Colapso à vista para a indústria do livro no Brasi

Queda das vendas praticamente paralisou o setor. Editoras adiam lançamentos, cortam tiragens e reivindicam medidas de apoio do governo

Mariana Peixoto 02/05/2020 06:00
Quinho/Arte EM
(foto: Quinho/Arte EM)


O que é essencial nesta quarentena? Em Montevidéu, Uruguai, nas cestas básicas distribuídas para pessoas em situação social vulnerável havia livros infantis, juvenis e também de autores como Júlio Verne e Aldous Huxley. Na Itália e na Espanha, as bancas de jornais permaneceram abertas durante o período mais crítico da pandemia de coronavírus. Em alguns países da Europa, as livrarias já começam a ser reabertas.
 
“Durante uma crise, o livro é visto por parte da população como supérfluo. Só que ele é muito mais do que um produto. Neste momento, o conhecimento e a educação são essenciais”, comenta o economista Henrique Farinha, fundador da Editora Évora.

A crise econômica, acirrada no país com o fechamento do comércio durante o período de isolamento social, faz vítimas em todos os setores. O meio editorial, por suas especificidades, vem sofrendo ainda mais.
 
O Projeto de lei 2.148/2020, apresentado pelo senador Jean Paul Prates (PT/RN), tenta alterar a Política Nacional do Livro (Lei 10.753/2003) para ajudar as micros, pequenas e médias empresas. O dispositivo prevê que instituições financeiras e agências públicas de fomento abram linhas de crédito para empresas, refinanciem empréstimos já existentes e flexibilizem requisitos de análise de crédito, entre outras alternativas de socorro.
 
O PL veio na sequência de pedidos que editores e entidades do setor apresentaram ao Ministério da Economia e ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). “O caráter de emergência faz com que projetos de lei como esse tenham andamento eventualmente mais rápido”, afirma Henrique Farinha. Não poderá ser de outra forma, ele completa, “pois não adianta dar remédio para o paciente quando ele está na UTI, entubado.”
 

"Em vez de 10 títulos, lançamos dois"

Rejane Dias, sócia do Grupo Autêntica

As especificidades do meio editorial (livrarias, editoras e distribuidoras de livros)  o colocam numa situação alarmante em comparação a outros segmentos de consumo. “Uma das características importantes do livro é que você não tem concorrência estabelecida. Quando lanço um romance ou um livro de poesia, com o que ele vai concorrer? É, ainda, um mercado que tem muito mais itens do que o de alimentos, por exemplo. Um hipermercado tem até 60 mil itens. Uma livraria pequena pode ter 100 mil títulos”, comenta Farinha.
 
E também há o aspecto financeiro. “Nesse mercado, habitualmente, trabalha-se com consignação (à exceção de livros didáticos). O editor necessita de capital de giro muito grande, pois tem que pagar toda a produção do livro, fabricar xis exemplares para colocar no mercado sem receber e nem saber quando isso vai acontecer. No setor alimentício, você vendeu e faturou, mesmo que seja em 21, 28 dias. O editor não tem a segurança de que o livro vai vender”, explica.

Adiamento


Exemplos do estrago causado pela pandemia não faltam. Uma das maiores e mais prestigiosas editoras brasileiras, a Companhia das Letras, adiou todos os lançamentos literários previstos para abril. Se nas grandes está assim, nas pequenas a situação é pior. Fundador da belo-horizontina Moinhos, que completa quatro anos em maio, Nathan Matos afirma que “2020 já acabou” para ele.
 
“Pedido de livraria não tenho nenhum. Mesmo que consiga manter negócios no site, a venda caiu uns 90%.” Dessa maneira, ele adiou os lançamentos deste semestre para o próximo. Os títulos previstos para sair a partir de julho deverão ser publicados somente em 2021.
 

"2020 já acabou"

Nathan Matos, sócio da Editora Moinhos

“Quando as coisas voltarem, haverá uma enxurrada de publicações, então não vai valer a pena lançar tudo. Estamos analisando, cortando tiragens pela metade, fazendo lançamentos quase que sob demanda”, afirma Matos.
 
Um dos sócios da Âyiné, que tem uma sede em Belo Horizonte e outra em Veneza, na Itália, Pedro Fonseca acredita que o e-commerce não resolve o problema. “Nunca investimos em venda on-line porque somos contra editora fazer venda direta. Estamos realizando, durante esse período, a venda no site, mas é muito pouco. Esse não é nosso foco, pois não há como competir com a Amazon.”
 
No Dia Mundial do Livro (23 de abril), títulos da empresa – A política do impossível, de Stig Dagerman, e Contra as eleições, de David van Reybrouck – estavam sendo vendidos na gigante do e-commerce com desconto de 80%, informa Fonseca. “As editoras têm de entender que a Amazon não pode continuar dando o desconto que quer, ou vai matar o mercado brasileiro. Na França, por exemplo, o desconto só pode ser de 5%.”

Articulação


Vice-presidente da Câmara Mineira do Livro (CML), que tem 60 empresas associadas (entre livrarias, editoras e distribuidoras), Leida Reis comenta que há um movimento do meio editorial do estado para tentar diminuir a sangria. “Todas estão vendendo muito pouco. O comércio on-line representa 20%, 30% do que elas venderiam com as portas abertas. As editoras adiaram lançamentos, e é no lançamento que você gira o seu capital. Eventos, que movimentam bastante, foram adiados. Não houve a Flipoços em abril, a Bienal foi transferida para setembro.”

"Não há como competir com a Amazon"

Pedro Fonseca, sócio da Editora Âyiné



A CML pediu ajuda aos governos de BH e de Minas. “Enviamos ofícios solicitando créditos para livrarias, editoras e distribuidoras. Há também uma questão pontual. A Secretaria Municipal de Educação de Belo Horizonte tem o kit literário e o kit afro, com livros distribuídos nas escolas municipais. São entre 2 mil e 3 mil exemplares de cada título escolhido. A última compra ocorreu em 2017. Houve novo edital, em janeiro, cujo resultado estava previsto para o meio deste ano. Solicitamos que ele seja antecipado para que as compras ocorram ainda neste semestre. Seria uma forma de capitalizar as editoras.”
 
Em meio a todas essas questões, há quem veja novas possibilidades surgidas durante a pandemia. Uma das maiores empresas do setor no estado, o Grupo Editorial Autêntica – que conta com quatro editoras e catálogo de quase 1,5 mil títulos ativos – vem registrando pequena queda no período se comparada com o cenário geral.
 
“Em março, houve redução de venda no varejo só de 8,2% em relação ao mesmo período de 2019. Isso, considerando o fechamento das lojas físicas (que funcionaram normalmente na primeira quinzena do mês). Em abril, a queda total será de 15% (em relação a abril do ano passado), considerando a agressividade da Amazon, que absorveu a quase  totalidade do mercado on-line”, comenta Rejane Dias, fundadora do grupo.
 
A editora, que até a pandemia não investia em venda própria on-line, passou a realizá-la. “Sempre escolhemos não fazer vendas pelo site para não competir com os livreiros. Aí você começa a perceber que por mais que se esforce para proteger os livreiros, não há o mesmo esforço da parte deles para preservar as editoras. Muitos dos nossos clientes (no caso, livrarias) não pagaram o mês de março, acerto de consignação de livros vendidos há 90 dias. É um anacronismo, pois em função da crise não vão nos pagar por algo que receberam há meses.”

On-line


De acordo com Rejane, ao incentivar a própria loja on-line, a Autêntica comercializou “o equivalente a 30 vezes o que vendia em um mês (na venda virtual)”. A editora prossegue com lançamentos, mas em outro ritmo. “Em vez de 10 títulos, lançamos dois”, afirma.
 
Para ela, a crise existe e é grande. “Só não sou catastrófica. O mais importante que aconteceu com a gente – não só agora, mas de dois anos para cá – é que escolhemos ficar com o leitor mais profissional, que tem o hábito de uma leitura regular e consistente. Hoje, vendemos Freud espantosamente bem e estamos ampliando a nossa linha de clássicos. Mesmo quando há crise, o livro continua fazendo parte da vida desse leitor.”

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