Coletânea de livros sobre fantasmas bate a meta de 'vaquinha' on-line

Reunião de 26 títulos evidencia as facetas psicológicas exploradas pela figura da ameaça invisível na literatura fantástica e traça panorama do gênero no Brasil

Pedro Galvão 01/07/2020 07:27
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Solidão, isolamento e medo, mesmo dentro de casa, de uma ameaça assustadora e invisível. Em tempos de COVID-19, esses elementos se tornaram comuns para a população mundial, mas há séculos se fazem presentes na literatura fantástica, em que as assombrações parecem tão fascinantes quanto assustadoras.

Com o objetivo de contar a história das histórias fantasmagóricas, uma parceria entre a editoras Ex Machina, Clepsidra e o Fantasticursos está preparando o que seus idealizadores chamam de “a mais completa antologia de contos de fantasma já produzida em língua portuguesa”.

Financiada coletivamente, a coletânea Contos clássicos de fantasma deve ser lançada ainda neste ano. A campanha no site Catarse (acessível em www.catarse.me/fantasmas) está em fase final de arrecadação, já com 98% da meta financeira atingida.

O livro reunirá 26 contos, entre nacionais e estrangeiros, todos de domínio público, escritos desde o ano 1000 d.C até a década de 1940. De acordo com Cid Vale Ferreira, um dos editores, a curadoria procurou escolher um leque que mostra a amplitude da diversidade de narrativas protagonizadas por fantasmas no chamado cânone ocidental.

“Fizemos o recorte para mostrar a variedade nesse filão. Temos contos que trazem o fantasma como algo do passado escondido, que retorna para resolver alguma injustiça. Ou o ponto de vista do fantasma como narrador, para discutir o que é a vida após a morte. Há também a atração que alguma pessoa sente pelo mistério do desconhecido, a ponto de tentar contatar os mortos para comprovar a vida após a morte”, exemplifica Ferreira, que há mais de 10 anos se dedica ao universo relacionado ao gênero no sebo e editora independente Clepsidra, de São Paulo.

Ele explica ainda a preocupação em oferecer na coletânea um panorama histórico e cronológico de uma literatura “que não apenas tem fantasmas, mas é sobre fantasmas”. Por isso, o mais antigo é A casa assombrada, de Plínio, o Jovem, publicado no ano 1000, na Roma Antiga.

Seleção A seleção passa pela Idade Média, chega ao século 19, incluindo alguns dos autores mais cultuados do mundo, como Bram Stoker (1847-1912) e Edgar Allan Poe (1809-1849) e em seguida se dedica à história do gênero no Brasil.

“Colocamos contos que fazem um panorama para que as pessoas tenham exemplos de quase tudo que foi feito. Não estão todos os contos já publicados, é claro, mas, se alguém quiser saber como é o fantasma na tradição caipira do Brasil, pode ler A pantasma (1945), de Valdomiro Silveira. Como era fantasma no romantismo? Temos As ruínas da Glória (1861), do Fagundes Varela. O anônimo Monge do horror fala da Inquisição, dos pecados da Igreja, dos crimes contra bruxas, hereges, isso tudo num conto de fantasma”,  afirma Cid Vale Ferreira.

O editor destaca ainda a presença de temas como por exemplo “colonialismo e machismo”. “Papel de parede amarelo (1892), de Charlotte Perkins Gilman, fala do gaslighting, ou seja, de uma pessoa que tenta enlouquecer a outra, na dinâmica de uma relação abusiva. Nesse conto de fantasma discute-se até que ponto a pessoa está vendo espíritos ou é alguém que quer dominá-la e fazê-la crer na própria loucura. Ou seja, é uma diversidade de temas que vai muito além do mero medo. Por meio dos fantasmas são discutidas questões humanas profundas, reveladas pela tensão dessa presença invisível”, argumenta.

Cid Vale Ferreira aponta que, “nessa edição, não há contos orientais, nem árabes, russos ou da tradição indígena ou africana, mas há contos escritos por mulheres, por homens, tudo muito bem representado nesse cânone ocidental”.

O trabalho é respaldado pelo sucesso de Contos clássicos de vampiro, lançado em 2010 pela editora Edra, e selecionado em 2012 para o Programa Nacional Biblioteca da Escola. A equipe responsável, formada pelo editor Bruno Costa, da Ex Machina, a tradutora Marta Chiarelli e o organizador Alexander Meireles da Silva, se reencontrou, juntando-se a Cid Vale Ferreira, para empreender projeto parecido, mas dedicado aos fantasmas.

Meireles da Silva, que é professor de literatura de língua inglesa na Universidade Federal de Goiás e criador de conteúdos do canal Fantasticursos, no YouTube, organiza e prefacia, em 25 páginas, o livro. Ele destaca que parte dos contos incluídos é de traduções muito raras ou até inéditas em português. Mesmo os já conhecidos ganharam uma nova versão, no caso dos estrangeiros, e reedição, no caso dos brasileiros.

“Nossa parte mais querida é a contemplação de contos de fantasmas nacionais. O fantástico brasileiro ainda está muito nas sombras. Há muita produção hoje, mas é uma tradição que já existe e precisa ser trazida às luzes”, afirma o acadêmico, que lamenta que o gênero tenha pouco espaço no ensino básico, por exemplo.

“Há pouco estudo e pouca visibilidade. Boa parte dos grandes escritores nacionais tem alguma produção ligada ao fantástico. De Aluísio Azevedo todos conhecem O cortiço, mas A mortalha de Alzira, nem tanto. É um espaço marginal na literatura brasileira, que desde o Romantismo optou pelo viés mais realista e relegou o fantástico”, diz o professor.

Perigo


“A leitura do bom conto do fantasma tem a função de ajudar a entender nossos fantasmas interiores e o mundo que nos cerca”, afirma, ressaltando a semelhança com o contexto da pandemia, no qual "as pessoas estão em casa com a vida ameaçada por um perigo invisível".

Na plataforma de financiamento coletivo é possível apoiar o projeto com quantias a partir de R$ 77, recebendo em troca uma edição do livro e outros brindes, proporcionais ao valor do apoio. Os idealizadores garantem que, com o alcance da primeira meta estipulada, novas possibilidades se abrem, como a inclusão de mais contos na edição. A previsão é que os volumes estejam disponíveis em novembro.

ANTOLOGIA
Confira as obras selecionadas para a coletânea

» A casa assombrada (c. 100 d.C.), Plínio, o Jovem (62-114 d.C.)
» O causo de Thorsteinn, o Tremedor (c. 1390),  anônimo islandês do século 13
» O monge do horror; ou, o conclave de cadáveres (1798), anônimo inglês do século 18
» A casa do juiz (1891), Bram Stoker (1847-1912)
» Ligeia (1838), Edgar Allan Poe (1809-1849)
» A estrada enluarada (1907), Ambrose Bierce (1842-1914)
» O fantasma da boneca (1896), F. Marion Crawford (1854-1909)
» O fantasma perdido (1903), Mary Eleanor Wilkins Freeman (1852-1930)
» O papel de parede amarelo (1892), Charlotte Perkins Gilman (1860-1935)
» Kerfol (1916), Edith Wharton (1862-1937)
» Relato de alguns incidentes estranhos na Rua Aungier (1851), J. S. Le Fanu (1814-1873)
» O riquixá fantasma (1885), Rudyard Kipling (1865-1936)
» Toque de pesadelo (1900), Lafcadio Hearn (1850-1904)
» Toque o apito e virei ao seu encontro, rapaz (1904), M. R. James (1892-1936)
» Um relato da aparição de Mrs. Veal (1706), Daniel Defoe (1661-1731)
» Julgamento por assassinato (1865), Charles Dickens (1812-1870)
» Corações perdidos (1904), M. R. James (1892-1936)
» A esquina feliz (1908), Henry James (1843-1916)
» Assombramento (1898), Afonso Arinos (1868-1916)
» As ruínas da Glória (1861), Fagundes Varela (1841-1875)
» O impenitente (1893), Aluísio Azevedo (1857-1913)
» A cadeira (1908), Veiga Miranda (1881–1936)
» Confirmação (1914), Gonzaga Duque (1863-1911)
» Os três círios do triângulo da morte (1922), Moacir de Abreu
» A sombra (1926), Coelho Neto (1864-1934)
» A pantasma (1945), Valdomiro Silveira (1873-1941)


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Contos clássicos de fantasma
Editora Ex Machina
360 páginas
R$ 77 (apoio mínimo no Catarse, para retirada do livro na loja)

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