A vida louca de Dom, personagem do novo livro de Tony Bellotto

Em seu décimo romance, o escritor e guitarrista recria a trajetória trágica do jovem assaltante carioca Pedro Dom, que vai virar série dirigida por Breno Silveira

Carlos Marcelo 04/05/2020 10:05
Chico Cerchiaro/divulgação
(foto: Chico Cerchiaro/divulgação)
A epígrafe de um trecho de Pais e filhos, do russo Ivan Turguêniev, indica o caminho do novo romance de Tony Bellotto, Dom, inspirado em acontecimentos reais. “O que mais me atraiu na história foi a tragédia familiar”, reconhece o escritor e músico, guitarrista dos Titãs. E que história: no Rio de Janeiro do início dos anos 2000, um jovem de classe média, filho de um policial aposentado, torna-se o chefe de uma quadrilha especializada em roubos de residências luxuosas. Entre “perigos e prazeres, armadilhas e maravilhas”, Pedro Dom segue em frente, driblando o destino. Até que, em setembro de 2005, aos 23 anos, não consegue mais: é morto a tiros depois de um cerco policial. “Para narrar a jornada de um anti-herói trágico, alterei a realidade na tentativa de revelar a sua essência”, explica o autor, que complementa, em nota no livro: “O romance obedece às engrenagens da minha imaginação.”

Por meio de Breno Silveira, da Conspiração Filmes, Bellotto conheceu o agente da polícia aposentado Victor Lomba, pai de Pedro Dom. O cineasta, diretor de sucessos como 2 filhos de Francisco, contou ao escritor que gostaria de fazer um longa-metragem e acertou que o músico seria o roteirista. O projeto empacou e Bellotto não chegou a desenvolver um roteiro. Anos depois, o policial o procurou novamente e disse: “O filme não deu certo, mas a história do meu filho tem que ser contada.” Bellotto respondeu que não tinha interesse em fazer uma biografia jornalística e voltou a engavetar a ideia. Literalmente. Até o dia em que a mulher, a atriz Malu Mader, encontrou em uma gaveta as anotações do marido, que releu o que havia escrito e avaliou: “Isso pode dar um romance”. Decidiu inventar uma história a partir dos pontos que havia anotado e engrenou na escrita.

Silveira também retomou o projeto audiovisual, agora no formato de série e protagonizada por Gabriel Leone, e acertou a produção com a Amazon Prime Video, ainda sem confirmação de estreia. “A história original já era cheia de lacunas, com passagens controversas e mal explicadas, muito complexa para ser narrada com a objetividade jornalística. Decidi inventar personagens e situações a ponto de, em determinado momento, não saber mais o que era real e o que eu criei”, revela Bellotto, em isolamento social com a família em Penedo (RJ), entre o Rio e São Paulo.

No romance, Victor Lomba, que chegou a fazer parte do Esquadrão da Morte durante a ditadura e morreu recentemente, é um personagem tão marcante quanto o protagonista. “Era um homem muito angustiado e que se sentia muito culpado pelo filho ter se tornado um bandido”, lembra Bellotto. Os encontros e desencontros de Victor e Pedro rendem algumas das passagens mais fortes do livro. A citação de fatos históricos marcantes e a alternância de tempos verbais enriquecem a narrativa ágil, pontuada por episódios de ação criminosa que beiram a inverossimi- lhança... só que aconteceram.

“A vida do personagem foi intensa, rápida, eufórica, acelerada pelas drogas químicas como a cocaína. Tentei imprimir um pouco desse ritmo”, afirma o escritor. Instado a comparar o livro a uma música, ele se lembra de um sucesso de sua banda nos anos 1980: “É como ouvir Polícia, mas tocada pelo Sepultura.”
 

COPACABANA


Dom tem como cenário o bairro carioca de Copacabana, descrito como “um outro mundo”, bem diferente do lugar familiar e acolhedor que aparece na série de romances protagonizada pelo delegado Espinosa, de Luiz Alfredo Garcia-Roza (1936-2020). “A dele é mais calorosa, afetiva. A Copacabana do Pedro Dom, que conheci quando fui morar no Rio, nos anos 1980, é feérica, efervescente, com turistas, travestis, velhos, traficantes, todos no mesmo espaço. Um lugar muito louco”, resume Bellotto.

Ele ainda sente o impacto das mortes de Garcia-Roza e Rubem Fonseca, com apenas um dia de intervalo, no mês passado. “Sinto-me um pouco enfraquecido. É como perder dois craques de um mesmo time”, diz, referindo-se aos escritores brasileiros de romances policiais.

O músico chegou a trabalhar com Fonseca no roteiro da série Mandrake. “Aprendi muita coisa. Ele vivia dizendo, por exemplo, que a frase pode até ser enigmática, mas tem que ser clara. Também que um livro pode ser tudo, só não pode ser chato.”

O décimo romance de Bellotto resulta da lição do mestre. Tem sexo e drogas, morro e asfalto, conflitos familiares e assaltos cinematográficos, bandidos atraentes e policiais corruptos. Dom é tudo, menos chato.

TRECHO

“Sim, há muito a fazer e incontáveis pessoas a reencontrar, mas a primeira coisa que Pedro Dom faz quando chega ao Rio, depois de dispensar Jasmim com um ‘obrigado’ e um beijo que ela toma mais como afronta do que agradecimento, é caminhar por Copacabana. Mas não caminha simplesmente por caminhar pelas ruas do bairro que sempre lhe proporciona uma euforia específica, como uma vitória secreta. Ele tem um objetivo definido: a Rua Barata Ribeiro. É para lá que se dirige, entre camelôs na calçada, um gordinho com chapéu de marinheiro, um bêbado desequilibrado. Olha para o sol e fecha os olhos, fruindo o reencontro com a fauna secreta da escuridão, os vaga-lumes invisíveis de Copacabana que só ele vê e que parecem mais abelhas do que vaga-lumes. A velha excitação está de volta, isto, sim, define liberdade: caminhar por Copacabana.”

DOM
  • De Tony Bellotto
  • Companhia das Letras
  • 339 páginas
  • R$ 74,90

MAIS SOBRE ARTES-E-LIVROS