Escritores dão dicas de livros para estes dias de isolamento social

Milton Hatoum sugere a novela do mexicano José Revueltas, Adriana Lisboa indica clássico de Jean-Paul Sartre e Michel Laub recomenda ensaio de Natalia Ginzburg

Nahima Maciel 13/04/2020 08:15
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A literatura está cheia de prosa e versos sobre o isolamento. Pode ser distopia, ficção científica, poesia, existencialismo, horror, violência, contemplação. Tema constante, o isolamento social ou psicológico rendeu clássicos como a peça Entre quatro paredes, de Jean Paul Sartre, Moby Dick, de Herman Melville, e Robinson Crusoé, de Daniel Dafoe.

A pedido do Estado de Minas, autores consagrados da literatura brasileira indicam leituras sobre o tema para serem consumidas na quarentena. Adriana Lisboa, que mora em Austin, no Texas (Estados Unidos), enfrentou o confinamento antes de a medida ser adotada no Brasil. Por sua vez, André de Leones escreveu sobre o tema em Dentes negros, imaginando uma sociedade apocalíptica na qual restaram poucos seres humanos. O premiado Milton Hatoum já escreveu sobre o vazio e a solidão – filosófica e existencial.
 
 
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ANDRÉ DE LEONES


O goiano André de Leones ganhou o Prêmio Sesc de Literatura em 2006 com o romance Hoje está um dia morto. O livro escolhido por ele é 
O terror, do americano Dan Simmons, inspirado em um caso real. Em 1845, dois navios zarparam da Inglaterra capitaneados por John Franklin, oficial da Marinha Real e explorador calejado, com o objetivo de encontrar a Passagem Noroeste, que liga os oceanos Atlântico e Pacífico na região do Círculo Polar Ártico.

“A tripulação contava com mais de uma centena de homens e havia provisões para uma viagem de três anos. O problema foi que, pelo segundo verão consecutivo, não houve degelo naquelas paragens e os navios acabaram presos ao Norte do Canadá. E aqui a imaginação de Simmons começa a trabalhar para valer: além das óbvias questões de sobrevivência inerentes ao isolamento em uma região tão inóspita, os membros da expedição são acossados pelo que parece ser um animal gigantesco. Eles, então, tentam empreender uma fuga a pé, através do gelo. Como se pode perceber desde o título, trata-se de uma história de terror, tornada ainda mais horripilante porque muito dela aconteceu de fato. Claro que Simmons reinventa a coisa a seu modo e inclui diversos elementos fantásticos, mas, ao final da viagem, fica bastante claro quem é o maior responsável por aquilo que é aludido desde o título: o próprio homem."

O TERROR
. De Dan Simmons
. Rocco
. R$ 57 
 
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GIOVANA MADALOSSO


Finalista do Prêmio Clarice Lispector de 2017 com o livro de contos A teta racional e autora do romance Tudo pode ser roubado, Giovana Madalosso escolheu dois livros. Para “espairecer”, ela indica Nostalgia, do romeno Mircea Cartarescu. Para refletir, ela sugere A terra inabitável, do jornalista americano 
David Wallace-Wells.

“Nostalgia é um romance que rompe convenções, composto por cinco partes autônomas, e lança o leitor para bem longe daqui, para uma Bucareste fantástica e para o encantador universo onírico de Cartarescu. Em A terra inabitável, a crise da COVID-19 pode ser considerada a antessala da futura (e nada distante) crise climática. A terra inabitável ajuda a entender os desdobramentos e as formas de combate a essa outra catástrofe que vem em nossa direção.”

NOSTALGIA
. De Mircea Cartarescu
. Editora Mundaréu
. R$ 68

A TERRA INABITÁVEL
. De David Wallace-Wells
. Companhia das Letras
. R$ 43 
 
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ADRIANA LISBOA


Oficialmente, Austin, no Texas, declarou estado de “shelter in place” por causa da epidemia do coronavírus, mas o autoisolamento começou há muito para Adriana Lisboa, que mora na cidade e dá aulas na Universidade do Texas. Ela indica Entre quatro paredes, a peça escrita por Jean-Paul Sartre em 1944 que traz a frase clássica “o inferno são os outros”. Na história imaginada pelo filósofo francês, três personagens estão confinados em uma misteriosa sala sem que se saiba exatamente por quê.

“É um texto que trata da liberdade humana, de que modo a concebemos e como ela se manifesta no âmbito das nossas relações. Penso que a nossa atual quarentena é um momento apropriado para refletir sobre como queremos que seja a era pós-COVID, e de que modo podemos finalmente encenar um real humanismo não apenas no modo como nos relacionamos com os outros humanos em toda parte mas também com os animais, rios, mares, florestas, montanhas. Quem sabe finalmente entendemos que a liberdade de uns não pode significar o inferno dos outros.”


ENTRE QUATRO PAREDES
. De Jean Paul Sartre
. Civilização Brasileira
. R$ 49,90 
 
 
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MILTON HATOUM


Autor de Relato de um certo Oriente, Dois irmãos e Cinzas do Norte, todos vencedores do Prêmio Jabuti, Milton Hatoum escolheu A gaiola, do mexicano José Revueltas, que saiu no país pela Editora 34.

“A gaiola faz um recorte da vida degradante de três presidiários numa penitenciária da Cidade do México. Conciso, denso, narrado com traços de oralidade, o livrinho de Revueltas é ainda um exercício de estilo, bem ajustado a um gênero literário difícil: a novela. A estranheza, a violência, o horror do cotidiano são metáforas da descida ao inferno. Enfim, uma metáfora do nosso tempo.”

A GAIOLA
. De José Revueltas
. Editora 34
. R$ 42 
 
 
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MICHEL LAUB


Autor de seis romances, o gaúcho Michel Laub se volta para a italiana Natalia Ginzburg em tempos de isolamento. Nascida em uma família judaica da Sicília, Natália viu o pai e os irmãos serem perseguidos pelo regime fascista durante a Segunda Guerra. Seus livros mais conhecidos são o romance Léxico familiar e As pequenas virtudes, uma reunião de ensaios que Michel Laub recomenda para tempos de incerteza e recolhimento.

“É um misto de memória e conjunto de ensaios, escritos em épocas diferentes, mas com a mesma característica: uma inteligência afetuosa, digamos, partindo de algo que nos diz bastante respeito no momento: a visão de alguém que viveu um período histórico muito difícil (o fascismo italiano, a Segunda Guerra) e encontrou forças na vida miúda da casa, do dia a dia.”

AS PEQUENAS VIRTUDES
. De Natalia Ginzburg
. Companhia das Letras
. R$ 45

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