Depois de reagir a racismo, garoto vira 'guia' literário

Baiano Adriel Bispo, de 12 anos, se surpreende com explosão de seguidores no Instagram e pedido de indicações sobre livros

Frederico Gandra* 08/06/2020 07:55
acervo pessoal
Adriel Bispo, de 12 anos, que reagiu a insulto racista, agora ajuda mais gente a descobrir o gosto pela leitura (foto: acervo pessoal)

Poucos dias depois de viralizar na internet ao reagir dura, mas polidamente, a um insulto racista, o pequeno baiano Adriel Bispo de Souza, de 12 anos, ainda se surpreende com os efeitos de sua atitude. Mais do que saltar de raros para mais de 800 mil seguidores em seu perfil no Instagram dedicado à literatura, ele tem visto muitos adolescentes reforçando a prática da leitura, além de amigos e vizinhos de Salvador, onde mora, pedirem indicações de livros. “Disseram que queriam algum livro emprestado para poder ler”, conta.


“Porco gordo. Eu achava que preto era pra ta cavando mina não lendo”, dizia o comentário. “Para de ser trouxa e volta para sua realidade de merda. Você foi criado para ser pobre e preto”, acrescentou o perfil não identificado. O garoto publicou uma resposta que comoveria a internet. “Em pleno século 21 pessoas ainda são racistas? Atualizem-se. Insultos acabam com o psicológico de pessoas fracas, esse tipo de coisa não me abala em nenhum ponto. Aliás, tenho orgulho de ser negro.”

Estudante do 7º ano do ensino fundamental II, Adriel reside em um apartamento com a família no Bairro Luís Anselmo, região humilde da capital baiana. Ele conquistou bem mais que seguidores, incluindo o dramaturgo Walcyr Carrasco, num salto espetacular diante dos 350 iniciais: à casa dele chegaram livros e mais livros. Além de mensagens de apoio, diversas celebridades nacionais passaram a divulgar a página, como Felipe Neto, Bolívia (do canal de Desimpedidos) e Preta Gil, entre outros. Ele deu  várias entrevistas a veículos de jornalismo nacionais.

O garoto aprendeu a ler aos 5 anos, mas foi só aos 9 que se apaixonou pela literatura, por influência da prima Bruna, idealizadora de um perfil literário no Instagram. “Eu via ela postando alguns livros e pedi indicações. Ela indicou e minha mãe comprou.” O livro em questão é o best-seller A culpa das estrelas, de John Green.

A página @livrosdodrii, antes de bombar na internet, estava longe de ser uma influenciadora digital: até 22 de maio, Adriel havia publicado sete fotos no perfil, reunindo não mais que três centenas de seguidores. “Eu não esperava essa repercussão toda. Eu não tinha noção de que isso tudo ia acontecer comigo”.


ORGULHO

 Adriel vê também com naturalidade sua reação. “Minha família inteira é negra, eu sempre tive orgulho de ser negro. Minha mãe sempre me ensinou a ter essa visão”, destacou. Na semana passada, os familiares de Adriel, acompanhados por uma advogada, prestaram queixa na polícia. “Eles foram mostrar que nós não podemos ficar calados”, justifica o garoto.

Para ampliar o conteúdo e seguir surfando no sucesso, o Livros do Drii ganhou um canal no YouTube. “Já tinha essa ideia antes, mas sempre tinha medo de as pessoas não gostarem do meu conteúdo. Com tantas pessoas mandando mensagens de carinho, aproveitei e criei o canal”, conta. O primeiro vídeo foi publicado no fim do mês passado. Em #RecebidosdoDrii, Adriel mostra alguns dos mimos recebidos na semana. Menos de uma semana desde a primeira publicação, o canal já acumulava mais de 10 mil inscritos e 3,9 mil likes. “Já tenho outro vídeo gravado. Vou postar assim que for editado”, diz ele. A aposta no YouTube é uma forma de monetizar suas iniciativas.

O que parece não faltar a ele é paciência e capacidade de dar a volta por cima. Há cerca de dois anos, a rotina familiar foi totalmente alterada pelo AVC hemorrágico sofrido pelo padrasto, que carinhosamente chama de “tio”. “Ele não consegue andar e temos que dedicar boa parte do nosso tempo a ele”, descreve. Após o incidente, sua mãe, Deise Oliveira, largou o emprego para cuidar do marido e viver do auxílio-doença recebido do INSS. Com os altos gastos com remédios, Adriel teve de abrir mão de quase toda a sua coleção literária para ajudar. “Nesse tempo, eu tinha 180 livros. Eu tive que vender 140 para poder ajudar a minha mãe”, conta.

*Estagiário sob supervisão do  subeditor Eduardo Murta

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