Grupo Corpo ensina seus passos em workshop gratuito via internet

Depois da bem-sucedida experiência das aulas on-line para profissionais de saúde, companhia mineira estende a iniciativa para toda a população

Mariana Peixoto 28/07/2020 04:00
YouTube/Reprodução
A Cia. de Dança Palácio das Artes tem produzido miniespetáculos gravados remotamente (foto: YouTube/Reprodução)
Impossibilidades estão por toda parte, neste momento de pandemia. Mas é no espaço das possibilidades – e elas, quando não existem, estão sendo criadas – que a dança vem se mantendo no período de isolamento social. Os três principais grupos de dança de Belo Horizonte permanecem ativos nesta quarentena, da maneira possível.

Depois da surpreendente aceitação das aulas on-line destinadas aos profissionais da saúde, realizadas em maio passado, o chamado Grupo Corpo de Plantão retorna no mês que vem, agora com um workshop aberto a toda a população interessada. 

As aulas virtuais serão dadas entre os dias 15 e 17 de agosto. Até o início da tarde desta segunda-feira (27), 9,5 mil pessoas haviam se inscrito para participar. 

A ideia é muito semelhante à iniciativa anterior, empreendida no canal do grupo no YouTube. Um ou mais bailarinos da companhia darão uma aula de uma hora de duração, com transmissão ao vivo. Acessível mesmo para quem não tem familiaridade com a dança, a atividade tem como base as coreografias do repertório do Corpo.

“Como não podemos estar no palco, temos que inventar moda. O Grupo Corpo de Plantão tinha como objetivo mostrar nosso reconhecimento aos profissionais da saúde. Foi gente do Brasil inteiro. Recebemos e-mails e pedidos dizendo ‘e os professores?’, ‘e os entregadores’? Como o estresse é coletivo, resolvemos seguir na mesma ideia, com um workshop para quem quiser dançar”, afirma Cláudia Ribeiro, diretora de programação da companhia mineira.
Chris Birchal/Divulgação
O Primeiro Ato recriou remotamente a coreografia Insthabilidade (foto: Chris Birchal/Divulgação)

ON-LINE 
As comemorações de 45 anos do Corpo, que previam temporadas em Belo Horizonte, Rio e São Paulo, agora se dão por meio de exibições semanais de vídeos históricos das montagens do grupo. A produção on-line é constante, na forma de  lives e outras ações do gênero.

“Estamos sempre pensando em coisas com as quais possamos existir, por enquanto, no mundo virtual”, comenta Cláudia. Uma ideia anterior à pandemia e que começa a se concretizar por causa dela é a criação de um curso on-line para bailarinos e coreógrafos, que apresente a linguagem do Corpo.

“Os movimentos criados pelo Rodrigo Pederneiras são muito característicos e já havia uma demanda do mercado internacional. Como estávamos sempre viajando, não podíamos. Agora, iniciamos as gravações, mas está sendo tudo bem devagar, justamente por causa das condições atuais”, dia a diretora, em referência às medidas de isolamento social necessárias para conter a disseminação do novo coronavírus. .

Aproximando-se das quatro décadas de atividade, o Grupo de Dança Primeiro Ato também vem reaprendendo diante dos impedimentos do momento presente. No mês que vem, em data ainda não definida, deverá ser lançada a montagem Insthabilidade estado permanente, cuja criação teve apoio do edital Itaú Cultural Arte como Respiro.

A montagem relê o espetáculo Insthabilidade, criado pelo grupo em 2018. “Pegamos o tema que é superpropício para o momento e reconstruímos os solos, agora totalmente diferentes, com cada um dos (sete) bailarinos que fizeram parte do espetáculo. Dois deles inclusive saíram do país, mas continuam conectados com a gente”, afirma a coreógrafa Suely Machado, fundadora do Primeiro Ato.
Reprodução/YOutube
Corpo abriu inscrições para workshop, agora aberto a todos (foto: Reprodução/YOutube)

FERTILIDADE 
Além desta ação, a coreógrafa e os bailarinos dão início, remotamente, aos trabalhos de Um oceano entre nós, sua nova montagem. “Já começamos a pesquisa, pois todos estamos com um oceano entre cada um. Vamos começar o processo de criação sem saber para quando,  porque entendemos que, neste momento, estamos em um período de fertilidade monstruosa. Todo mundo está frágil e foi atingido pela realidade, e este é o motivo de criação de todo artista.”

Paralelamente ao trabalho da companhia, a escola de dança Primeiro Ato também continua na ativa. Todas as aulas foram mantidas (inclusive com os mesmos horários), nas turmas para crianças, adolescentes e adultos. “Mantivemos a maioria dos alunos (são cerca de 280), mesmo com uma quebra de 30%. A maioria entendeu que não dava para ficar sem movimento.”

Nesta terça (28) e quarta (29), haverá no canal do YouTube do Primeiro Ato duas lives com a Mostra Cultural, evento anual em que os alunos criam tudo – das coreografias ao figurino. Além disso, a escola lança em 1º. de agosto o Primeiro Ato on-line, aberto a quem se interessar. 

“É uma série de aulas diferenciadas. Tem aula da família, para mãe e filhos, para despertar e até aulas de happy hour”, conta Suely. Uma vez comprada a aula, o “dançarino da quarentena” tem acesso ao conteúdo via aplicativo Zoom.

É por meio das plataformas de videoconferência que a Cia. de Dança Palácio das Artes tem criado novos conteúdos. Os corpos estáveis da Fundação Clóvis Salgado vêm, desde o início de abril, produzindo material em vídeo para o programa Palácio em sua Companhia, que é publicado nas redes sociais da instituição.

A área de dança já fez várias produções. Nesta quinta (30), lança mais uma, o vídeo coletivo Um chamado de corpo. “É tudo em casa, com cada um produzindo seu material. Isto tem ampliado as possibilidades de se produzir e se fazer dança. Como há 20 anos a Cia. de Dança tem trabalhado no formato da criação coletiva, em que todos os bailarinos (atualmente são 20) participam de todas as fases do processo criativo, agora não está sendo diferente. O que mudou foi a mídia”, comenta Cristiano Reis, diretor da Cia. de Dança.

INTERVENÇÃO  
Está no ar no canal do YouTube da FCS (in) tensões – on-line, uma versão digital e remota da intervenção de mesmo nome que os bailarinos apresentaram no ano passado. Cada um deles refez, agora em separado e à distância, a performance unindo diferentes linguagens artísticas em um vídeo de meia hora. 

Cristiano Reis conta que, como duas bailarinas também têm familiaridade com vídeo, são elas que têm feito parte da edição do material remoto. “(O isolamento social) Limita em algumas coisas. O acesso a uma boa internet interfere, por exemplo. E hoje só dá para existir um duo caso dois bailarinos sejam casados (por sorte, há um casal na Cia. de Dança).”

Ou seja, a maior parte do material produzido é de solos. “Mas não são unicamente solos. Aquele indivíduo está inserido em uma rede dramatúrgica, como se fosse uma colcha de retalhos. É solo no sentido de que o bailarino está sozinho na casa dele. Por outro lado, ele está trabalhando em um contexto coreográfico (com outros)”, observa Reis.

>> CIA DE DANÇA PALÁCIO DAS ARTES
Nesta quinta (30), às 19h, será lançada a videodança Um chamado de corpo. Todo o material criado pelo grupo durante a quarentena está disponível no YouTube (palaciodasartesmg), Instagram (@fcs.palaciodasartes) e Facebook (fundacaoclovissalgado).

>> GRUPO CORPO
Nesta terça (28), às 20h, haverá a live Vamos dançar?, com as bailarinas Mariana do Rosário e Fernanda de Freitas, no Instagram (@grupo_corpo). Já o workshop on-line será nos dias 15 e 16 de agosto, às 10h, e no dia 17, às 20h. Inscrições gratuitas pelo grupocorpoplay.com.br/workshop.

>> PRIMEIRO ATO
Nesta terça (28) e quarta (29), às 19h, haverá lives da mostra cultural no canal do YouTube (Primeiro Ato Dança). Informações sobre aulas on-line na escola Primeiro Ato: www.primeiroato.com.br.

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