Após inundação de casa, projeto 'Nessa Rua Tem um Rio' segue em frente

Sede da iniciativa de arte-educação fica na Rua Padre Belchior e foi invadida pela água da chuva de terça (28). No próximo dia 15, churrasco na via abre edição 2020

Silvana Arantes 02/02/2020 06:00
Jair Amaral/EM/D.A.Press
A artista Thereza Portes na casa construída nos anos 1930 que pertenceu ao seu avô e hoje é sede do Instituto Undió (foto: Jair Amaral/EM/D.A.Press)

“É uma casa construída em 1930, simples, estilo art déco. A casa de uma família normal que morava no Centro. Meu avô era médico e atendia as pessoas que iam procurá-lo”, diz a artista plástica Thereza Portes, sobre a edificação no número 280 da Rua Padre Belchior, hoje sede do Instituto Undió.
A ONG se dedica à educação de jovens pela arte. Um de seus projetos chama-se “Nessa Rua Tem Um Rio” e ocorre aos sábados, quando Thereza monta, em frente à casa, uma mesa de 10 metros de comprimento e serve o café da manhã a quem queira chegar.

Sempre há um convidado prévio para o encontro – um artista interessado em experiências de intervenção urbana, que propõe ao público um jogo ou uma reflexão sobre determinado tema. As iniciativas às vezes são conduzidas por alunos do instituto. A ideia é proporcionar a quem circula pelo Hipercentro da cidade uma pausa na rotina, como modo de desobstruir o olhar para a relação com o ambiente urbano.

Na noite da última terça-feira (28), a casa foi inundada, quando a Rua Padre Belchior voltou a tomar a forma de um rio, depois do temporal que despejou 175,6 mm de água sobre a Região Centro-Sul da capital mineira, entre as 19h e as 22h10, segundo a Defesa Civil. No dia seguinte, Thereza e outras cinco pessoas passaram trabalharam “para tirar a lama”, segundo ela diz. “Acho que perdi o piso da parte debaixo, que é de taco. Acabei de restaurar a casa em 2014. O resto está lá, inteiro. Ficou com quase um palmo de água no chão.”

Nessa rua tem um rio é também o nome do livro que Júlia Portes, mãe de Thereza e sua parceira na coordenação da ONG, está preparando há anos. “Ela escreveu várias histórias da infância, das enchentes. Para ela, as enchentes eram um momento de alegria. Todo mundo contava sobre os peixinhos que vinham do rio e tentavam sobreviver. Todas as lembranças dela da casa têm relação com o rio na vida dela”, afirma Thereza.

A artista de 53 anos também tem suas memórias de infância entrelaçadas com o curso do Córrego do Leitão. “Eu nadei na nascente do córrego, no São Bento”, diz. Há ainda uma memória especialmente triste, de anos depois. “Assisti ao sepultamento do rio. Foi uma obra gigantesca e foi muito forte para a gente. Apagou a nossa memória do rio.”

RESTAURAÇÃO 

Antes de estabelecer a casa da Rua Padre Belchior como sua sede, Thereza e Júlia promoviam suas iniciativas de arte-educação “reunindo na sala de casa, tudo misturado com a vida pessoal”, conforme diz a primeira. Em 2006, Júlia conseguiu comprar de seus quatro irmãos a parte que lhes cabia na propriedade da família, e mãe e filha foram “restaurando a casa, aos pouquinhos”.

Na primeira reunião realizada ali, Júlia abriu sua conversa com os alunos dizendo: “Vocês sabiam que nessa rua tem um rio?”. Thereza percebeu que “essa é uma ideia forte, que mexe com as pessoas” e que servia também como uma identidade adequada para o que o Instituto Undió pretendia construir.

“'Nessa Rua Tem um Rio' virou um projeto interdisciplinar. Era um projeto de arte que acabou aproximando pessoas de áreas diferentes para conversar sobre esse assunto. Foi uma coisa que aconteceu ao longo do projeto – proporcionar um lugar de debate, pensar o lugar de convívio, a natureza dentro da cidade, como a gente pode construir uma relação mais saudável”, diz Thereza.

Nesta semana, quando a água tomou conta da casa, a artista ouviu várias vezes o mesmo comentário. “Meus tios e minha mãe, todos vieram me dizer que nunca entrou água na enchente.” Júlia Portes completou 81 anos no dia seguinte ao temporal. Thereza observa que “há muito tempo o pessoal do meio ambiente vem alertando, falando da possibilidade de renaturalização do Córrego do Leitão. Vamos ver como a cidade vai trabalhar com essa questão. Será que a gente vai conseguir voltar a conviver com o espaço de vida natural na cidade? Acho preocupante. Venho escutando especialistas no assunto há muito tempo”.

A primeira edição do projeto “Nessa Rua Tem um Rio” neste ano está marcada para o próximo dia 15. Desta vez,  a reunião não será em torno de um café da manhã, mas sim de um churrasco. “Vai ser uma confraternização da rua. As lojas também perderam. E todos queremos recomeçar antes do carnaval”, diz a artista. Já o livro Nessa rua tem um rio, de Júlia Portes, não tem previsão para ficar pronto. Assim como a história da cidade, que continua se escrevendo, Júlia tampouco termina sua obra.


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