Bordadeiras de Caeté registram em livro pontos históricos da cidade

Grupo se reúne em torno de uma mesa de café e broa para bordar, e diz que a iniciativa contribui para preservar o patrimônio material e o imaterial

Gustavo Werneck 21/02/2020 06:00
GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS
Grupo de oito bordadeiras reproduziu 13 monumentos de Caeté. Capa da obra tem o mapa de Minas e foi bordada a diversas mãos (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)
A agulha perfura o tecido, mergulha na trama e segue seu destino, enquanto a linha dá cor aos desenhos e traduz, em beleza, o conhecimento de Lêda, os sonhos de Zélia, o talento de Heloísa, os afetos de Olga, a delicadeza de Karina, as histórias de Mauniz, a habilidade de Francisca e o esmero de Maria de Lourdes.

Ponto a ponto, qualidades e dons passam de mão em mão carregando sentimentos, para se unir às memórias de oito mulheres empenhadas em preservar bens culturais e fortalecer tradições com pura arte.
 
Em Caeté, na Grande BH, o grupo Bordadeiras-Historiarte mostra que entende do riscado e apresenta seus trabalhos: o livro Caeté em fios e laçadas, retratando 13 monumentos centenários, muitos deles surgidos na antiga Vila Nova da Rainha, e os quadros, emoldurados, dos originais bordados durante dois anos.
“A inspiração vem da vida, passa pelo coração, se transforma em sentimentos e se materializa na mãos, sobre o linho, algodão, enfim, um tecido”, afirma Lêda das Graças Costa Ferreira, pedagoga aposentada e apaixonada a vida inteira pelo ofício.
 
No ateliê que mantém no Centro Histórico da cidade, ela reúne a turma nas tardes de segunda-feira para dedicação total ao bordado em ponto livre, com um detalhe saboroso: café quentinho, suco de frutas, broas e muita prosa entremeiam o traba- lho. “Além da preservação, queremos, na oficina, despertar a comunidade para a importância do bordado, antes restrito aos enxovais, à intimidade dos casais, e hoje presente em almofadas, toalhas e roupas.”

Tudo começou em 2017, após a realização do projeto Bordando o Imaginário, no Museu Regional de Caeté, vinculado ao Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) – ali nasceu a proposta de resgatar a identidade histórica e cultural da cidade por meio da criação de desenhos e novas formas de expressão do bordado.

Na sequência, Lêda abriu as portas do ateliê, onde morou a mãe e “mestre em bordado”, Odete Almeida Costa, para receber amigas e demais interessadas em juntar técnica, talento e vontade de aprimorar o ponto livre, dono de um estilo essencialmente decorativo e linha contemporânea. “Nosso grupo está crescendo e já temos mais quatro participantes, que, no entanto, não fizeram os bordados referentes ao patrimônio. Homens são bem-vindos, mas ainda não apareceram”, conta, com bom humor.

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A turma de bordadeiras se reúne nas tardes de segunda-feira em Caeté (foto: GLADYSTON RODRIGUES/EM/D.A PRESS)


Os 13 quadros estão expostos no ateliê e, antes de admirá-los, o visitante deve prestar atenção na parede, revestida com telhas produzidas na antiga Cerâmica João Pinheiro, que pertenceu ao ex-governador de Minas João Pinheiro (1860-1908). Lêda se orgulha da decoração e vai mostrando cada obra ao lado das autoras. Os dela são três: o Museu Regional de Caeté, que abriga o Museu de Arte Popular, uma casa construída no século 18; o Santuário Nossa Senhora da Piedade, no alto da Serra da Piedade; e o Chafariz da Matriz, que fica ao lado da Matriz Nossa Senhora do Bom Sucesso.
 
O bate-papo com as bordadeiras rola solto, rende ótimos momentos e ninguém perde o fio da meada. Afinal, todas sabem de cor e salteado os meandros do ofício, de grande tradição em Caeté. “Estamos fortalecendo o patrimônio imaterial e preservando o material”, acredita Lêda sobre os objetivos do livro, editado com recursos do Fundo Municipal de Cultura (Fumpac).

Durante a solenidade comemorativa dos 306 anos de Caeté, no último dia 14, diante da Matriz de Nossa Senhora do Bom Sucesso, Heloísa Helena Urias Pinto Cândido ressaltou não só o gosto do grupo pela atividade, como o desejo de valorizar as riquezas da cidade, surgida no Ciclo do Ouro e palco da Guerra dos Emboabas (1707-1709). “Queremos crescer dentro da 'nossa' casa, fazer a arte florescer e dar frutos no município”, observa a também pedagoga, casada, mãe de aviador e filha de José Maria Urias, modelador e músico.

Considerada pelas colegas como célula mater da oficina de bordados, pelo empenho, Heloísa Helena bordou a Cerâmica João Pinheiro, fundada em 1894, e a Igreja Nossa Senhora do Bom Sucesso, erguida entre 1752 e 1758.

Dizem que no interior quase todo mundo tem parentesco, e esse grau fica bem claro nos encontros das segundas-feiras. Heloísa, por exemplo, é filha de Mauniz Profeta Urias Pinto e sobrinha de Maria de Lourdes Valéria Costa e de Zélia Maria Urias Sérgio. Avó de um aviador e com muitas histórias para recordar, Mauniz gosta de dar asas à imaginação. Os seus dois quadros, recriando a Pharmácia Ideal, têm nuvens sobre o estabelecimento, aberto em 1918, e a estação ferroviária. “Quando bordo, fico meio aérea”, conta, com a experiência de 79 anos e uma família de três filhos e três netos.
 
Olhando para sua obra, a Capela e Cemitério de Nossa Senhora do Rosário, “de arquitetura barroca”, a dona de casa Zélia, de 73, encontra na palavra “amor” a melhor de todas para descrever a vocação do grupo para o bordado. “Esta oficina funciona como terapia, na verdade, arteterapia”. Ao lado, a caçula da turma, Karina Aparecida Gomes, de 37, formada em gestão ambiental, tem a certeza de que o bordado resulta de técnica, gosto e vontade, além de ser ótima companhia. Das mãos dela brotaram o Chafariz da Cadeia Velha, de 1800, e o Pelourinho do Poder, de 1772.

Trazendo a experiência de quem foi aluna da mestra em bainha aberta Maria Xavier, falecida há sete anos e famosa pelos bordados aprendidos com a mãe, dona Lica, do distrito de Morro Vermelho, Olga Coelho Ferreira Marques acrescenta ao currículo os ensinamentos passados pela avó e as tias. No livro, puxou os fios do novelo para dar forma à Casa João Pinheiro – Solar do Tinoco, imóvel que pertenceu ao Barão de Cocais e guardião da memória da família Pinheiro.

Também com a arte no sangue, Francisca Paulina Figueiredo conta que ficou 28 anos fora de Caeté e, teve, na oficina, um aconchegante retorno à sua história. O quadro que “bordou” é Capela Santa Fructuosa, construída de taipa e adobes no fim do século 18 ou princípios do 19. Já Maria de Lourdes Valéria Costa, com alegria pela vocação de bordadeira, se inspirou na Igreja São Francisco de Assis para deixar seu nome gravado na história de Caeté.

A capa do livro foi feita pelas bordadeiras a ‘16 mãos’ e traz o mapa de Minas com cinco dos monumentos mostrados. O cuidado é tanto que, até na apresentação e nos textos, a caneta foi substituída pela agulha e pela linha, assim como nos contornos do mapa do Centro de Caeté.

“Aqui é muito democrático, tudo é conversado e escolhido pelo grupo. Para comprar o material, nós nos cotizamos”, conta Lêda, que teve apoio, no ateliê, da filha Raquel Coelho Ferreira, também encarregada da diagramação e das fotografias da obra.

Caeté em fios e laçadas
Grupo de Bordadeiras Historiarte
R$ 35
À venda no ateliê do grupo, que fica na Avenida Dr. João Pinheiro, 745, Centro, Caeté. Pedidos pelo e-mail historiartes2@gmail.com ou pelo telefone (31) 98890-1366.

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