso, de onde vem o verso no qual se lamenta nossa insularidade e do qual me apropriei para dar título a meu livro, pois esse verso define em poucas palavras o drama cubano da insularidade.

Você escreveu que o escritor é um depósito de memórias. Qual é a sua opinião a respeito do revisionismo, especialmente o cultural, que ocorre no mundo nos últimos meses?
Concordo que tudo seja revisto, questionado e posto em dúvida. É a única maneira de desenvolver um pensamento crítico, provocador e renovador. Mas também concordo que, às vezes, o revisionismo, seja ele qual for, carrega uma dose de oportunismo e de ignorância, pois se pretende revisar qualquer coisa com qualquer metodologia. Como escritor, tenho que ser um depósito de memórias.

A literatura é feita a partir da memória, da consciência e da experiência pessoal e coletiva do autor e de outras pessoas, ela é armazenada como memórias, que podem até ser textuais (livros de história, romances, tratados filosóficos, etc.). Sem esse baú sem fundo, não se pode escrever, como acredito que também não se possa fazê-lo sem olhar ao redor de cada um e observar criticamente o contexto local, universal, temporal e permanente. Nessa dialética, entre duvidar e acreditar, pode estar uma das centelhas da literatura, da criação em geral.

Você informa que, além de cubano, é um escritor cubano e, mais importante, um escritor cubano que vive em Cuba. Como essas características dão sentido não apenas a uma existência, mas também a uma profissão, sua reflexão é principalmente sobre a questão da identidade?
A identidade é uma construção histórica que sempre está em evolução. Minha identidade é diferente da de Piñera ou de Lezama, por exemplo, que foram cubanos e escritores cubanos de seu tempo como eu sou do meu. Estavam rodeados por um ambiente cultural e histórico diferente do meu e daí as distâncias da nossa identidade, que, no entanto, é a mesma. E não é um paradoxo, é a realidade.

Tenho uma identidade que foi forjada no pertencimento e na permanência. Pertenço a Cuba e permaneço em Cuba e isso determina minhas visões da realidade, da história, do presente e até dos prenúncios do futuro. Sou quem sou, porque sou e estou. E, no meu caso, é muito claro para mim: não teria sido o mesmo se tivesse saído de Cuba. Talvez eu tivesse escrito mais e melhor, mas não teria feito da mesma forma. Isso: sou quem sou porque estou onde estou.

Quatro anos depois da morte de Fidel Castro e três desde que Donald Trump assumiu a presidência dos Estados Unidos, como é a relação entre os dois países?
Em seu ponto mais baixo desde a crise dos mísseis em 1962. Em 2016, parecia que era possível, se não uma relação normal, ao menos uma que não fosse tensa. Obama decidiu que a política anterior não havia dado resultados na mudança do sistema cubano e optou por outro caminho, o da aproximação, que preocupou os talibãs de uma margem a outra. Mas Trump, em dívida com determinados setores políticos de seu país interessados de maneira especial no caso de Cuba, retomou o confronto e Cuba, o entrincheiramento. E assim estamos, como se fosse uma maldição.

Você já disse que a história é um espelho para refletir e entender melhor o presente, enquanto o romance policial permite, desde o presente, ir às bases da sociedade. O gênero policial permite, então, abordar os grandes problemas da sociedade, como a corrupção e a pobreza?
Não só se pode dizer, mas se assumir e, então, escrever a partir dessa perspectiva, pois a literatura policial tem uma forte vocação social. Você lembra do que Rubem Fonseca fazia com seus romances e contos de crimes e violência? Pois fazia isso: literatura social. E poucas obras explicam melhor o Brasil das últimas décadas como seus romances. O mesmo acontece com Vásquez Montalbán e a Espanha, com Leonardo Sciascia e a Itália... e espero que com Cuba e comigo, ou melhor, com meus romances quase policiais.

Depois de ler o capítulo Queria ser Paul Auster, no qual você gostaria de ser o escritor americano para não ter que responder, por exemplo, sobre questões políticas, pergunto-lhe: o que você sabe do cinema italiano?
Ah, que pergunta boa! Se pudéssemos falar sempre de temas como o cinema italiano, o mundo seria um lugar muito melhor... Lembrar dos filmes de Visconti, Pasolini, De Sica e Ettore Scola, os roteiros de Zavattini, as atuações de Mastroianni, Claudia Cardinale e Sofia Loren... Há pouco, revi 1900, de Bertolucci, com trilha de Ennio Morricone e os jovens De Niro e Depardieu... Já não se fazem filmes assim, que pena! Já não se falam desses temas, mas de coisas tão sujas como a política, a pandemia, a crise econômica. Como estamos ferrados, colega!

Reprodução
ÁGUA POR TODOS OS LADOS . De Leonardo Padura . Editora Boitempo . 292 páginas . R$ 57 (foto: Reprodução)

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