Sem poder estrear espetáculo, Marcelo Gabriel lê, faz ioga e medita

O bailarino apresentaria seu novo solo em março passado, no Sesc Palladium. Em casa, ele agora tenta 'digerir esse sentimento coletivo de insegurança'

Mariana Peixoto 23/06/2020 07:24
Daniel Mansur/Divulgação
O bailarino Marcelo Gabriel em seu solo Homem com o coração arrancado do peito, de 2018. Ele aproveita a quarentena para ler, fazer ioga e meditar (foto: Daniel Mansur/Divulgação)

Ator, bailarino, performer, Marcelo Gabriel, de 49 anos, tem também formação em acupuntura e gastronomia. Impossibilitado de voltar aos palcos em decorrência da pandemia do novo coronavírus – em março, ele cancelou uma data para estrear espetáculo solo no Sesc Palladium –, Marcelo Gabriel tem se virado no período do isolamento social como qualquer brasileiro: faz o que pode.

“É um momento de introspecção absurda, o que está sendo muito revelador”, comenta o artista, que tem praticado ioga e meditação. Sem saber se vai conseguir apresentar seu novo espetáculo solo em 2020 – o tema é o totalitarismo e a ascensão da direita conservadora – ele tem lido muito, enquanto aguarda os acontecimentos.

“Estou tentando digerir esse sentimento coletivo de insegurança. Sempre que passamos por uma situação de fragilidade máxima, a polarização aumenta. O discurso político atual é nocivo, não existe ganho civilizatório neste sentimento”, comenta Gabriel. Mas ele não arrefece. Em casa, vem se dedicando a leituras com as quais tenta enxergar mais claramente o momento atual.

CONTRIBUIÇÃO

Releu A peste (1947), de Albert Camus, talvez o best-seller mundial da pandemia, e As origens do totalitarismo (1951), da filósofa alemã de origem judaica Hannah Arendt. “Enquanto A peste é uma alegoria da condição humana, o livro da Hannah Arendt  trouxe uma contribuição fundamental para a compreensão do totalitarismo, seja com a luta de classes, no caso soviético, seja com a luta de raças, no nazismo.”

Marcelo Gabriel também descobriu novas publicações, caso de Contra o ódio (2020), da jornalista e escritora alemã Carolin Emcke. “É uma mistura de ensaio e reportagem para caracterizar um sentimento de cólera que ganhou espaço na esfera pública da última década.”

Em sua atividade como acupunturista, ele viu os pacientes reduzidos a 10%. “Mesmo usando jaleco, aparador, máscara, luvas, seguindo todos os protocolos da Organização Mundial da Saúde (OMS), existe um temor, o medo do contato social.” Os clientes que ele continua atendendo têm aulas de ioga, massagem e acupuntura.

“Tenho também dado dicas sobre alimentação, já que a maioria das pessoas não sabe se alimentar. Faço uma reeducação com meus clientes. Proponho um tratamento que não seja doloroso, que permita as pessoas sentirem prazer”, diz Gabriel, que tem passado muito tempo na cozinha. O cardápio que ele prepara é vegetariano. Mas ele não é radical. “Preparo qualquer tipo de alimento, desde que seja natural, sem nenhum tipo de químico.”

Artista com mais de 30 anos de carreira, Marcelo Gabriel não pisou nos palcos em 2019. Tanto que se viu impossibilitado de receber o auxílio de R$ 600 por três meses previsto no PL 1.075/2020, apelidada de Lei Aldir Blanc, que prevê R$ 3 bilhões ao setor cultural durante a crise do coronavírus.

Sancionada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado, a lei emergencial aguarda agora a aprovação do presidente Jair Bolsonaro (sem partido) para entrar em vigor. “Uma das cláusulas estabelece que quem pode ter acesso ao auxílio é aquele que se apresentou em 2019 (até fevereiro de 2020). E os que não se apresentaram? Eu estava em período de criação. Acho a lei ótima, super bem-vinda, mas acho que isso tem que ser revisto”, afirma.

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