Novo romance de Eliana Alves Cruz expõe o apartheid brasileiro

Autora mostra que o Brasil contemporâneo mantém profunda conexão com o país do século 18

Guilherme Augusto* 29/06/2020 07:35
Pallas/divulgação
Eliana Alvez Cruz lança romance histórico ambientado no Rio de Janeiro do século 18 (foto: Pallas/divulgação)

Ambientado em 1732, na cidade do Rio de Janeiro, o novo romance histórico da escritora Eliana Alves Cruz trata do passado para refletir sobre o presente. Nada digo de ti, que em ti não veja (Pallas Editora), que será lançado na terça-feira (30), aborda milícia, racismo, fake news, delação premiada, fanatismo religioso e transexualidade – questões atuais que, segundo ela, sempre estiveram presentes na sociedade brasileira.

“Escrevo romance contemporâneo com roupa de época”, brinca a autora, que ganhou projeção com O crime do cais do Valongo (Malê, 2018), semifinalista do Prêmio Oceanos 2019, e Água de barrela (Malê, 2016).

De acordo com ela, o novo livro surgiu como a chance de abordar temas que, embora correlatos, não condiziam com as narrativas dos trabalhos anteriores.

“Há um personagem homossexual. Para construí-lo, pesquisei muito sobre a homossexualidade no início do século 19. O que encontrei era sempre muito fascinante, mas o livro estava tão fechado que não cabia, então considero o Nada digo de ti... um pouco filho do Crime do cais..., porque aproveitei a pesquisa e decidi aprofundá-la, retornando até os anos 30 do século 18”, conta Eliana.

TRANS

Entre as temáticas, salta aos olhos a transexualidade, pouco explorada em tramas de época. Para tanto, a escritora buscou referências em processos da Santa Inquisição sobre sodomia, como a homossexualidade era chamada naquele período.

“É um Brasil ainda mais primitivo, ainda mais profundamente escravista”, comenta. Ela enumera como evidências disso o Ciclo do Ouro em Minas, o modus operandi da escravidão mineradora, esquemas que concentravam a renda em clãs.

A escritora faz parte da equipe de roteiristas da série que será rodada pela TV Globo sobre a vida de Marielle Franco, vereadora carioca assassinada em 2018. “Pessoalmente, me dá uma alegria e uma tristeza ouvir sobre a atualidade de minha obra. Isso mostra que, como escritora, consegui construir um universo identificável, mas me entristece pensar na imobilidade das coisas”, pontua.

Não à toa, o novo livro é dedicado “a todos os que desejam ardentemente honrar o tempo, com a honestidade e a coragem de revelar a sua essência mais profunda”.

Eliana se dedicou a pesquisas mais profundas para a reconstituição de época. O que normalmente começa com uma ambientação estética acaba desembocando no livro de história propriamente dito. Também jornalista, a autora lançou mão de documentos. Neles, descobriu personagens reais, homens que se apresentavam como mulheres no Brasil colônia.

“Achei muito pertinente criar um personagem trans em um romance histórico. São questões de todos os tempos que certo obscurantismo atual quer fazer crer serem novidades e modismos”, analisa.

Fake news em bico de pena


Tão em voga atualmente, as fake news nada têm de novidade. Eliana Alves Cruz encontrou referências a respeito delas em jornais do século 18. No Brasil colônia, cartas anônimas eram utilizadas para denunciar e difamar desafetos.

“Foi delas que veio a ideia para o título”, re- vela a autora. “'Nada digo de ti, que em ti não veja' é uma frase bastante comum, usada em geral para encerrar cartas. É interessante o paralelo que elas carregam com os dias atuais, mas as consequências dessas denúncias eram cruéis. Mostram como a sociedade brasileira é baseada na punição e na violência.”

Naquela época, as Ordenações Filipinas, legislação anterior ao Código Criminal de 1830, puniam com tortura e morte quem não obedecesse às regras da metrópole. “Ainda há um resquício de toda essa violência. Nós seguimos a linha de pensamento punitivista, ainda que a Constituição de 1988 seja muito boa, embora não seja aplicada a tudo”, afirma Eliana.

“Hoje, no Brasil, a expectativa de vida da população trans é a mesma de 400 anos atrás. Dentro da exclusão há invisibilização. Maioria numérica no país, a população negra não ocupa espaços de poder, não é destacada na academia, na ciência e na literatura. Então, uma pessoa LGBTQI negra está ainda mais à margem”, diz.

BRANQUITUDE

De acordo com Eliana, isso se deve ao fato de o Brasil não reconhecer sua própria história. “A escravidão ainda não foi devidamente esmiuçada para o cidadão comum, que está fora da universidade. O que diz a literatura e o audiovisual é muito marcado pela branquitude. Existem histórias que ninguém escreveu, além de personagens com questões subjetivas esperando para ser descobertos e transformados em livros, filmes, novelas, músicas e o que mais for possível.”

Questionada sobre a pertinência de seu novo livro, lançado em meio à pandemia da COVID-19 e na esteira da onda de protestos contra o racismo provocada pelo assassinato de George Floyd, nos Estados Unidos, Eliana é enfática: “Todas as obras produzidas por escritores negros chegam no momento certo”. E adverte: “A gente vive um apartheid na literatura brasileira. Precisamos contar a nossa história e ousar imaginar um futuro. Temos que olhar para trás, entender como as coisas aconteceram e ousar pensar no amanhã.”

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